Wednesday, December 28, 2005

Rio Tavares e Lagoa da Conceição

Esses são os lugares onde transito no momento. Reparo como a rede se estreita porquanto dos trabalhos, limitando o percurso e os campos de contato e ação. Minha rotina é corrida como o rio que perpassa a viela onde moro. Rio Tavares, bairro de cidadãos naturais da ilha e repletos de cultura local. Um ambiente de paz e reflexão, a um quilometro da praia. Percorro uma pequena rua e um caminho verde, atravesso as dunas e caio num mar de águas quentes e ondas constantes. Sinto vento frio e o sol queimando. Quando terei uma folga? Não vejo mais meu amor. Somente quando chego para dormir, lá pela uma da madruga.
Porém, as coisas vão bem. Espero fazer algum nesse mês e para o próximo espero estar mais integrado e com mais tempo disponível para minha vida amorosa. Estamos ambos sentindo muita falta um do outro. Mas acho que está sendo muito rico e importante esse momento.
Lagoa da Conceição, local de agitação constante, inúmeros bares e restaurantes. Algumas poucas ruas que engarrafam com os milhares de carros que passam por aqui. Suas calçadas mostram na vitrine e nos preços o tipo de gente que frequenta o local. Lagoa rodeada por verde, pousadas, grandes casas e atravessada por diferentes cometas, que passam e quase me levam enquanto pedalo à toda.
Ainda não cheguei, não me acostumei. Não quero. Quero me integrar e expandir aos poucos meus tentáculos, formando essa rede que sustenta minha vida. Objetivos surgem e desaparecem. Aparecem como fagulhas e centelhas de um nativo carioca que busca aqui em floripa o caminho para sua felicidade. Seja lá o que isso for. Não estou tendo tempo nem para organizar minhas idéias. Mas elas não param de chegar e tento anota-las no meu precioso caderninho verde.
Agora vou ao centro da cidade, dar entrada na carteira de trabalho. Volto para casa, me arrumo e parto para o restaurante. Fico até meia noite e volto para casa. Sofro, assim, aos poucos, com a degradação do espírito e do corpo humano. Desrespeito meus limites e as fronteiras parecem se expandir cada vez mais. Respiro e prossigo viagem. Um grande beijo e até mais.

Tuesday, December 27, 2005

Olhares e refúgios

Desde minha chegada em terra estrangeira, digo estrangeira por um motivo simples e um complexo. O primeiro, mais simples, pelo fato de estar numa cidade diferente da minha de origem e naturalidade. O segundo, mais complexo para explicar, diz respeito ao sentimento de estranhamento que, às vezes, me invade e torna tudo um tanto estéril e longínquo.
Estou há quinze dias nessa cidade que não para e eu tampouco paro. Respiro em alguns momentos, sem relaxar, com o pensamento fechado e o olhar aberto. Reparo em tudo ao redor, reconheço os caminhos e logo percebo esse movimento interno de estabelecer uma rotina, um traço que me seja conhecido ou reconhecível.
Perambulo nos momentos de descanso. Vou à praia, sinto o vento e a areia das dunas. Meu pensamento está, a todo momento, trabalhando no sentido de construir uma rede de fixação à qual recorro para delimitar meu campo de ação e sentido. Organizo meus dias e minhas noites em função dos trabalhos e da necessidade de fazer dinheiro. Nesses contatos com restaurantes, bares e cafés, tenho encontrado uma diversidade enorme de pessoas e negócios que se abrem aos meus olhos como portas de um sonho inesperado e inoportuno.
Busco amparo e refúgio na minha solidão. Inalcançável para este outro tão próximo, que sinto a dor da distância entre os seres. Somos, portanto, sempre indivisíveis e inócuos. Seres ambulantes e disfarçados em personas e máscaras discretas de quem quer ser reconhecido e desejado pelo outro.
Pulo de idéia em idéia, de olho em olho e pé em pé. Percorro a lagoa e o rio com olhos abertos para o movimento ininterrupto e abrupto dos veículos conduzidos de maneira apressada. Projeto imagens e sons numa tela de mosaico em círculo. Linhas e pontos de um entrecruzamento de sentidos e seres insólitos. Diversos e distintos. Loucos e normais. Acesos e apagados.
Uma luz e uma fumaça denunciam o refúgio de uma alma em desespero e pungência de um outro ser. Como a borboleta que rompe o invólucro da lagarta e voa em direção ao céu. Desse jeito, tão suave e sutil, irrompo em discursos e verdades até então desconhecidas.
Uma conversa, um pedido, uma exigência e uma responsabilidade. Respondo com palavras e silêncio ao diálogo impossível entre o outro e eu. Toco, acaricio. Sublimo e respiro um outro ar. Solto a pressão e relaxo as costas. Alongo o pescoço e ressinto o aconchego do lar. Onde fica? Onde está minha morada?
Conversa silenciosa entre amigos em especial. Em contato infinito com a solidão de nossas almas. Prolongamentos e correspondências entre corações e corpos quebrados. Um beijo.

