Sunday, May 22, 2005

Uma carta

Sem fôlego, com a boca seca e o estômago cheio
Respiro com dificuldades, sinto minha cabeça girar
Procuro um foco, um ponto para me fixar
Sinto vontade de vomitar
Meus ouvidos estão plugados na espinha dorsal
Não consigo evitar sentir espasmos e uma tonteira
Náusea do mundo, da vontade de viver, uma agonia intensa
Sorvi um último gole d'água, mais vomitaria
Procurava uma carta, um retrato, um postal, um selo
Escutava as tosses e as reclamações, uma vida desperdiçada
Fruto de uma geração? Escolha subjetiva? Imposição sócio familiar?
O que pensar?
No envelope que contém esta carta, este retrato, esse selo
Sua dimensão é mais ampla, tanto para conter o material do mundo
dos sentimentos e dos gestos, quanto para servir de moldura, de borda
possível dentro do impossível, vitorioso frente ao fracassso evidente
Que sejas.
Até a morte.

Friday, May 13, 2005

Luzes

Por aí vou andando
perambulando pelas ruas
adivinhando pensamentos e
intenções, vindas do céu
dos corpos em chamas
das vidas desperdiçadas
das cabeças desregradas
dos peitos dilacerados
das almas perturbadas
de um mundo refletido

Entre as luzes se esconde
a escuridão do real
inegável alienação
de si
do outro
do mundo

Do outro mundo
do outro lado do muro
presente em um olhar
desapercebido de alguém
encontrou seu outro lado
refletido ao contrário
ao inverso
ao avesso

De ponta cabeça
perdidas no ar
as luzes de um outro lar

Luzes que irrompem
verde adentro
azul acima
marrom abaixo
e todas as outras cores
brilham umas
outras mais intensas

Luzes vindas das estrelas
piscam sem parar
rarefeitas pela distância
pelo tempoespaço

Viajando por aí
observando o mundo
a mim e ao outro
perseguindo luzes
de um alvorecer inesquecível

Pouco a pouco
as estrelas somem
os raios se alastram
ocupando o tempoespaço
desfazendo e fazendo
fazendo e refazendo
virando e revirando

Numa elipse pisou
lembrado como um breve balanço
equilibrado num sistema

Wednesday, May 11, 2005

Horizonte perfeito

Na cadência das águas ao longo do mar, os olhos iam de encontro àquela linha ameaçadora e, ao mesmo tempo, profundamente apaziguadora. Como um resquício do paraíso, um lugar imaginado para repousar e revigorar a alma. Ah, se tão-somente nos bastasse um mergulho para alcançar esta linha, poderíamos fitar o mundo apoiados no horizonte além mar.
Um vôo e um assobiar de passarinhos, um vento frio e nuvens que circundam a montanha. Os últimos raios do sol deixam um rastro rosa claro na superfície opaca do céu branco acinzentado. Estava claro que passear no tempo sentado na linha do horizonte, observando atentamente o mundo e suas formas, era uma imagem esplêndida do desejo de isolamento. Percebendo ilhas de interação e o movimento contínuo da massa terrestre. Acompanhando o ciclo circadiano e as tempestades pelo mundo afora. Ciclones e tufões, maremotos, terremotos e terroristas. Tudo é real e ao vivo, transmitido via satélite ao redor do mundo.
Tragédias humanas e dramas pessoais. Experiências traumáticas e cadeia de significantes. Lembranças e memória interagem na construção de uma presente significação do mundo e de suas intemperanças.
Criando símbolos e desempenhando funções, ocupando espaços e remodelando a terra, o asfalto, o concreto. O bizarro.
Clonando células e desenvolvendo terapias genéticas. Investigação minuciosa dos genes e do genoma humano. Intervenção antes do nascimento. Prevenções e tratamentos numéricos. Análise combinatória de variáveis genéticas e ambientais que caracterizam um comportamento inaceitável, ou transgressor no seio de uma sociedade.
Pertencimento fechado a grupos e classes de indivíduos robotizados, adestrados ao trabalho ininterrupto, à dedicação total ao serviço da Lei, da ordem e do progresso.
Ideais e sonhos partidos. Realidade nua e crua.
Rações diárias de informação laboral. Conexão direta entre corpo e rede. Captação instantânea de dados e controle persecutório aos desviantes. A loucura está sendo domesticada e cada vez mais o potencial da genialidade disperso em grupos homogeneizados de atores. Máscaras para proteger a verdade subjetiva. Capa que acoberta um corpo nu, desprovido de defesas. Fantasia e desejo de conhecer. Poder avançar, caminhar sobre as águas até a linha do horizonte.

Thursday, May 05, 2005

Tudo é história

Durante minha vida inteira, mesmo que tão jovem em idade, persegui sonhos e fantasias de uma vida alegre, instigante e movimentada. Hoje, apesar de algumas realizações pessoais, para mim, vividas prematuramente, percebo a descontinuidade de meu caminho. Comecei inúmeros projetos, embarquei em diversas áreas, mas não me aprofundei em nada, não dei uma direção ao meu trabalho de crescimento pessoal e profissional. Minha vida interior parece ter pouco mudado nós últimos anos.
Entretanto, percebo em outro ângulo meu processo de escolha e definição de objetivos. Muito mais reais e possíveis de serem atingidos. Um curso de aprendizado se seguiu e uma certa ordem pôde se estabelecer. Porém, agora, essa ordem não corresponde às necessidades internas de estipular outros objetivos e torná-los cada vez mais reais, realizáveis, realizados.
Reparo em duas variáveis que influenciam em grande medida meu estado de alma. O primeiro e, creio, o mais importante é o tempo. O segundo, porém, tão importante quanto o primeiro, é o espaço. Tempo e espaço. Tempo espaço. Espaço tempo. Temporal. Espacial. Espaço temporal, temporal do espaço. O arranjo desses significantes se multiplicam a medida em que distinguo ações em minha ossada mortal e mal diagramada. Travo intenso contato com as paredes do mundo real, inverto a lógica do pensamento dualista e causal, reinvento fórmulas de pensar e experimentar a realidade e o mundo anímico. Alço vôo sem pensar na descida. Não tenho os pés no chão. Voando constantemente pelos céus de brigadeiro dos meus sonhos, corro o risco de adoentar-me, de contrair uma praga moderna. A mistura de ansiedade e angústia, depressão e euforia, disforia e distorção, impermanência e estranha certeza. Linguajar forasteiro e imaginação estrangeira. Passagem de momentos de extrema dúvida e sofrimento, outros de asoluta certeza e gozo impossível.
Vejo portas e janelas se abrindo diariamente, mas meu tempo espaço interno não responde aos chamados do meio. Abrigo-me em casa e em redutos de amigos. Sinto pavor de multidões e prédios comerciais. A vida está na natureza e na fluidez da energia interpessoal.
Raros são os momentos de paz e equilíbrio dentro de mim. Sinto-me como uma folha que cai de seu galho seco. Perambula pelo ar por alguns instantes. Simula uma parada no ar, um balanço rítmico acompanha o coração, as últimas batidas. Finalmente, cai ao chão, encosta sua matéria no piso da laje, afasta-se de sua origem. Nova realidade, lixo criado, recurso ensanguentado. Renovação da vida pela morte. Caos e destruição. Ordem e transformação.

Ouvindo Gotan Project - La revancha del tango