Monday, February 28, 2005

Parati

Parati, como foram grandes as alegrias e intensos os sentimentos.
Lembranças e recordações de excelentes momentos.
Experiências e descobertas a cada passagem.
Suas ruas empedradas e casas coloniais.
Seu ar bucólico e calmo contrasta com o fervor e a paixão de suas águas.
A calmaria da ribeira, com seu leve arrastar de pensamentos e dúvidas.
Certeza, plenitude, clareza e objetividade.
Um caminho entre caminhos, esquinas e rostos.
Semblantes de um tempo indefinido, chamado presente.
Convivendo com passado e futuro na mesma pele, na mesma alma.
Sofre de amores, dores e perdas. Chora tuas lágrimas em tua grama morna.
Escuta o balanço do vento nos coqueiros, o soar dos pássaros, das pessoas.
Vive o presente que nos é dado.
Um retorno e uma despedida.
Uma procura e um encontro.
Entre olhares e corpos. Lembranças tácteis, sonoras, olfativas.
Sem aquele gosto, aquele rosto, aquelas pernas.
Você.
Parati escrevo uma pequena lembrança de um presente ofegante.
Querias que estivesse comigo, que pudesse viver tudo aquilo.
Mas sei que viveste e estiveste lá. Comprovara com o corpo e o espírito o ar.
Um beijo parati.

Saturday, February 19, 2005

Tristes amarras

"Nada é fixo para aquele que alternadamente pensa e sonha..."
Essas tristes amarras que nos impedem de avançar e atingir nossos objetivos. Elas são tênues ou gritantes, clamam por resolução, dissolução. Namoros, beijos, encontros, casamentos, trabalho. Tudo, sem exceção, pode fazer parte constituinte dessas amarras.
Grades, cordas e correntes. Peso, enfermidades, tristeza profunda e melancolia. Estados da alma que refletem nosso desejo de libertação, de conquista de um sonho. Sonho e ilusão, convivência pacífica no mundo da imagem e do ideal. Porém, desilusão e realidade, relação explosiva no mundo da linguagem e do capital.
Gordos, magros, fenícios ou brasileiros. Todos sofrem e sonham e pensam em atingir objetivos, ultrapassar obstáculos e realizar um antigo sonho. Transmitido na voz daqueles que nos contam nossas histórias, que relatam nossa viagem. O outro através do qual existimos. Construção de caminhos singulares através da interpretação e tradução de vozes incessantes que nos dizem de nós mesmos. "Permanente retificação".
Encontro de opostos, antagonismos conversam e lado a lado estabelecem formas de pensar e sonhar. Desconstrução de paredes, edifícios e arquipélagos de pensamentos e imaginação. Criação solta e descontínua de um olhar, abstrato, perdido, corrompido pelas tradições e contradições da cultura.
Permanente mudança. Contradição semântica de uma vida baseada em sonhos e perdas. Tristes amarras que nos seguram e impedem que sigamos a corrente do rio. Soltemo-nos! Permitamos viver a intensidade do rio, de suas quedas e marasmos, da insegurança e da incerteza, da força e da vitalidade.
Amarrarás, amarras, amarás, amara, amor.

Monday, February 14, 2005

Outra vida

Acordei uma vez em lugar desconhecido
Não reconhecia nada, nem o cheiro do ar
Acordara de repente com o som de uma voz
Não sabia de quem, nem de onde ela vinha
Meu corpo cansado não conseguia mover
Minha mente perturbada não podia pensar
De imagem em imagem, figurava-se uma vida.
Acordei assustado, não sabia quem era
Ou o que estava fazendo ali e para onde ia
Não havia sequer uma poça para servir de espelho
Meus olhos não encontravam janelas, nem portas
Não havia paredes, nem teto, nem salas, nem quartos
Minhas mãos trêmulas procuravam em vão
Um encosto, uma ferramenta qualquer
Meus olhos marejados resistiam ao vento frio.
Respirava um ar cadenciado, pesado e inseguro
Pensava sem razão, nem limites, nas coisas da vida
No nascimento, na morte, no amor e no trabalho
Quem seria responsável por tudo aquilo?
Não será fácil encontrar respostas
Tampouco direções, sentidos para as questões
Um brilho intenso, porém distante me ligava
Me trazia para dentro de mim mesmo
Me sentia preso, antenado, implantado
Como um dente postiço na realidade da boca
Pendia como um cabelo solto, preso à roupa.
Acordei assustado, ofegante e perplexo
Diante daquela imagem, da minha figura
Preso, perdido, inaudito, esquecido
Um olhar sem retorno, sem o outro
Uma voz sem ouvido, sem tom nem sentido
Outra vida que se abria, uma vida que morria
Um sonho que há muito esquecia
De um brilho no escuro do esquecimento
Numa realidade perdida em realidades.
Outra vida, de alguém, de um sonho real
Vida outra, de ninguém, de um real onírico
Outra... vida... alguém... ninguém...

