Sunday, March 27, 2005

Felinos e sonhos

Olha-me desleixado, estica o corpo, range as articulações.
Abre os olhos castanhos e reflete o mundo nas pálpebras.
Agarra o tapete, estica mais um pouco, respira suave.
Ergue a cabeça e repara no que acontece ao seu redor.
Sente os movimentos e assume a melhor posição.
Fita com interesse uma bola no chão. Pula e sacode.
Fica em pé e brinca. Corre e saltita.
Sua vida é impulso.
Seu combustível o ar, a comida, o espaço, a convivência, o aprendizado.
Escala rapidamente a parede e encara com doçura um interlocutor.
Espalha o pêlo e esfrega a pele, a cabeça e os ouvidos.
Contagia com a leveza, a calma e a sabedoria.
Contorce o corpo em busca de carinho, de chamego.
Sente o cheiro, fustiga-se com o odor, contamina-se de paixão.
Levanta o rabo e estica as garras.
Salta de um só vez no vazio da sala.
Continua sem receios, por impulso, precipitação de desejo.
Vai, desaparece, some de minha vista.
Me deixa por instantes sozinho. Para depois reaparecer.
Surgindo manhosa pelo chão e subindo o sofá com agilidade.
Seu espírito é livre e conduz-se sem medo, sem freio, sem curva.
Num mundo de sensações e sentidos puros.
Onde não há a razão para explicar, ou as palavras para complicar.
Só há sentimento, de pertencer e de ligar-se.
Via físico e mental, amoroso e social.
Numa colcha de retalhos, amarrada por fios de sonhos.
Filamentos de tempos entre tempos.
Dissonância entre vozes, diálogos entrecortados.
Olhares correspondidos, laços estabelecidos.
Desperta deste sonho entre felinos e comunica-lhe com clareza:
Sois teu! Tens dúvida ainda?
Onde guarda teu amor? Tua dor?
Caminha comigo entre felinos e sonhos. Sonha comigo este sonho.
Adormece ao meu lado e desperta-me com carinho.
Arranha levemente minha pele e me faz sentir o mundo.
A pulsação da terra.
Coloca teu peito no meu e escutemos os corações. Deixemos que conversem.
Respiro profundamente. Sinto um ar diferente, a gravidade menos atuante.
Sinto-me leve. Sinto-me vivo.
Sinto o impulso, a precipitação de desejo, sensações e sentidos puros.
Reflito em mim mesmo esse olhar profundo de felinos e sonhos.

Saturday, March 26, 2005

Imaginação e afeto

De onde surgem essas imagens, paisagens de um sem nome de afetos e sentimentos?
Para onde seguem tais imagens, tais sentimentos e afetos de um presente suspenso?
Não logro encontrar respostas. Ao menos pistas, dicas, de um caminho possível.
Por entre imaginação e afeto, palavras, símbolos, sinais e sintomas de um ser.
Sensível por natureza, confuso pela lógica, enrolado na linguagem de um amanhecer infinito.
Perplexo frente ao absurdo que é existir, pensar, sentir, sofrer e chorar.
Lágrimas de uma morte anunciada, desejada, digna.
Mar adentro, mundo adentro. De renúncias e medo. Horror diante do espelho, da miséria da vida sem movimento.
Há sempre movimento. Nas palavras, no pensamento.
Há sempre vida, mesmo na morte, na ode de um não existir, mais.
Mais e mais. Desejo de morte, pulsão incontrolável, inominável, abominável, insustentável leveza de um ser denunciado.
Estirpado de sua própria natureza, pela lógica da linguagem e das imagens.
Imaginação e afeto conversam, dialogam no presente insandecido da paixão.
Imagina, ação, afeto, afeito, afoito. Por um outro inigualável, indescritível.
Soberba, lascívia.
Permanentes imaginação e afeto. Interrupções de um discurso mutável, descontrolado.
Fantasia e contato. Derme e intenção. Suor e lágrimas. Suspiros de um não saber.
Desconhecer o conhecido, estranhar o familiar. Surpreender-se com o comum.
Abalo sísmico de uma terra virgem. Intocada, selvagem, arredia ao controle.
Vento e chuva, brisa suave de um dia sem horas. Brilho eterno de um amanhecer sem lembranças.
Constantes imaginação e afeto, constróem um império de sentimentos e fantasias.
Crepúsculos finais de uma tarde chuvosa.
Conversa solitária entre almas à distância.
"Aprende-se a chorar através de sorrisos".
Mergulho mar adentro.

