Monday, November 07, 2005

Oráculo

Fui consultar-me ao oráculo. Estendi-me diante de sua grandeza assustadora e pus-me a pensar sobre o que lhe perguntaria. Entrelacei os dedos atrás das costas refletindo qual seria a melhor questão a lhe posar. O tempo passava e minhas pernas cansaram, e meus braços esmoeceram dormentes. Fiquei a devanear comigo mesmo, elucubrando uma pergunta que correspondesse à minha angústia. Fechei os olhos após mergulhar em pensamentos e idéias ruminadas durante toda minha vida. Imagens e mais imagens surgiam incessantemente diante de meus olhos. Anoitecera e nada da pergunta surgir. O cansaço me abateu e sentei-me em uma espécie de banco para os aflitos. Senti minha coluna se esticar e estalar os espaços entre os discos. Respirei profundamente, como se aquele gesto fosse libertar a pergunta acertada. Os pensamentos se foram e vi-me num túnel escuro e caudaloso, com portas e janelas que se abriam e fechavam ao sabor do vento. Senti um impulso que me levava ao longo do corredor estreito imaginado em minha mente. Procurei me libertar daquela imagem e sentir onde estava, captando a energia daquele grandioso templo. Meditando sobre minha posição e o tempo que estava ali, percebi a entrada que buscava. Arrisquei escolher o tempo como base para minha pergunta. Onde estava? Ou melhor, quando estava? Meu corpo e minha mente ocupavam tempos distintos. Ligados por uma tênue linha de lembranças e expectativas. Passado e futuro se encontravam ali no presente de minha angústia. Respirando pesadamente coloquei-me a viajar pela minha vida e reparar naqueles momentos de escolha e decisão existencial. Interroguei-me a respeito de minhas escolhas, de minha senda trilhada e do caminho a porvenir. Estava, de certo, no futuro. Talvez um futuro próximo, mas distante o bastante para obscurecer novamente minha mente. Encontrei-me outra vez num tempo absorto por pensamentos e sentimentos indefinidos. Já não percebia qualquer movimento à minha volta. Concentrava-me na força daquele lugar. Tentava encontrar as palavras que já não eram minhas. Mortas, renascidas, elas apareceram claramente diante de mim: para onde estou indo? A pergunta se fizera calada, de olhos fechados e coração aberto. O oráculo fez surgir uma leve fumaça, um tremor de terra e um arranjo de suas estruturas. Seu brilho era forte mesmo na escuridão noturna. Sua entrada dispunha de adornos dignos dos mais terríveis pesadelos, mas que, durante a claridade do dia, entoavam inigualável beleza. Para onde estou indo? A questão se fizera novamente, quando o oráculo rangeu o cimento e retornou em eco surdo: "quem escolhe teu caminho és tu" disse-me, completando com um enigma "o que vem do passado, faz do presente um caminho para o futuro de quem coloca-se junto ao tempo". Observei atentamente o correr das nuvens, como se o tempo parasse naquele instante de extrema exaltação. Um gole a seco, de ar e fogo em plena combustão. Ofereço-lhe um pedaço de mim, materializado num colar de conchas há muito engavetado. Olha-me como retribuindo meu olhar. Expulsa-me como uma mãe dá luz ao bebê. Sinto-me renovado para mais uma busca. Levanto meu corpo e minha alma já parece seguir viagem. Respiro novamente sempre à procura do tempo. Terra e água se fazem ao caminho, como elementos de uma nova vida que precisa morrer para nascer.