Thursday, May 05, 2005

Tudo é história

Durante minha vida inteira, mesmo que tão jovem em idade, persegui sonhos e fantasias de uma vida alegre, instigante e movimentada. Hoje, apesar de algumas realizações pessoais, para mim, vividas prematuramente, percebo a descontinuidade de meu caminho. Comecei inúmeros projetos, embarquei em diversas áreas, mas não me aprofundei em nada, não dei uma direção ao meu trabalho de crescimento pessoal e profissional. Minha vida interior parece ter pouco mudado nós últimos anos.
Entretanto, percebo em outro ângulo meu processo de escolha e definição de objetivos. Muito mais reais e possíveis de serem atingidos. Um curso de aprendizado se seguiu e uma certa ordem pôde se estabelecer. Porém, agora, essa ordem não corresponde às necessidades internas de estipular outros objetivos e torná-los cada vez mais reais, realizáveis, realizados.
Reparo em duas variáveis que influenciam em grande medida meu estado de alma. O primeiro e, creio, o mais importante é o tempo. O segundo, porém, tão importante quanto o primeiro, é o espaço. Tempo e espaço. Tempo espaço. Espaço tempo. Temporal. Espacial. Espaço temporal, temporal do espaço. O arranjo desses significantes se multiplicam a medida em que distinguo ações em minha ossada mortal e mal diagramada. Travo intenso contato com as paredes do mundo real, inverto a lógica do pensamento dualista e causal, reinvento fórmulas de pensar e experimentar a realidade e o mundo anímico. Alço vôo sem pensar na descida. Não tenho os pés no chão. Voando constantemente pelos céus de brigadeiro dos meus sonhos, corro o risco de adoentar-me, de contrair uma praga moderna. A mistura de ansiedade e angústia, depressão e euforia, disforia e distorção, impermanência e estranha certeza. Linguajar forasteiro e imaginação estrangeira. Passagem de momentos de extrema dúvida e sofrimento, outros de asoluta certeza e gozo impossível.
Vejo portas e janelas se abrindo diariamente, mas meu tempo espaço interno não responde aos chamados do meio. Abrigo-me em casa e em redutos de amigos. Sinto pavor de multidões e prédios comerciais. A vida está na natureza e na fluidez da energia interpessoal.
Raros são os momentos de paz e equilíbrio dentro de mim. Sinto-me como uma folha que cai de seu galho seco. Perambula pelo ar por alguns instantes. Simula uma parada no ar, um balanço rítmico acompanha o coração, as últimas batidas. Finalmente, cai ao chão, encosta sua matéria no piso da laje, afasta-se de sua origem. Nova realidade, lixo criado, recurso ensanguentado. Renovação da vida pela morte. Caos e destruição. Ordem e transformação.

Ouvindo Gotan Project - La revancha del tango

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