Tuesday, December 27, 2005

Olhares e refúgios

Desde minha chegada em terra estrangeira, digo estrangeira por um motivo simples e um complexo. O primeiro, mais simples, pelo fato de estar numa cidade diferente da minha de origem e naturalidade. O segundo, mais complexo para explicar, diz respeito ao sentimento de estranhamento que, às vezes, me invade e torna tudo um tanto estéril e longínquo.
Estou há quinze dias nessa cidade que não para e eu tampouco paro. Respiro em alguns momentos, sem relaxar, com o pensamento fechado e o olhar aberto. Reparo em tudo ao redor, reconheço os caminhos e logo percebo esse movimento interno de estabelecer uma rotina, um traço que me seja conhecido ou reconhecível.
Perambulo nos momentos de descanso. Vou à praia, sinto o vento e a areia das dunas. Meu pensamento está, a todo momento, trabalhando no sentido de construir uma rede de fixação à qual recorro para delimitar meu campo de ação e sentido. Organizo meus dias e minhas noites em função dos trabalhos e da necessidade de fazer dinheiro. Nesses contatos com restaurantes, bares e cafés, tenho encontrado uma diversidade enorme de pessoas e negócios que se abrem aos meus olhos como portas de um sonho inesperado e inoportuno.
Busco amparo e refúgio na minha solidão. Inalcançável para este outro tão próximo, que sinto a dor da distância entre os seres. Somos, portanto, sempre indivisíveis e inócuos. Seres ambulantes e disfarçados em personas e máscaras discretas de quem quer ser reconhecido e desejado pelo outro.
Pulo de idéia em idéia, de olho em olho e pé em pé. Percorro a lagoa e o rio com olhos abertos para o movimento ininterrupto e abrupto dos veículos conduzidos de maneira apressada. Projeto imagens e sons numa tela de mosaico em círculo. Linhas e pontos de um entrecruzamento de sentidos e seres insólitos. Diversos e distintos. Loucos e normais. Acesos e apagados.
Uma luz e uma fumaça denunciam o refúgio de uma alma em desespero e pungência de um outro ser. Como a borboleta que rompe o invólucro da lagarta e voa em direção ao céu. Desse jeito, tão suave e sutil, irrompo em discursos e verdades até então desconhecidas.
Uma conversa, um pedido, uma exigência e uma responsabilidade. Respondo com palavras e silêncio ao diálogo impossível entre o outro e eu. Toco, acaricio. Sublimo e respiro um outro ar. Solto a pressão e relaxo as costas. Alongo o pescoço e ressinto o aconchego do lar. Onde fica? Onde está minha morada?
Conversa silenciosa entre amigos em especial. Em contato infinito com a solidão de nossas almas. Prolongamentos e correspondências entre corações e corpos quebrados. Um beijo.

2 comments:

Anna said...

.vittorio, meu irmão.
.me escreva, me escreva, me escreva.
.se quiser, claro.
.tô te lendo daqui, decifrando suas viagens.
.amo_te muito irmão.
.fica em paz e boa virada pra vocês.
.um beijo.

Anonymous said...

viajantes de mundos sem fronteiras
Corações alados
Voo em comum descomunado
Amor, bem vindos a Ilha,
ao céu esrelado do pequeno príncipe!
Paz e luz na morada de cada dia nessa terra de peregrinos.