Thursday, December 14, 2006

conversas, decisões e movimentos

as pessoas circulam sem saber pra onde vão.
suas pernas seguem um caminho imposto pelo patrão, pela ordem.
suas mentes obcecadas pelo resultado, pelo objetivo, pela chegada que nunca chega.
seus braços não servem pra nada, a não ser pagar a passagem e dirigir seus veículos.
braços, pernas e mentes desconexas, perdidas na atmosfera.
seguem, perseguem, se submetem.
em conversas impertinentes, em olhares desobedientes.
em posturas diferentes, e corpos resplandecentes.
o que acontece? o que passa?
a vida. a vida.
a morte. a morte.
eu e você. você e eu.
conversamos, decidimos um pelo outro, cada um por si.
nos movimentamos, nos perdemos, nos entreolhamos, tocamos um no outro.
sobressalto em pleno vazio. calçado em asfalto quente.
saltitas, percebes a verdade que abala a mente e o corpo.
faz tremer o chão e quebra o tijolo.
desarticula as palavras e queima a vista.
percebes a grosseria? notas o movimento? ou segues absorto?
os olhos conversam, não sabem o que dizem, transcorrem o rio...
de janeiro? tavares?
enquanto conversam, os olhos desviam, decidem por si só, sem corpo, nem mente.
perplexos em fragmentos de espelho soltos, pendurados na realidade frágil e instável.
seguem indecisos, à procura de algum movimento.
conversam em pequenos saltos, buracos existenciais de almas deslocadas.
decidem pelo outro que em si existe.
movimentam-se soltos, presos em linhas hexagonais, esquinas urbanas.

Sunday, November 12, 2006

primavera de contos e encontros...

inicio mais uma tentativa de dar forma às palavras que transbordam de meu corpo e estreitam o laço entre pensamento e afeto. não refleti, tampouco previ essa atitude insana de largar aqui essas palavras. meu sentido é incerto, porém, duradouro. só não sei até quando. será que a vida é uma peça? digo, uma piada? alguma brincadeira sem graça? ou será simplesmente uma peça teatral, com atores principais e coadjuvantes, cenografistas e técnicos de luz e som? uma peça, é certo, nunca é simples, somente para aqueles que assistem-na. meu caso, no entanto, é diferente.
estou em constante balanço entre o palco e as poltronas. reconforto-me na tranquilidade de espectador e, por vezes, me aventuro e incorporo a personagem que nasce de meu interior.
angústia e tristeza são os sentimentos que se fazem presente e presentificam a ausência de sentido e direção da vida. reflito. imagem por movimentos. reflexos do momento, instantâneos eternos, repetidos aleatoriamente. suspiro inacabado. choro guardado. medo e pavor do encontro comigo mesmo. fuga e dilaceramento da alma.
eco das barreiras e percalços do peregrino. ondas e vento forte batem em meu corpo. o frio se acalma com o sol que queima e marca minha pele.
protejo-me com um chapéu de palha. uma imagem. um som. um sabor. um devaneio de primavera.
um súbito esclarecimento da mente, reflexo da alma entorpecida em fugazes instantes de loucura e transbordamento.
perplexidade e alucinação. signos de uma linguagem extinta, porém, rememorada em cada lágrima.
subindo e descendo o vale dos afetos, vejo-me caminhando, só. indo, sem receio do que encontrar. sem rastro do caminhar. pegadas apagadas pelo vento. suor e lágrimas de um eterno sonhador.
primavera de luz, de sol e beleza inigualáveis. guarapuvus encandescentes, amarelo e verde e marrom colorem o morro atrás do quarto. a lontra veio e já se foi. passeou pela rua, tentou falar-me alguma coisa. não entendi. talvez estivesse dizendo: olhe como sou feliz, não tenho que escolher, tampouco corresponder.
ao olhar, ao coração e ao corpo de quem diz nos amar.
ou talvez ela tenha perguntado: guri, por que andas tão triste? não vês que a vida reserva-lhe grandes emoções?
não sabia, de certo, que montanha russa já tinha sido ligada. estou subindo ainda...

