Ando pelas ruas e esquinas da cidade, como Viramundo, encontrando gente, animal, vegetal e mineral. Penso nos desvios, nas curvas, no chão batido pelos pés de um corpo desviado, encurvado. O tempo passando, a chuva caindo e o vento soprando.
Ando distraído, passo ruas, entradas e outros mundos. Ando cansado, pelas esquinas, ângulos fechados, abertos. Encontro de caminhos, escolha a ser feita.
Prenuncio de mudança, de incerteza, de insegurança. Anuncio prévio do fracasso singular da existência no tempo espaço do presente.
Perco o sentido, caminho sem direção pelas ruas e esquinas da cidade. Perco a identidade, o apreço, o endereço. Já não sei direito onde estou. Num mundo de histórias, contos e causos. Explosão de vozes sobre mim mesmo. Palavras e comentários de uma existência errante, errada.
Componho junto com as ruas e esquinas da cidade. Percorro corredores, edifícios, pátios e jardins. Procuro um sentido para a vida, uma direção, um objetivo. Mas não adiante forçar a barra, nem engolir as exigências, tampouco respirar o mercado de trabalho.
Excrementos de um percurso indefinido. Restos de uma letra apagada, de uma palavra esquecida. Um regojizo final pelas ruas e esquinas. De uma cidade cruel, amarga, rebelde. Ruas escuras, esquinas repletas de putas, cheiro de urina e corpos sonhando com uma vida melhor.
Insatisfação, perturbação do desejo. Desalento, descrença, desapego. Apoio-me sobre um patamar de gesso e cimento. Uma caixa d'água, um reservatório inútil. Cresci em altos e baixos, lado a lado com a loucura, com o desvio, com o insólito.
Discurso varrido para debaixo do tapete. Palavra esquecida de um amor impossível.
Por que sofro por amor? O amor deveria me colocar radiante, ligado, em contato com o mundo, com o outro. Objeto de desejo, de satisfação, de entrega. Porém, de perda, de incerteza, de renúncia.
Incapaz de escolher, de posicionar-me frente ao mundo, ao olhar do outro, retribuo com minha aspereza, solidão e tristeza.
Caminho por entre prédios e casas antigas. Reparo nos traços, nas linhas, no volume, no peso das coisas. Escorrego entre olhares e bocas, famintos por contato, por filiação.
Pelas ruas e esquinas da cidade, sigo o ritmo da minha alma, de meu corpo, de meu desejo. Desejo furado, esburacado, despedaçado. Arrebato a tristeza com força e violência. Espero encontrar-me pelas ruas e esquinas da cidade.
Thursday, March 03, 2005
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