Sunday, March 13, 2005

Mulheres e mistérios

Cada pessoa, seja homem ou mulher, é um enigma em particular. Existem, por conseguinte, infinitas tentativas de dar forma a esse mistério da existência humana. Literatura, música, pintura, escultura, nossa! quanta coisa o ser humano constrói, transforma, inventa, cria, para ensaiar uma resposta a suas perguntas e devaneios.
Porém, a primeira e inegável diferença que marca a existência humana é o sexo. Tal diferença, contudo, sofre mudanças de acordo com a cultura e o tempo sócio histórico.
No entanto, ela existe de maneira intocável ao longo de toda história da humanidade. Aos homens uns papéis, umas possibilidades, oportunidades. Para as mulheres outros papéis, outras oportunidades, possibilidades, aberturas para existir.
Atualmente, as fronteiras estão cada vez mais diluídas. Os limites entre os sexos se estreitaram e continuam se estreitando conforme a sociedade estabelece novos parâmetros, ou modalidades de gozo. Já não existem papéis tão claros, distintos com clareza. Hoje, existir é uma questão (de) capital, se é que você me entende. É claro, entretanto, que o capital equivale ao poder, ao saber. Dessa forma, o sexo se torna uma questão de poder-saber-capital sobre si mesmo e o outro.
Para este autor que lhes escreve, o ser humano existe articulado, necessariamente, ao sexo que lhe constitui. Portanto, para este homem que lhes fala, a mulher é a personificação do mistério de existir. Existir no silêncio, no fala, na presença, na ausência.
A mulher é o código do qual surge todas as modalidades de gozo possível. Assim, sua manifestação enquanto fenômeno social e subjetivo, permanece um mistério, um enigma, capaz de enrolar o homem no mais denso emaranhado de nós e laços.
Mulheres e mistérios são sinônimos e figuras de uma existência marcada pela falta, pelo vazio. Sem ilusão de resolver qualquer mistério, o homem procura, desbrava, desmata, mata, sempre em busca de alguma metáfora possível para esse mistério que é a mulher.
Mulheres e mistérios, esfinges e pirâmides. Construções, formas, figuras e mitos.
Diferença entre sexos, entre existências em uma mesma falta. Olhares atravessados, corpos dialogando, bocas se tocando. Respiração de um existir solícito por novas formas de gozo.
Portanto, vivamos a falta, investiguemos essas modalidades de gozo, de existir na diferença essencial entre os sexos. Beijos a todos. Que Vênus os abençoe.

Wednesday, March 09, 2005

Tactum citurnum

o que é isso?
que é isso?
que é?
quem é?
quem bate?
quem clama?
quem chora?
quem reclama?
quem se espanta?
quem se enamora?
quem se lembra?
quem se recorda?
quem quer recordar?
quem se importa?
quem sente?
quem se sente?
quem respira?
quem é?
tempo, espaço, pessoa
lugar, momento, companhia
sentimento, pensamento, atitude
idéia, frase, provérbio
letra, imagem, som
amor, amizade, carinho
cuidado, disposição, compreensão
respeito, reflexão, reflexo
permanência, saída, exclusão
preconceito, conceito, valor
religião, dogma, ideal
paixão, fissura, acidente
praia, serra, chapada
fogo, ar, água, terra
quatro elementos
de uma frase conceituada no quebradiço telhado da decomposição humana
luxúria, desperdício, corrupção
intriga, mentira, ira
sobretudo paixão descontrolada errando pelo sótão de um cérebro atônito
as perspectivas se abrem os horizontes se estreitam num vai e vem suave
consomem-se horas e horas em discussões e interpelações de humor
intempestivo e incoerente, porém, organizado e docilmente construído
um arquipélago de acontecimentos, acidentes, arranjos e desarranjos
melodias, dramas, comédias, óperas, trash, B, noir, avant garde,
ritmos e mensagens de um inconsciente coletivo formador de opinião pública
ditado pelo capital e pela ganância humana, tudo pelo lucro, pela barganha
talvez por isso os covardes não ocupem o lugar da análise
interdependências múltiplas confluem na construção de um outro repertório
dimensões e capacidade únicas capazes de transformar a comunicação
aperfeiçoamento das técnicas laboratoriais e perícias de campo
investigação inescrupulosa de todas as nossas vidas, nossas ações, nossos erros
porém, a cidadania representa o reflexo atravessado pela falta do outro
suficiente bom, suficiente seguro, inseguro, ausência e permanência, movimento
pulsão de um ritmo lunar, astral, individual, familiar, geracional
passagem de um ritmo pulsante no coração, nas vísceras, nos bagos
en los cojones si lo dicho correcto, não há mais limites ou fronteiras
entre eu e o outro existe, no fim, uma fronteira, um limite
um sem saída, mão única do divertimento humano em amar e ser amado
brilho eterno, fotos e lembranças

