Sobre isso que acontece com todos nós quando estamos apaixonados, envolvidos e seduzidos por um certo brilho no ar. O que conseguimos tirar, com um mínimo prazer em descarregar as forças internas, do meio e do outro que nos rodeia. Um mundo de fantasia e enigmático. Um labirinto de forças e vetores que conduzem o desejo no lastro do anonimato e da falta de sentido da vida. Uma barreira intransponível que separa-me do mundo e do outro, permitindo-me refletir e arranjar uma fluência com o outro que me constitui. Diferença e culpa. Raiva e simpatia. Quadro repleto de idéias e experiências, imagens recordadas, vozes escutadas, corpos tocados. O cheiro e o olhar daqueles que estão próximos. Demais para perceberem seus próprios enigmas. Descobrem-se frente à imagem absoluta da morte. Da ausência de sentido, do ganho de consciência da produção de pensamentos e comportamentos ditados por uma ordem mundial. Somos apenas joguetes mormente à condução de nossos próprios sentidos. Alienados em sintonia com satélites de informação, codificados e significados dentro de um sistema de signos e estruturas de subjetivação. Perto demais do vértice entre a realidade externa e interna. Um apêndice na gramática subjetiva, que reduz a experiência ao fenômeno de sua representação.
As demandas de amor e de dor estão entrelaçadas neste sistema. Como binômio da experiência afetiva, amor e dor significam preto e branco em experiências visuais. A diferença e complementaridade típica dos sentimentos de prazer e desprazer. A economia desregula seus padrões de demanda, criando condições de impossibilidade no enlace entre sujeito e alteridade. A experiência da diferença é significada de inúmeras formas ao longo de nossa história, pelo menos ocidental. Essa diferença que se apresenta nos costumes, nas vestes, nos traços, na intensidade do olhar. Molécula do amor, do apaixonamento, do encantamento. Devaneio sobre esse momento em particular daquilo que chamo de nível de identificação, que variam de acordo com o segmento corporal. O que, por sua vez, determina um tipo de gozo, um circuito sintomático entre amor e dor, que os torna inseparáveis. Entrelaçamento de conexões e preconceitos que dificultam o gozo polimorfo. Aliás, se segmentarmos o gozo em suas formas, estaremos aí diante de um enigma, ou encruzilhada. Romântico, intenso, apaixonado, carinhoso, tenro, firme, gentil, seguro, etc. É, portanto, nessa trilha de palavras e conceitos baseados na experiência subjetiva do amor e da dor, que o enigma se apresenta de forma clara e perspicaz. Na própria linguagem, no discurso sobre as formas de gozo, que evidencia-se a ação da reflexão sobre a idéia representada daquela experiência primordial do vínculo antagônico entre eu e o outro.
A - M - O - R - D - O - R - A - D - O - R - A - R - D - O - R - A - D - O - R - A - R
Sunday, July 17, 2005
Thursday, July 14, 2005
Ressonância
O espaço aberto e escuro da noite abriga diferentes personagens em suas histórias particulares.
O sujeito sozinho que caminha e fala sozinho. Repara as estrelas, sente a brisa fria do inverno, espanta-se com a grandeza do ambiente e emociona-se com a lua crescente brilhando no céu azul escuro.
O cachorro que o acompanha, sente seu cheiro e lambe sua canela. Senta-se ao lado do sujeito, repara a noite, olha seu dono, levanta-se e caminha para deitar-se mas afastado. Respira profundamente, ao mesmo tempo que o sujeito acende um cigarro.
O ponto laranja ilumina fragmentos do rosto e da mão dele. A fumaça desenha espíritos no vazio do espaço. Preenche seu interior e sai levada pelo vento até se dissiparem.
Permanece em pé, apoiado sobre a perna esquerda. Braços cruzados e olhar distraído.
Sente o passar do tempo e contempla a paisagem.
De repente, escuta o assobio mágico do morcego. Seu som provoca vibrações nas árvores, na construção e no sujeito, que retornam ao animal em imagens e sensações.
Sua plasticidade e leveza o levam pelo ar através da fumaça respirada pelo sujeito. Percebe o calor da chama e aproxima-se de maneira arrojada.
O sujeito não se mexe, observando o balanço do animal e sua ousadia em busca de alimento. Reconhecimento acústico. Reverberações. Repercussões. Ressonância.
O sujeito sozinho que caminha e fala sozinho. Repara as estrelas, sente a brisa fria do inverno, espanta-se com a grandeza do ambiente e emociona-se com a lua crescente brilhando no céu azul escuro.
O cachorro que o acompanha, sente seu cheiro e lambe sua canela. Senta-se ao lado do sujeito, repara a noite, olha seu dono, levanta-se e caminha para deitar-se mas afastado. Respira profundamente, ao mesmo tempo que o sujeito acende um cigarro.
O ponto laranja ilumina fragmentos do rosto e da mão dele. A fumaça desenha espíritos no vazio do espaço. Preenche seu interior e sai levada pelo vento até se dissiparem.
Permanece em pé, apoiado sobre a perna esquerda. Braços cruzados e olhar distraído.
Sente o passar do tempo e contempla a paisagem.
De repente, escuta o assobio mágico do morcego. Seu som provoca vibrações nas árvores, na construção e no sujeito, que retornam ao animal em imagens e sensações.
Sua plasticidade e leveza o levam pelo ar através da fumaça respirada pelo sujeito. Percebe o calor da chama e aproxima-se de maneira arrojada.
