Tuesday, September 06, 2005

Substância

em todo fato, e ato, e palavra, e gesto há isso que podemos chamar de simbólico
que nos atravessa com suas normas e leis, insípidas regras sociais e de conduta
permanência absurda em um momento infinito de tristeza e lágrimas, choro e devaneio
um presente nos é dado com a consciência disso que nos constitui enquanto seres
vivos, vegetais, minerais, animais e humanos
perdidos na selva de pedra e asfalto, tráfico e morte, trabalho e amor
tal inscrição no simbólico nos permite acessar um mínimo do que é inconsciente
determinado e determinante de circunstâncias repentinas e acontecimentos aleatórios
uma tal inscrição é cultural e subjetiva com possibilidades infinitas de ampliação
de escopos diferenciados, justificados e operantes em leis próprias da cultura
da substância que nos entranha e mortifica nossa existência em pedaços e lampejos
brilhos e azulejos marcados por essa fissura na barreira que nos protege
como acesso direto e ilimitado à fonte disso que constitui a palavra e o enigma
diferença entre sexos e hostilidade ao estranho
tendência a fixar-se e enrigecer tecidos esquecidos no processo de inscrição
a permanência e constância desses processos alimenta isso mesmo que dizemos
a substância da palavra está deslocada em seu efeito enquanto símbolo ou metáfora
de um sonho ou vislumbre ou delírio que nos seja dado
porém manifesta e condensada naquilo que expressa
afetos, sentimentos, percepções, pensamentos, humores, vontades e desejos
falsas ligações e perda contínua de elementos essenciais para o contato
entre eu e o mundo
pontes circunstanciais e repentinas de tropeços e acertos de uma comédia romântica
personificada em fatos reais e fictícios de uma mente sem lembranças
um porvenir infindável e abertura de horizontes morfológicos e sintáticos
prudência e ritmo, paciência e bom humor
agressividade e temperança, resistência e força
elementos organizativos de um sistema tradutor de signos e sinais culturais e linguísticos
comportamentos e desvios de pensar próprios de cada época
cada partido, cada partícula, que se mexe e transforma
um ambiente em ecossistema
um espaço em habitação
um local em moradia
uma caixa em recordação
são muitas as maneiras de materializar tal substância da palavra
em quadros e recintos dourados, cobertos de história e dilema
em esculturas e corpos, danças e músicas
ciência e arte em suas formas mais diversas e misturadas
pois tudo é um só, ramificado em centenas de milhares de conexões
de potenciais de ação que procuram loucamente por seus pares em forma de anacronismo
pentagrama de oposições perfeitas e sistemáticas que incide sobre a decisão
de si em relação ao outro mundo que te obriga a permanecer e sustentar teu lugar
uma briga de interesses e poder pela palavra e certeza de saber que sua substância
está bem guardada em fundos de petróleo e ouro, diamantes e pérolas
contadas em velhas histórias as quais não escutamos mais
um jogo rápido e violento de competição e progresso, ambição, vaidade
pelo excesso de informação, de imagens e reportagens vinculadas
formadores de opinião, entre meios de comunicação em massa e construção do mundo
de um olhar sobre o mundo e si mesmo
em relação aos outros ao mundo a si mesmo
escapar das leis da física clássica, que nos rege até mesmo em pensamentos
ação e reação por caos e relatividade
mecânica por quântica
explosiva por atômica
explosões de significados e fissuras em novos cristais de porcelana intactos
prontos a nascer e povoar a paisagem com seus lindos carros voadores
cidades suspensas e subterrâneas, em céus e cavernas, sólido ou líqüido
permanece a substância disso que ousamos chamar deum verso simbólico

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