Friday, April 15, 2005

Caminhar junto

Talvez a forma mais precisa de arrematar as palavras no sentido de uma síntese e uma atualização constantes seja explorar um assunto de maneira simples e direta, preservando o objetivo e aprimorando o subjetivo. Num eterno diálogo de criação de uma linguagem universal e uma particular. Uma palavra e uma escuta que dependem do posicionamento no mundo, de um pertencimento ao movimento que nos cerca. Percepção e sensível em paradoxo, em perpétua organização de modos de ser. Mundos-imagem, representação e empírico hipertrofiados impedem o contato com o tempo subjetivo, com a presença viva do outro. Num simples caminhar junto.
Momento em que nos deparamos com uma situação análoga, porém banal e desprovida de uma leitura mais profunda. Quando olhamos mais de perto o caminhar e o vínculo entre corpos-almas que aí se estabelece, atentamos num primeiro e sucinto olhar, para a tensão como efeito do próprio vínculo, da dependência do outro e da relutante entrega ao impossível da relacão sexual.
Recalque e identificação funcionam na mesma medida, enquanto interagem para manter o ser ligado ao mundo, aos seus conceitos e valores, regras e ditames morais. Porém, num caminhar junto todas as regras e crenças parecem cair diante do real do contato, do encontro entre corpos-almas. Este vínculo se estabelece sobre diferentes parâmetros de subjetivação, ou seja, sobre diferentes estruturas de funcionamento dos aparelhos psíquico e somático, acoplando-se em sintonia com um sintoma e uma potência, um campo de força.
Num caminhar junto sentimos este campo de força atuante e oscilando entre passos compartilhados. Caminhar junto significa entrelaçar-se num movimento mútuo de aproximação e distanciamento, permitindo a escolha individual, mas preservando o laço. Não porque ambos queiram atingir a mesma meta, chegar no mesmo ponto. Fato talvez de extrema importância para um caminhar junto saudável e interessante. Mas sim pelo balanço que nos leva a manter o contato, a aprofundar o vínculo, a estabelecer uma relação de confiança. Porém, não discuto generalidades, falo tão-somente daquilo que me afeta da presença viva do outro. Falo de minha relação com o mundo, com as pessoas, os conceitos e os valores que me são impostos.
Tento escolher caminhar junto com minha vida, como companheira e fonte de minha sinergia com o mundo e com os viventes. Me ligo de maneira transparente e respeito a decisão individual, estou certo da prevalência do ponto de vista egocêntrico e frágil de nossa estrutura neurótica.
Por isso, caminhar junto contempla a dimensão do sintoma e, ao mesmo tempo, a potência de criação típica do acontecimento, quando passamos do virtual do empírico para o real do sensível.
Neste caminhar junto, dois corpos discutem e se afagam, trocam informações e experiências ancestrais. Todo o repertório de respostas é acionado para uma interação íntima e para a presença no mundo ao lado de outro ser.
Ser e estar, portanto, interagem nesse momento único de caminhar junto.
ser quem és,
estar com quem queres,
ser entre outros,
estar com outros,
ser um só e ser igual,
estar só e estar com alguém,
ser muitos e poucos
estar com muitos e poucos,
ser e estar onde queres,
estar e ser quem és,
quando queres,
quando sonhes,
quando desejes,
quando morreres ou nasceres,
seres
serestar.

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