Sigo apostando, escolhendo caminhos, sentidos para minha vida.
Arrisco-me nas letras, nas imagens e nos sons.
Na dança, no teatro e nas performances.
Sou inconstante, desvairado, sem rumo.
Por isso paro nas estações de trem, do ano.
Perco o ritmo do tempo ditado pela norma.
Sou eu quem faz meu tempo.
Sento por um instante na estação, espero chegar aquele veículo que me levará daqui.
Reparo no vento que sopra docemente em meus ouvidos.
O sol brilhando forte nos trilhos negros de óleo.
Outros corpos, outras almas circulam na estação.
Amigos, estranhos, conhecidos e esquecidos.
São pessoas que esperam, que partem e que chegam.
Seus trens têm hora marcada, cada qual com seu destino (se é que isso existe).
O meu trem não sei quando chega, nem quando sai.
Não tera hora marcada, nem previsão de chegada.
Minha estação tem sempre uma lanchonete, em caso de esperas demoradas.
Não perco tempo, tudo é positivo, tudo é aprendizado.
Imagino sua última partida. Como chegou, como ficou a soar seu apito.
Quanto demorou para partir e não voltar mais.
Permaneci sentado no banco de madeira, todo marcado por lembranças, nomes e datas.
Olhava o céu e sentia a força do dia em minha pele, em meu esqueleto.
Passaram-se horas desde que partiu. Dias, semanas, meses e anos.
Não esperava mais aquele trem. Não esperava nem que chegasse outro.
Levantei-me fui lanchar. Engoli com sofreguidão o pedaço do mundo que me chegava.
Escutei um ruído. Talvez fossem trilhos rangendo, rodas de aço cantando ao caminho.
Um apito e uma chamada. Uma voz doce e um olhar suave em direção ao horizonte.
Aquela estação não era mais minha.
Outro trem que chegava, outra partida anunciada.
E assim, na inconstância, continuei esperando sua chegada.
Sabia no fundo que aquele trem não chegaria. Seria outro, um outro. Diferente.
Sabia também que não devia esperar mais. Que o melhor seria partir.
Ou, olhar para outro horizonte, para outras estações.
Seguir outros trilhos e chegar onde nunca imaginei.
Pensava, pensava, pensava...
Lembrava de algumas palavras, de uns sorrisos e de muitos toques.
Sabia que seria difícil partir. Mas tinha de faze-lo.
Esperei tanto tempo, com tanto entusiasmo. Não podia deixar passar.
O trem que vinha vindo não iria parar, só diminuir a velocidade para os mais corajosos.
Percebi seu balanço, seu equilíbrio, e entrei num dos vagões.
Não me lembro para onde estava indo, mas andávamos.
Senti aquele antigo arrepio de adolescência. Um frio na espinha frente o perigo.
Inconstante, toco fogo na lembrança e adormeço com a fumaça.
Freia e range suas rodas. Diz-me onde estamos, se chegamos.
Não me diz nada. Não sei.
Sem saber, já estava fora, já havia descido, ou sido descido por alguém. Por um desconhecido.
Olhei e vi minha estação com sua lanchonete antiquada.
Café com biscoitos.
Refeição mundana para um viramundo como eu.
Sentei e refleti por uns instantes naquele local.
Estava na minha estação. Estava de volta? Havia chegado? Havia partido?
Não me interessava mais.
Continuei por mais algum tempo a viajar naquele espaço sem tempo.
Onde os três tempos conversam e trocam datas.
Olhei o horizonte até cansar. Adormecido, lembrei: sou onde não estou.
Abri os olhos e percebi que o trem não existia mais. Tinha de fazer outro.
Não importava. Já tinha minha estação, minha lanchonete.
Coloquei tudo na mala da memória e fui conhecer a cidade.
Friday, March 04, 2005
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