Sunday, October 16, 2005

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neste mundo em que vivemos, de tudo se produz conseqüências, efeitos adversos e programados, na tentativa de intervir, de operar com sutileza e cuidado as palavras, a escuta, a interpretação, o bom uso da relação analítica entre os significantes do mundo subjetivo, significa interpelar a realidade psíquica, objetiva e circunstancial, os fenômenos do olhar, da escuta, do acolhimento, do retorno, da intencionalidade do ato, correspondem precisamente às experiências afetivas e culturais originárias da diferença, da distinção e dissociação de mundos, de sentidos e significados, representamos em idéias, imagens, símbolos e arte, tudo em busca de um cômodo, de um lugar, um espaço onde habite aquilo que nos anima, que nos faz levantar da cama e proceder todos os rituais da vida cotidiana, perda de contato e isolamento circunspectivo, elaboração de tese, teoria e prática de um ofício aprendido e depurado com muito sofrimento e trabalho...
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fui chamado para assistir um julgamento um tanto diferente daqueles que estamos acostumados a assistir, pelo menos nos seriados da televisão estadunidense. posicionei-me ao fundo, numa cadeira de madeira, como fora designado por um ajudante. alguém sentava a meu lado, mas não me detive o suficiente para reparar-lhe a face ou qualquer detalhe significativo. [observava a agitação das pessoas no recinto, o grupamento de cadeiras, o palanque dos juízes]
o julgamento transcorria enquanto um certo incômodo não identificado tomava conta de minha atenção, transformando minhas mãos em instrumentos de inquietação e nervosismo.
tudo se passava num imenso salão quadrangular, com piso de tábua corrida muito bem encerada. colunas de mármore infinitas tocavam os afrescos do teto arredondado, que procurava suavizar a atmosfera com pinturas de uma época perdida. [anjos e deuses da mitologia se agrupavam num céu azul claro com algumas nuvens brancas, que serviam de berços para os anjos e tronos para os deuses] inúmeras cadeiras se dispunham vários metros diante de mim e da cadeira a meu lado.
esse espaço vazio entre eu e o público representado no julgamento, assim como a mulher que estava sendo julgada, materializava o distanciamento necessário para a execução de meu ofício.
como disse, este julgamento em nada se assemelhava dos outros, sobretudo pela minha presença ali.
a mulher permanecia em pé, silenciada pelas vozes do público e do juiz. ela estava exatamente no meio do retângulo reservado aos participantes do julgamento. [sua voz era ináudivel, enquanto gesticulava e parecia esbravejar injúrias a todos]
uma mesa enorme e suspensa pela autoridade judiciária, separava claramente quem punia de quem era punido.
minha permanência até aquele momento se restringia a assistir mais um episódio do exercício da moral e da justição cristãs. contorcia-me na cadeira ao ver aproximar-se a declaração da sentença. a mulher erguia os braços e elevava a voz inutilmente, tentando impedir o procedimento.
meu vizinho levanta-se e abre a porta enquanto o público se exalta e em alvoroço percorre o espaço entre nós. preocupo-me com minha segurança e levanto rapidamente. a mulher aparece diante de mim. seus olhos expressam medo, pavor mesmo do que pode lhe acontecer.
somos transportados a um coliseu nunca vista. sua imensidão era tanta que nos era impossível observar as paredes, ou quaisquer limites entre o céu e a terra.
uma luz âmbar dominava o espaço e dava aos moribundos um aspecto vivo alucinante.
pequenas ilhas agrupavam os corpos que permaneciam de pé, uns à procura dos outros. a aflição era grande e a mulher ainda segurava minha mão. libertei-me ao empurra-la no imenso vazio do coliseu. seu grito mudo ecoou no vácuo [e nos ouvidos dos outros sentenciados, que a olhavam com desdém] e seu corpo foi instantaneamente levado por nuvens de matéria decomposta [de ácido gaseificado].
seu horror só não parecia maior que daqueles que descobriram o impossível daquele lugar. como espectros mortalizados, seus olhos esbugalhados e corpos transparentes, cada um assumia a forma que lhera designada [uns agachados, outros em pé, outros ainda de joelho e aqueles curvados em prece].
meu ofício se limitava a executar o procedimento, mas minha obra excedia o regulamento enquanto me detia a reparar o horror daquele lugar [dando-lhe vida e objetividade no relato que apresento].