Sunday, March 06, 2005

Tragédia em um ato

Perdeu de vista aquela imagem que lhe parecia a mais bela sobre a terra. Experimentou um súbito surto de angústia e desespero, só, separado daquela criatura singular. Ao seu redor somente as árvores conversavam entre si, rangendo os galhos em abraços imensos, sorrindo ao sabor do vento em suas folhas. Árvores, corpos, onde a seiva corre por largos dutos, chegam em grande escala. Percorrem o subsolo, a superfície, o espaço.
Sorrindo de sua própria condição, lograva encontrar novamente a imagem que lhe suscitou tanto desejo e paixão. Sabia, no entanto, que não a teria outra vez, permaneceria como imagem, lembrança. Perdido, não querendo acreditar, pôs-se a correr por entre os bosques de árvores que conversavam eternamente. Rompendo com as fardas, com os botões e fitas, corria em busca do belo, da perfeição. A imortalidade nada significa para quem olha e procura o belo, a perfeição. Este sabe que terá, algum dia, que morrer por aquilo que anseia.
Exausto, repousa em raízes profundas, onde existem outros mundos. Mundos minúsculos e fantásticos. Sua cabeça lateja e o corpo pede por clemência. Seus olhos semi-cerram com as gotas de suor e lágrimas carregadas de ira e ódio.
Sua cor era branca, pálida como cera. Porém, seu rosto despontava a vermelhidão do sangue lhe percorrendo os mesmos dutos daquelas árvores. Sentiu-se como parte daquela selva. Seu corpo, sua existência para além dos sentidos, sua razão e lógica individual, lhe haviam mostrado que o belo era a única busca satisfatória.
Abriu levemente os olhos e percebeu que voltava de algum lugar. Outro lugar. Vinha de uma escuridão, de uma ausência. Permanecera nesse lugar, entre uma coisa e outra, nem acordado nem dormindo, num crepúsculo transcendental. À medida em que retornava ao mundo da luz e da imensidão, percebia que teria de continuar sua busca. Não poderia desistir. Sua luta seria perpétua, até a morte.
Levantou o olhar para as copas das árvores que, nesse momento, cuidavam atentamente daquela pequena e frágil criatura. Suas raízes criaram proteção e alimento para a alma. Suas folhas acariciavam o vento numa melodia fenomenal.
Ergueu o corpo, seguiu obstinado um caminho qualquer. Não tinha nada, exceto a lembrança sensível daquela imagem real e vívida da perfeição.

Saturday, March 05, 2005

procurava afoito por um lugar para sentar
minha respiração faltava, me deixando sem ar
suava por dentro, transpirava odores de lembrança
de sonho, de ideal buscado no tempo
percorrendo as linhas do deserto,
soprando junto com o vento,
meus olhos captavam muito pouco
de qualquer coisa
um vôo, um assobio longínquo
resplandece uma aurora mais no horizonte
perco de vista os nós da terra
soberbo céu, luz de amanhã
de ontem, de morte
de outro dia vivido na rua
procurando árvores para me esconder
me ajeitando entre um vento e outro
sentindo o vazio no estômago, na memória
vou, vou caminhar por aí
entre o céu e a terra, firmando meus passos
passando entre coisas, entre olhares
entrando a cada intervalo, num intervalo e num intervalo
melodia constante do tempo, tempo, tempo
ressonância acústica que vibra meu corpoalma
para sempre, estarei em contato com o mundo