Monday, December 12, 2005

Viagem

Primeiras palavras desde minha chegada em Floripa. São tantos sentimentos e emoções que perpassam meu corpo alma neste momento, que não consigo organizar meu pensamento. Vivo o dia, o fôlego infinito do tempo e do desejo. Me encho de ânimo e força para enfrentar as mazelas e durezas desta mudança. Mando um abraço para geral em Niterói. Espero voltar em breve e ter mais tempo para postar algo de algum valor poético.

Monday, December 05, 2005

caminhar com as palavras

numa dessas tardes ensolaradas, quando o suor molha a roupa
quando chamas transparentes cintilam no asfalto quente
quando a paisagem revela o momento, os sentidos se cruzam
a incidência da língua sobre o sujeito, da fala infinita do outro
aquela que nos atravessa e subjuga, como condenados à falta
à perda original que nos constitui, de um objeto amado
de situações e pessoas, de idéias e sensações
percepção de uma morte iminente, da alteridade extrema
caminhando para o futuro, em direção ao passado
eterno retorno de uma voz, de uma língua paterna
uma ferida se faz presente, e outra maré se produz
um deslocamento e uma condensação, em ritmos periféricos
em movimento com a terra e seus imprevistos, suas surpresas
acontecimentos inesperados, insights e alucinações
interferência sobre a realidade, captando seu sentido puro
único, em si, do movimento terrestre, da locomoção
da estrada que percorremos, em sonho e realidade
em desejo e castração, em quase totalidade
na falta inexorável, de onde urge uma questão
uma pergunta, um descobrimento do desconhecido, do esquecido
onde as idéias e o pensamento não têm força, no que escapa
naquilo que não temos controle e que nos assoita como de fora
alheio a desejo e satisfação, naquele momento é tudo, é um

um ser solitário que caminha com as palavras, numa balça flutuante
catando estrelas cadentes e conjunções, horizontes, sol e lua,
morrer e nascer do dia, daquele dia em que conduzimos a luz
de um saber, de um conhecimento de si e do outro, daquele que nos reflete
dos olhos que somos olhados e das palavras com as quais somos ditos
essa língua maternal, que serve de abrigo e refúgio
acolhe minha solidão e morre livremente
perdida no ar da imaginação, da corrente inusitada de inspiração
de um desvio que se produz, na minha mente se faz luz
uma certa visão, um olhar, um toque, uma passagem
uma respiração, o primeiro movimento, o essencial
daquilo que fala nossos peitos e sexos
nossa carne e nosso pensamento, juízo imperfeito de uma realidade
fragmentada e inconsistente, de onde nenhuma obra cobrará as dívidas
esfalecimento do tecido social, da multiplicidade violenta
de informações e imagens, e símbolos e letras e punhos
levam nosso desejo em uma corrente, um stream, um rio, um canal
um sentido no qual escoa e transborda o desejo, a pulsação
ritmo de um corpo pensante, de um ser ambulante
de um zé ninguém, engolido pelo anonimato, na impessoalidade
na quebra ininterrupta de modelos, de paradigmas e establishements
um certo poder saber, sobre si, de auto escrutínio, e alheio
da privacidade do outro, que serve de espelho, de retrato e retratante
de real e delirante, protagonistas de uma mesma história
pela qual trespassam muitos e tantos que é impossível contá-los
fios de luz, condutores de energia, repletos de tensão e conflitos
emaranhados elétricos sobrevoam ombros e cabeça, agarram-se
em constante luta e dilema, da decisão, da escolha, do caminho
percorrido como poucos, em confins longínquos
em fins perdidos e correntes elétricas, de um infinito caminhar
com as palavras, num vôo solitário de libertação, de criação
onde a língua incide sobre o olhar e sua expressão, sua escolha
pessoal e intransferível, sua assinatura e impressão digital
aquilo que te faz único, singular e inexistente
aquilo que é você e não te pertence, uma imagem, um devaneio
umas palavras e um sentimento, uma inspiração de talento
uns toques e um retrato, de si, de outro, de mundo, sioutromundo
expiração lenta e inconstante, de lembranças e desejos
de história e território, de estabelecido e arrependido
de contraditório e esquecido
de um arsenal repleto de sons e imagens, letras e corpo
em suspenso, elástico e maleável, distorcido e aumentado
diminuído e esticado, uma peça de automóvel em tenro desuso
de um vir a ser atrasado demais para recuperar o tempo perdido
de um irremediável só depois para saber o que acontece no próximo capítulo
deixo aqui para imaginar qual e quando será o próximo deste blogger