Sunday, October 09, 2005

Outubro

Apesar de ser o mês de aniversário do meu irmão, Outubro sempre mexe comigo. Não sei explicar claramente o efeito que sofro desse mês. A palavra em si mesma carrega um conteúdo cinzento, nublado. Talvez nem seja pela convenção em que vivemos, mas sim pelo ciclo que ela procura calcular. Medir tempo e espaço. Através e a partir de experiências e compromissos sociais. Controle sobre desejo e necessidades. Limites e transgressão.
Como um amor de infância. Reencontrado em semblante. Num horizonte perdido em lágrimas e gozo. Uma existência interrompida. Um laço cortado. Um lugar escondido, esquecido em caixas e cartas abandonadas.
Como uma paixão adolescente. Aspirada em instantes. Num caldo efervescente em borbulhas e respingos. Um desejo ansioso. Um rodeio medroso. Um tempo mordido, mastigado e vomitado em sarjetas escuras e calçadas estranhas.
Como um carinho de jovens. Aflitos em toques e remédios. Num plano frágil e simbólico. Em pequenas rachaduras, fissuras entre mundos. Um suplício faltoso. Um olhar de relance. Um corpo e um espaço. Um pedaço de bolo.
Lampejos e lembranças.

Sunday, October 02, 2005

de vez em quando

eu sonho com praias inabitadas, onde o mar com suas ondas imensas domina a paisagem
reparo nos corais que protegem a enseada e permitem que eu exista na areia pacífica
caminho por desfiladeiros pontiagudos e flutuo de nuvem em nuvem em meditação
choro com o tempo perdido em divagações inúteis e sem sentido
sorrio tranqüilo quando acordo para um novo dia, lembrando dessas imagens oníricas
caio na água agitada, procurando me encontrar, seguindo caminhos nunca trilhados
adormeço com a luz acesa, a cara enfiada num texto copiado, as pernas cansadas
reluto em levantar e torno a sonhar com ondas e paisagens familiares, com amigos e amores
discuto comigo mesmo, brigo e luto com aquilo que me é estranho, inconsciente
me vem à cabeça um sentido, uma porta, uma janela, abertas e fechadas, batem ao vento
subo ao céu como quem morre, e repito a fala de um lugar desconhecido
desço escadas até o porão de minha memória, evocando lembranças de criança
fecho os olhos, esperando o primeiro raio de sol que surge lá de dentro, da superfície
vislumbro um horizonte mais limpo, com menos casas, menos gente, menos morte
me perco num infinito amanhecer de sonhos inacabados e desejos esburacados
me encontro num atalho entre índice e ícone de avatares virtuais
vejo o reflexo de meus pedaços nos cristais que brilham atrás do espelho
quebro a cabeça em contas mirabolantes, concluo que nada sei, respeito alguma lei
rompo com modelos e preconceitos, caio naquele refutado anseio de um dia melhor
irrompo com gritos e sussurros, desconcerto as cordas e arranho as teclas
grito e choro de dor, de saudade, de buraco crescente
peido e arroto de tristeza e alegria vãs
escorrego por entre os dedos do tempo e mato o ar, escapando da morte, no vácuo
esbarro com alguém, comigo mesmo, que me tira, retira e reitera em meu sentido
digo, calo, sinto, sento e levanto diante da tela límpida da noite escura
imagino coisas, pessoas, sentidos e conexões guiadas, aleatório e mecânico
repito e digo, um silêncio que me cala, me encara me desconcerta
molho as plantas como quem ama, como quem morre e mata, assim, de um jeito doce
preparo versos e lampejos, fragmentos e espaços entre azulejos