eu sonho com praias inabitadas, onde o mar com suas ondas imensas domina a paisagem
reparo nos corais que protegem a enseada e permitem que eu exista na areia pacífica
caminho por desfiladeiros pontiagudos e flutuo de nuvem em nuvem em meditação
choro com o tempo perdido em divagações inúteis e sem sentido
sorrio tranqüilo quando acordo para um novo dia, lembrando dessas imagens oníricas
caio na água agitada, procurando me encontrar, seguindo caminhos nunca trilhados
adormeço com a luz acesa, a cara enfiada num texto copiado, as pernas cansadas
reluto em levantar e torno a sonhar com ondas e paisagens familiares, com amigos e amores
discuto comigo mesmo, brigo e luto com aquilo que me é estranho, inconsciente
me vem à cabeça um sentido, uma porta, uma janela, abertas e fechadas, batem ao vento
subo ao céu como quem morre, e repito a fala de um lugar desconhecido
desço escadas até o porão de minha memória, evocando lembranças de criança
fecho os olhos, esperando o primeiro raio de sol que surge lá de dentro, da superfície
vislumbro um horizonte mais limpo, com menos casas, menos gente, menos morte
me perco num infinito amanhecer de sonhos inacabados e desejos esburacados
me encontro num atalho entre índice e ícone de avatares virtuais
vejo o reflexo de meus pedaços nos cristais que brilham atrás do espelho
quebro a cabeça em contas mirabolantes, concluo que nada sei, respeito alguma lei
rompo com modelos e preconceitos, caio naquele refutado anseio de um dia melhor
irrompo com gritos e sussurros, desconcerto as cordas e arranho as teclas
grito e choro de dor, de saudade, de buraco crescente
peido e arroto de tristeza e alegria vãs
escorrego por entre os dedos do tempo e mato o ar, escapando da morte, no vácuo
esbarro com alguém, comigo mesmo, que me tira, retira e reitera em meu sentido
digo, calo, sinto, sento e levanto diante da tela límpida da noite escura
imagino coisas, pessoas, sentidos e conexões guiadas, aleatório e mecânico
repito e digo, um silêncio que me cala, me encara me desconcerta
molho as plantas como quem ama, como quem morre e mata, assim, de um jeito doce
preparo versos e lampejos, fragmentos e espaços entre azulejos
Sunday, October 02, 2005
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