Tuesday, August 15, 2006

Percepções e Devaneios

volto após um longo período de reclusão, ou seria de isolamento? outro dia li no periódico que os blogs sá em sua maioria esmagadora voltados para o próprio umbigo de quem os constrói. que lástima, pensei. após muitos meses de dedicação e aprofundamento de questões, essa notinha numa página de jornal me fez rever esse espaço.
insisto nesse espaço enquanto potencial e possibilidade de transformação da realidade, minha e daqueles que aqui aportam. não tenho o intuito de escrever um diário virtual, ou expor minhas angústias - leia-se também, alegrias e prazeres - para quem quer que seja. realmente, é um espaço voltado para minha construção pessoal, mas que pretende ir de encontro às almas que compõem a minha paisagem existencial.
estou vivendo um momento difícil e conturbado. mudanças de ritmo, de limites, de horizontes, de cores e cheiros. meu sentimento não cabe em mim mesmo e acabo recorrendo às atúcias de um vício terrível, ou aos ouvidos de um amigo não tão próximo assim.
me vejo sozinho, acordando no meio de um vale, em sua parte mais próxima do nível do mar, cercado por nuvens densas e cinzas, que me escondem do olhar de terceiros. estou sozinho e respiro calmamente, sempre olhando em direção à lagoa, ouvindo suas pequenas e contínuas ondas vindo na direção do trapiche.
esquento meu corpo e minha alma com pensamentos tenros de amor e saudades de minha família e amigos. procuro desvira minha atenção do tempo que passa depressa diante de mim.
o sol esquenta e esvai as nuvens em pequenas gotículas de água e gás carbônico.
sinto a umidade e o calor crescerem. me vejo pequeno diante do mundo que se abre. não reconheço meus passos. não lembro de meu passado. não almejo futuro algum. estou tão empobrecido, tão limito por mim mesmo. pasmo diante do morro verde e cortado pela rua.
sou eu mesmo que crio o mundo e seus limites. os meus se colocam à revelia de meu desejo.
já sinto algumas mudanças no tempo, mas o espaço continua restrito e medíocre.
as ondas do tempo vão e vêm continuamente, perpetuando a passagem e o eterno presente da angústia.
as bordas e margens da lagoa se desfazem, suaves, grama e areia, água e vento, tornando o espaço matéria de outro mundo, de outra ordem.
sou único e sozinho. reflito. meu rosto e olhos. a água balança incessante dentro de mim.
já não sou mais eu e sim as vozes, as falas, os discursos daqueles que me habitam. procuro meu corpo, meu espírito, minha vontade e ânimo. escorregam pelos dedos e juntam-se às aguas da lagoa.
me percebo junto ao trapiche, de longe, como um observador. quem será esse? quando, no tempo da minha vida, esse se destacou de mim? onde, no espaço de meu corpo, esse cortou os laços comigo?
sou eu e esse. um sentindo e outro observando. sou ainda e mais dois, que não sei quem são. quem observa o observador? quem retrata toda a situação? o juiz? o artista? sou, no fundo, funcionário de meu corpo, peça inacabada de mim mesmo.
levanto lentamente, sem pressa para nada, pois não há nada a ser feito. olho o mundo ao redor. meu mundo, meus limites. não persigo mais um sonho, ou um objetivo. estou à deriva de mim mesmo. sujeito às intempéries de minha alma, aos conflitos originários de meu espírito.
surgi, reflito, do conflito entre almas, do confronto entre dois seres inconscientes, soltos e perplexos.
não sou muito mais que o resultado de um conflito, um organismo mal feito e inacabado.
sou assim, maltratado, maltrapilho, malhumorado, a-mal-diz-soado; como um verme repugnante que acorda de um sono longínquo.

Monday, July 10, 2006

origem das emoções

muitos afirmam, após o grande avanço das tecnologias médicas, que as emoções têm origem no sistema límbico, na confluência de hormônios e substâncias neuroquímicas que correspondem às emoções. outros tantos dizem que as emoções são fruto do aprendizado e do binâmio estímulo resposta, que condicionaria o comportamento afetivo em suas diferentes instâncias.
no entanto, podemos dizer que as emoções são, sem dúvida, processos internos e externos de assimilação e acomodação que interagem simultaneamente na construção de um rapport entre o corpo e o meio. nesse diálogo intenso entre exterior e interior, as fronteiras são tênues e de difícil localização. quais serão os limites entre eu e outro, entre o particular e o coletivo, entre o (re) conhecido e a diferença?
de certo, são muitas as perguntas, sobretudo no que tange as emoções e sua influência sobre nossa vida diária. sabemos, contudo, que elas são a expressão mais pura de nosso caráter e denunciam sem dó nossas mais profundas intenções.
um impulso, um pensamento e um gesto. o corpo manifesta de maneira clara e indistinta toda a gama de emoções que podem se dizer traduzíveis de nossa experiência vital.
a mente, inconsciente e consciente em luta constante, dribla sentimentos hostis e cria em torno de si mesma uma rede de significantes que enredam uma história de aprisionamento e expressão das emoções. essa pequena parcela que encontra um caminho para sair do circuito interno da mente corpo individual, transforma-se em lixo e sucumbe ao encontro do real.
porém, daquela parte que permanece instável e volátil em nosso interior, cria símbolos e metáforas, alegorias que traduzem as emoções do coletivo, daquilo que acostumamos chamar de social.
ora, se as emoções são tanto individuais quanto coletivas, como dizer que elas têm sua origem em processos neuroquímicos? ou ainda, que são fruto do aprendizado estímulo resposta? seriam as emoções respostas condicionadas? ou percepções tardias de um desenvolvimento lento e duradouro do ser humano?
são emoções.... e têm origem exatamente no diálogo entre os seres, eu e outro, si mesmo e o mundo ao redor.