O sujeito não se mexe, observando o balanço do animal e sua ousadia em busca de alimento. Reconhecimento acústico. Reverberações. Repercussões. Ressonância.
Thursday, July 07, 2005
Investimento
O que suscita a imagem e irrompe em ato
energia suspensa, em anteparos virtuais
conjugados numa só matéria, um só corpo
uma direção e um objetivo
perambular enquanto morto vivo
vivendo de sonhos e fantasias
ar que infla os peitos
levanta as pernas e põe-se a correr
nas orelhas de livros, em estantes
de madeira tratada, largadas
orientadas num sentido único
atravessar a parede que se interpõe
romper com os paradigmas daqueles que pensam
que acreditam saber
dominar algo que seja dito de uma consciência
invadir a inconsciência, inconsistente relâmpago de fogo
consome o ar e brilha no escuro da noite
de um só movimento, transforma o ambiente
ilumina o caminho daqueles que passam
não sou um desses que deseja permanecer
o rio é constante e ininterrupto
basta acuidade suficiente para vê-lo
límpido correr de águas
pedras e seixos, cascalho e cachoeira
ventos frios e nuvens de mosquito
corridas e amor, experiências e vida
corre água, corre
leva contigo o investimento
a fantasia do olhar
a tristeza do pesar que reside em teu rosto
choras à vontade, gritas pelas corredeiras
ensurdece e amedronta
vai água, doce queimada
escorre lentamente
pelas telhas e paredes de pau a pique
de lama e bambu
sente o cheiro da terra molhada
a terra respira lentamente
desconta em nós,
o que desconfiamos
de uma lembrança traumática
de um sentimento de impotência
investe de si mesma, água rás
queima contigo os vermes do banheiro
do baú de fotografias
das lembranças escondidas
no porão do esquecimento
no correr dos dias lentos
demorados, pesados, passados
energia suspensa, em anteparos virtuais
conjugados numa só matéria, um só corpo
uma direção e um objetivo
perambular enquanto morto vivo
vivendo de sonhos e fantasias
ar que infla os peitos
levanta as pernas e põe-se a correr
nas orelhas de livros, em estantes
de madeira tratada, largadas
orientadas num sentido único
atravessar a parede que se interpõe
romper com os paradigmas daqueles que pensam
que acreditam saber
dominar algo que seja dito de uma consciência
invadir a inconsciência, inconsistente relâmpago de fogo
consome o ar e brilha no escuro da noite
de um só movimento, transforma o ambiente
ilumina o caminho daqueles que passam
não sou um desses que deseja permanecer
o rio é constante e ininterrupto
basta acuidade suficiente para vê-lo
límpido correr de águas
pedras e seixos, cascalho e cachoeira
ventos frios e nuvens de mosquito
corridas e amor, experiências e vida
corre água, corre
leva contigo o investimento
a fantasia do olhar
a tristeza do pesar que reside em teu rosto
choras à vontade, gritas pelas corredeiras
ensurdece e amedronta
vai água, doce queimada
escorre lentamente
pelas telhas e paredes de pau a pique
de lama e bambu
sente o cheiro da terra molhada
a terra respira lentamente
desconta em nós,
o que desconfiamos
de uma lembrança traumática
de um sentimento de impotência
investe de si mesma, água rás
queima contigo os vermes do banheiro
do baú de fotografias
das lembranças escondidas
no porão do esquecimento
no correr dos dias lentos
demorados, pesados, passados
Tuesday, July 05, 2005
Sujeito barrado
A lógica lacaniana nos coloca o problema do recalcamento como significante de uma marca que opera sobre o sujeito uma barragem cultural e simbólica.
O significante da lei, o nome-do-pai, elemento essencial para o entendimento da castração e sua influência sobre os processos psíquicos em diferentes estruturas diagnósticas.
Certamente, a estrutura que se nos apresenta é a perversão. As modalidades de gozo transgridem sem reparar a lógica do recalcamento. Forma de expressão fetichista, na qual o sujeito barrado, em seu transbordamento desejante, rompe o contrato social através de atos e idéias perversas.
Num mundo com limites cada vez mais tênues e práticas disciplinares de controle sutis e vigilantes daquilo que, de alguma forma, se mantém no laço social. Inscrição necessária para a própria elaboração do problema. Exercício de dominação através de processos culturais de exclusão e seleção de perfis psicossociais.
Homogeneização da população, após Foucault e Derrida, que tão bem descreveram a função dos mecanismos de poder-saber envolvidos no processo de subjetivação e construção sócio-histórica de sujeitos e normas culturais.
O significante da lei, o nome-do-pai, elemento essencial para o entendimento da castração e sua influência sobre os processos psíquicos em diferentes estruturas diagnósticas.
Certamente, a estrutura que se nos apresenta é a perversão. As modalidades de gozo transgridem sem reparar a lógica do recalcamento. Forma de expressão fetichista, na qual o sujeito barrado, em seu transbordamento desejante, rompe o contrato social através de atos e idéias perversas.
Num mundo com limites cada vez mais tênues e práticas disciplinares de controle sutis e vigilantes daquilo que, de alguma forma, se mantém no laço social. Inscrição necessária para a própria elaboração do problema. Exercício de dominação através de processos culturais de exclusão e seleção de perfis psicossociais.
Homogeneização da população, após Foucault e Derrida, que tão bem descreveram a função dos mecanismos de poder-saber envolvidos no processo de subjetivação e construção sócio-histórica de sujeitos e normas culturais.
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