numa dessas tardes ensolaradas, quando o suor molha a roupa
quando chamas transparentes cintilam no asfalto quente
quando a paisagem revela o momento, os sentidos se cruzam
a incidência da língua sobre o sujeito, da fala infinita do outro
aquela que nos atravessa e subjuga, como condenados à falta
à perda original que nos constitui, de um objeto amado
de situações e pessoas, de idéias e sensações
percepção de uma morte iminente, da alteridade extrema
caminhando para o futuro, em direção ao passado
eterno retorno de uma voz, de uma língua paterna
uma ferida se faz presente, e outra maré se produz
um deslocamento e uma condensação, em ritmos periféricos
em movimento com a terra e seus imprevistos, suas surpresas
acontecimentos inesperados, insights e alucinações
interferência sobre a realidade, captando seu sentido puro
único, em si, do movimento terrestre, da locomoção
da estrada que percorremos, em sonho e realidade
em desejo e castração, em quase totalidade
na falta inexorável, de onde urge uma questão
uma pergunta, um descobrimento do desconhecido, do esquecido
onde as idéias e o pensamento não têm força, no que escapa
naquilo que não temos controle e que nos assoita como de fora
alheio a desejo e satisfação, naquele momento é tudo, é um
só
um ser solitário que caminha com as palavras, numa balça flutuante
catando estrelas cadentes e conjunções, horizontes, sol e lua,
morrer e nascer do dia, daquele dia em que conduzimos a luz
de um saber, de um conhecimento de si e do outro, daquele que nos reflete
dos olhos que somos olhados e das palavras com as quais somos ditos
essa língua maternal, que serve de abrigo e refúgio
acolhe minha solidão e morre livremente
perdida no ar da imaginação, da corrente inusitada de inspiração
de um desvio que se produz, na minha mente se faz luz
uma certa visão, um olhar, um toque, uma passagem
uma respiração, o primeiro movimento, o essencial
daquilo que fala nossos peitos e sexos
nossa carne e nosso pensamento, juízo imperfeito de uma realidade
fragmentada e inconsistente, de onde nenhuma obra cobrará as dívidas
esfalecimento do tecido social, da multiplicidade violenta
de informações e imagens, e símbolos e letras e punhos
levam nosso desejo em uma corrente, um stream, um rio, um canal
um sentido no qual escoa e transborda o desejo, a pulsação
ritmo de um corpo pensante, de um ser ambulante
de um zé ninguém, engolido pelo anonimato, na impessoalidade
na quebra ininterrupta de modelos, de paradigmas e establishements
um certo poder saber, sobre si, de auto escrutínio, e alheio
da privacidade do outro, que serve de espelho, de retrato e retratante
de real e delirante, protagonistas de uma mesma história
pela qual trespassam muitos e tantos que é impossível contá-los
fios de luz, condutores de energia, repletos de tensão e conflitos
emaranhados elétricos sobrevoam ombros e cabeça, agarram-se
em constante luta e dilema, da decisão, da escolha, do caminho
percorrido como poucos, em confins longínquos
em fins perdidos e correntes elétricas, de um infinito caminhar
com as palavras, num vôo solitário de libertação, de criação
onde a língua incide sobre o olhar e sua expressão, sua escolha
pessoal e intransferível, sua assinatura e impressão digital
aquilo que te faz único, singular e inexistente
aquilo que é você e não te pertence, uma imagem, um devaneio
umas palavras e um sentimento, uma inspiração de talento
uns toques e um retrato, de si, de outro, de mundo, sioutromundo
expiração lenta e inconstante, de lembranças e desejos
de história e território, de estabelecido e arrependido
de contraditório e esquecido
de um arsenal repleto de sons e imagens, letras e corpo
em suspenso, elástico e maleável, distorcido e aumentado
diminuído e esticado, uma peça de automóvel em tenro desuso
de um vir a ser atrasado demais para recuperar o tempo perdido
de um irremediável só depois para saber o que acontece no próximo capítulo
deixo aqui para imaginar qual e quando será o próximo deste blogger
Monday, December 05, 2005
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