Wednesday, February 09, 2005

Vai e vem

Vai e vem das ondas, do vento
dos sabores e das cores
vai e vem de amores, de dores
de desespero e da loucura.
Vai e vem de olhares, de beijos
de cheiros e temperos
vai e vem de energia, de contato
do outro e de si mesmo.
Neste vai e vem experimento
brinco com a palavra, com o céu
brinco de ser entre, solto, fluido
protegido apenas por um chapéu.
Vai e vem carnavalesco, burlesco
trans, multi, duo, solo
plural e contínuo, ininterrupto provar
testar de limites e fronteiras
vai e vem de pensamentos, imagens
frutas e pratos.
Vai e vem quente e úmido
encharcado, pesado e leve
assado ou frito, com cerveja e cachaça.
Grande beijo aos foliões de todo Brasil!!
Soltemo-nos sempre!! Libertemo-nos!!

Wednesday, February 02, 2005

Carnaval e loucura

Quem acredita nos ditames de época e nos valores que regem nossas atitudes, tende a deixar de lado as relações entre as coisas, entre as pessoas e os momentos. Somos tudo aquilo que sonhamos e mais um pouco no olhar do outro. A carnaval nos libera do enfadonho papel de cidadão civilizado e acostumado com as regras sociais, domesticado digamos assim. Como tentamos fazer com a loucura, tampando nossos ouvidos e fechando nossos olhos. Não percebemos as possibilidades e riqueza ímpar que existem na loucura. Sem romantismos. A loucura é feita de sofrimento, de uma angústia e perplexidade únicas. Porém, existe algo de criativo também. De uma nova configuração da vida e da realidade. Nesse sentido, o carnaval cria sua própria loucura, domesticada nos blocos e desfiles.
A loucura própria do carnaval é marcada pelo exagero e excesso. Um momento em que os limites se alargam e aquilo que nos anima pode vibrar. Aquilo que vem do animal humano, da origem de nosso ser primitivo.
O carnaval e a loucura em muito se assemelham. As falas entrecortadas, os olhares e sabores. Cheiros de uma nova vida que se abre. De sofrimento, de alegria, de surpresa e amor. Tudo que advém da loucura ou do carnaval é produtivo, uma vez que algo novo se estabelece. Uma outra razão. Talvez aquela esquecida no fundo do peito. Ou ainda aquela irremediável paixão pelo samba e vibração do carnaval.
Seja como for, loucura ou não, sob o domínio do clóvis ou na vida cotidiana, libertemo-nos, sejamos livres para mudar a realidade e as pessoas que nos rodeiam.

Tuesday, February 01, 2005

Olhando o galho seco

Um galho seco caído ao chão. Símbolo para o olhar, matéria em decomposição.
Um pedaço da árvore, de mim, que cai.
Como um esqueleto, olhando galho seco
Noto a ausência de significado em sua existência
Mas, o que chega ao olhar é o símbolo do tempo
Da eterna passagem do tempo e da perda
Daquilo que uma vez significou pouso, abrigo para os pássaros
Hoje, morto, cai ao chão, perde sua função, fica ali para alguém olhar.
Olhando o galho seco, vejo minha vida
Vejo a vida de muitos, de todos que uma vez amaram
O galho seco olha de volta, me diz que seu tempo acabou
Me saúda com graça e sorri com doçura.
Sua morte é apenas uma passagem
No tempo, no espaço, tudo é perecível, mesmo o amor.
O galho seco é amor, porque é belo, é sem sentido, perdido
Belo em suas formas, em seu conteúdo
Sem sentido em sua existência, em sua utilidade
Perdido ao estar caído no chão, separado da árvore que lhe deu origem.
Como um galho seco caído ao chão, reparo em você
Perdemos o contato, o fio da meada
Aquilo que nos ligava à árvore do amor e da fala
Caiu com o galho seco, passou na passagem do tempo
Das escolhas, dos olhos, dos corpos e pensamentos.
Olhando o galho seco caído ao chão, vejo a mim mesmo
Caído, saído de um todo, descolado do mundo
A parte do vivente, do presente inaudito, da graça do amor
Como o galho seco, uma parte de mim morreu
Mas, morreu com graça, beleza e amor