neste mundo em que vivemos, de tudo se produz conseqüências, efeitos adversos e programados, na tentativa de intervir, de operar com sutileza e cuidado as palavras, a escuta, a interpretação, o bom uso da relação analítica entre os significantes do mundo subjetivo, significa interpelar a realidade psíquica, objetiva e circunstancial, os fenômenos do olhar, da escuta, do acolhimento, do retorno, da intencionalidade do ato, correspondem precisamente às experiências afetivas e culturais originárias da diferença, da distinção e dissociação de mundos, de sentidos e significados, representamos em idéias, imagens, símbolos e arte, tudo em busca de um cômodo, de um lugar, um espaço onde habite aquilo que nos anima, que nos faz levantar da cama e proceder todos os rituais da vida cotidiana, perda de contato e isolamento circunspectivo, elaboração de tese, teoria e prática de um ofício aprendido e depurado com muito sofrimento e trabalho...
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fui chamado para assistir um julgamento um tanto diferente daqueles que estamos acostumados a assistir, pelo menos nos seriados da televisão estadunidense. posicionei-me ao fundo, numa cadeira de madeira, como fora designado por um ajudante. alguém sentava a meu lado, mas não me detive o suficiente para reparar-lhe a face ou qualquer detalhe significativo. [observava a agitação das pessoas no recinto, o grupamento de cadeiras, o palanque dos juízes]
o julgamento transcorria enquanto um certo incômodo não identificado tomava conta de minha atenção, transformando minhas mãos em instrumentos de inquietação e nervosismo.
tudo se passava num imenso salão quadrangular, com piso de tábua corrida muito bem encerada. colunas de mármore infinitas tocavam os afrescos do teto arredondado, que procurava suavizar a atmosfera com pinturas de uma época perdida. [anjos e deuses da mitologia se agrupavam num céu azul claro com algumas nuvens brancas, que serviam de berços para os anjos e tronos para os deuses] inúmeras cadeiras se dispunham vários metros diante de mim e da cadeira a meu lado.
esse espaço vazio entre eu e o público representado no julgamento, assim como a mulher que estava sendo julgada, materializava o distanciamento necessário para a execução de meu ofício.
como disse, este julgamento em nada se assemelhava dos outros, sobretudo pela minha presença ali.
a mulher permanecia em pé, silenciada pelas vozes do público e do juiz. ela estava exatamente no meio do retângulo reservado aos participantes do julgamento. [sua voz era ináudivel, enquanto gesticulava e parecia esbravejar injúrias a todos]
uma mesa enorme e suspensa pela autoridade judiciária, separava claramente quem punia de quem era punido.
minha permanência até aquele momento se restringia a assistir mais um episódio do exercício da moral e da justição cristãs. contorcia-me na cadeira ao ver aproximar-se a declaração da sentença. a mulher erguia os braços e elevava a voz inutilmente, tentando impedir o procedimento.
meu vizinho levanta-se e abre a porta enquanto o público se exalta e em alvoroço percorre o espaço entre nós. preocupo-me com minha segurança e levanto rapidamente. a mulher aparece diante de mim. seus olhos expressam medo, pavor mesmo do que pode lhe acontecer.
somos transportados a um coliseu nunca vista. sua imensidão era tanta que nos era impossível observar as paredes, ou quaisquer limites entre o céu e a terra.
uma luz âmbar dominava o espaço e dava aos moribundos um aspecto vivo alucinante.
pequenas ilhas agrupavam os corpos que permaneciam de pé, uns à procura dos outros. a aflição era grande e a mulher ainda segurava minha mão. libertei-me ao empurra-la no imenso vazio do coliseu. seu grito mudo ecoou no vácuo [e nos ouvidos dos outros sentenciados, que a olhavam com desdém] e seu corpo foi instantaneamente levado por nuvens de matéria decomposta [de ácido gaseificado].
seu horror só não parecia maior que daqueles que descobriram o impossível daquele lugar. como espectros mortalizados, seus olhos esbugalhados e corpos transparentes, cada um assumia a forma que lhera designada [uns agachados, outros em pé, outros ainda de joelho e aqueles curvados em prece].
meu ofício se limitava a executar o procedimento, mas minha obra excedia o regulamento enquanto me detia a reparar o horror daquele lugar [dando-lhe vida e objetividade no relato que apresento].