Friday, March 04, 2005

Inconstância

Sigo apostando, escolhendo caminhos, sentidos para minha vida.
Arrisco-me nas letras, nas imagens e nos sons.
Na dança, no teatro e nas performances.
Sou inconstante, desvairado, sem rumo.
Por isso paro nas estações de trem, do ano.
Perco o ritmo do tempo ditado pela norma.
Sou eu quem faz meu tempo.
Sento por um instante na estação, espero chegar aquele veículo que me levará daqui.
Reparo no vento que sopra docemente em meus ouvidos.
O sol brilhando forte nos trilhos negros de óleo.
Outros corpos, outras almas circulam na estação.
Amigos, estranhos, conhecidos e esquecidos.
São pessoas que esperam, que partem e que chegam.
Seus trens têm hora marcada, cada qual com seu destino (se é que isso existe).
O meu trem não sei quando chega, nem quando sai.
Não tera hora marcada, nem previsão de chegada.
Minha estação tem sempre uma lanchonete, em caso de esperas demoradas.
Não perco tempo, tudo é positivo, tudo é aprendizado.
Imagino sua última partida. Como chegou, como ficou a soar seu apito.
Quanto demorou para partir e não voltar mais.
Permaneci sentado no banco de madeira, todo marcado por lembranças, nomes e datas.
Olhava o céu e sentia a força do dia em minha pele, em meu esqueleto.
Passaram-se horas desde que partiu. Dias, semanas, meses e anos.
Não esperava mais aquele trem. Não esperava nem que chegasse outro.
Levantei-me fui lanchar. Engoli com sofreguidão o pedaço do mundo que me chegava.
Escutei um ruído. Talvez fossem trilhos rangendo, rodas de aço cantando ao caminho.
Um apito e uma chamada. Uma voz doce e um olhar suave em direção ao horizonte.
Aquela estação não era mais minha.
Outro trem que chegava, outra partida anunciada.
E assim, na inconstância, continuei esperando sua chegada.
Sabia no fundo que aquele trem não chegaria. Seria outro, um outro. Diferente.
Sabia também que não devia esperar mais. Que o melhor seria partir.
Ou, olhar para outro horizonte, para outras estações.
Seguir outros trilhos e chegar onde nunca imaginei.
Pensava, pensava, pensava...
Lembrava de algumas palavras, de uns sorrisos e de muitos toques.
Sabia que seria difícil partir. Mas tinha de faze-lo.
Esperei tanto tempo, com tanto entusiasmo. Não podia deixar passar.
O trem que vinha vindo não iria parar, só diminuir a velocidade para os mais corajosos.
Percebi seu balanço, seu equilíbrio, e entrei num dos vagões.
Não me lembro para onde estava indo, mas andávamos.
Senti aquele antigo arrepio de adolescência. Um frio na espinha frente o perigo.
Inconstante, toco fogo na lembrança e adormeço com a fumaça.
Freia e range suas rodas. Diz-me onde estamos, se chegamos.
Não me diz nada. Não sei.
Sem saber, já estava fora, já havia descido, ou sido descido por alguém. Por um desconhecido.
Olhei e vi minha estação com sua lanchonete antiquada.
Café com biscoitos.
Refeição mundana para um viramundo como eu.
Sentei e refleti por uns instantes naquele local.
Estava na minha estação. Estava de volta? Havia chegado? Havia partido?
Não me interessava mais.
Continuei por mais algum tempo a viajar naquele espaço sem tempo.
Onde os três tempos conversam e trocam datas.
Olhei o horizonte até cansar. Adormecido, lembrei: sou onde não estou.
Abri os olhos e percebi que o trem não existia mais. Tinha de fazer outro.
Não importava. Já tinha minha estação, minha lanchonete.
Coloquei tudo na mala da memória e fui conhecer a cidade.

Thursday, March 03, 2005

Pelas ruas e esquinas da cidade

Ando pelas ruas e esquinas da cidade, como Viramundo, encontrando gente, animal, vegetal e mineral. Penso nos desvios, nas curvas, no chão batido pelos pés de um corpo desviado, encurvado. O tempo passando, a chuva caindo e o vento soprando.
Ando distraído, passo ruas, entradas e outros mundos. Ando cansado, pelas esquinas, ângulos fechados, abertos. Encontro de caminhos, escolha a ser feita.
Prenuncio de mudança, de incerteza, de insegurança. Anuncio prévio do fracasso singular da existência no tempo espaço do presente.
Perco o sentido, caminho sem direção pelas ruas e esquinas da cidade. Perco a identidade, o apreço, o endereço. Já não sei direito onde estou. Num mundo de histórias, contos e causos. Explosão de vozes sobre mim mesmo. Palavras e comentários de uma existência errante, errada.
Componho junto com as ruas e esquinas da cidade. Percorro corredores, edifícios, pátios e jardins. Procuro um sentido para a vida, uma direção, um objetivo. Mas não adiante forçar a barra, nem engolir as exigências, tampouco respirar o mercado de trabalho.
Excrementos de um percurso indefinido. Restos de uma letra apagada, de uma palavra esquecida. Um regojizo final pelas ruas e esquinas. De uma cidade cruel, amarga, rebelde. Ruas escuras, esquinas repletas de putas, cheiro de urina e corpos sonhando com uma vida melhor.
Insatisfação, perturbação do desejo. Desalento, descrença, desapego. Apoio-me sobre um patamar de gesso e cimento. Uma caixa d'água, um reservatório inútil. Cresci em altos e baixos, lado a lado com a loucura, com o desvio, com o insólito.
Discurso varrido para debaixo do tapete. Palavra esquecida de um amor impossível.
Por que sofro por amor? O amor deveria me colocar radiante, ligado, em contato com o mundo, com o outro. Objeto de desejo, de satisfação, de entrega. Porém, de perda, de incerteza, de renúncia.
Incapaz de escolher, de posicionar-me frente ao mundo, ao olhar do outro, retribuo com minha aspereza, solidão e tristeza.
Caminho por entre prédios e casas antigas. Reparo nos traços, nas linhas, no volume, no peso das coisas. Escorrego entre olhares e bocas, famintos por contato, por filiação.
Pelas ruas e esquinas da cidade, sigo o ritmo da minha alma, de meu corpo, de meu desejo. Desejo furado, esburacado, despedaçado. Arrebato a tristeza com força e violência. Espero encontrar-me pelas ruas e esquinas da cidade.