Sunday, May 22, 2005

Uma carta

Sem fôlego, com a boca seca e o estômago cheio
Respiro com dificuldades, sinto minha cabeça girar
Procuro um foco, um ponto para me fixar
Sinto vontade de vomitar
Meus ouvidos estão plugados na espinha dorsal
Não consigo evitar sentir espasmos e uma tonteira
Náusea do mundo, da vontade de viver, uma agonia intensa
Sorvi um último gole d'água, mais vomitaria
Procurava uma carta, um retrato, um postal, um selo
Escutava as tosses e as reclamações, uma vida desperdiçada
Fruto de uma geração? Escolha subjetiva? Imposição sócio familiar?
O que pensar?
No envelope que contém esta carta, este retrato, esse selo
Sua dimensão é mais ampla, tanto para conter o material do mundo
dos sentimentos e dos gestos, quanto para servir de moldura, de borda
possível dentro do impossível, vitorioso frente ao fracassso evidente
Que sejas.
Até a morte.

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