Tuesday, July 04, 2006

caminhos pelo sul

sem ter a responsabilidade de dar continuidade aos meus escritos depositados nessa tela sem domínio da grande rede, aproveito para iniciar uma escrita bem definida, que procura sintetizar minhas experiências na ilha de santa catarina, florianópolis.
após bastante tempo sem postar uma palavra sequer no blog, volto com um buraco na barriga e um incômodo grosseiro na garganta. uma falta de linha, de percurso, de objetivo que me alucina. um tempo ocioso e perdido sem muita graça além da companhia de uma felina gentil e carinhosa.
quando primeiro cheguei à ilha, minhas perspectivas eram humildes e controladas, na esperança de galgar com calma um percurso profissional no meio da gastronomia e da hotelaria. no entanto, ascendi depressa demais e meu tombo está sendo sentido até hoje.
não consigo encontrar meu caminho e delinear minha atuação num espaço tão limitado e medíocre de um município em franca expansão. sinto influências sobre meu humor e vontade, como um torpor crescente e uma falta de motivação avassaladora. além do fechamento e do recrudescimento das esperanças, a saudade de casa, da família, dos amigos, bate forte. porém, percorro lentamente as estradas da ilha, observando o verde em contraste com o azul do céu claro e brilhante de inverno. o vento frio que me fecha em casa, outrora me instigava a correr e perambular pelas ruas.
hoje, sinto o amadurecimento que buscava e aguardo ansioso o aparecimento dessa lua que me mostra os caminhos pelo sul.

Monday, May 29, 2006

Notas ao amor

Elogio
Epífane donde atuam dois personagens, um homem e uma mulher.
Seu encontro é repleto de gestual e tons suaves e carinhosos.
Seus corpos se abraçam e seus rostos se encontram lado a lado.
Mãos e braços envoltos um no outro.
Respiram o mesmo tempo, o mesmo ar e ardor do amor.
Seus olhos se encontram e sorriem. De si, para si, para os outros.
Não se importam com o alheio. Suas atenções estão voltadas uma para o outro.
Seus lábios se encostam suavemente. Peito contra peito.
Flutuam como pétalas jogadas ao ar. Explodem em vermelho e amarelo.
Seguram-se aos ombros e nucas. Lambem-se um ao outro.
Derramam-se um pelo outro. Na fogueira da paixão.
Deitam em flores e espinhos, formigas e abelhas.
De tudo sentem neste encontro.
E elogiam o amor que os queima e os dilacera a alma.
Perduram, sem fôlego, ligados um ao outro.
Atrasam a despedida e cancelam compromissos.
Comprometem-se a amar um ao outro inquestionavelmente.

***

Tragédia (a seguir)

Saturday, May 27, 2006

tudo começa com uma lista

organizar e produzir eventos. temas. conceitos. cores. música. cardápio. convidados.
lista. é o movimento e a qualidade do evento. deve reunir sempre um número maior de mulheres que homens. nome completo. telefone. mail. data de nascimento. endereço e foto.
tema. captura a atmosfera do evento. determinante quanto à elaboração do projeto como um todo.
oriental. vermelho. branco. preto. dragões.
conceito. sustenta o tema do evento na produção decorativa e organizacional.
festa dos pés descalsos. os convidados retiram seus calçados na entrada e, com os chinelos de bambu, caminham sobre diferentes ilhas.
cores. além de equilibrar o ambiente, as cores emitem uma mensagem e reforçam determinados conceitos.
vermelho. transmite vibração, força, coragem, fogo, paixão.
branco. passa tranquilidade, paz, calma, fôlego.
preto. transmite o insight, o encontro com si mesmo na mensagem do evento.
música. é a pulsação do evento e deve ser planejada por toda sua duração.
estilos orientais. eletrônica. ao vivo.
cardápio. dispõe da comida e da bebida que serão servidas no evento. combinam necessariamente com o tema. variedade e qualidade.
culinária japonesa. sushi. sashimi. yakisoba. misoshiru.
bebida. saquê. frutas exóticas. espumante.
convidados. tudo começa com uma lista. contatos. determinação e empenho na divulgação do evento.
eventos empresariais são muito mais simples que eventos comemorativos ou temáticos.
há uma diferença considerável entre os serviços. tanto no organizacional quanto no orçamento. o que justifica preços distintos.
o evento deve contemplar aspectos da natureza, da cultura, do local e do cliente. reunindo-os de maneira integrada e coesa.
objetivo do evento. oferecer uma experiência sensorial e espiritual. ampliando dimensões.

Wednesday, May 10, 2006

instantes...

no que acreditar? vivemos um tempo de tormentas instantâneas, simultâneas com grandes abalos existenciais. mudanças climáticas de nossos interiores e afecções as mais diversas de nossa forma e expressão de vida. tsunamis de ódio e revolta, furacões de aspereza e incredulidade incomensuráveis. terremotos e explosões de seres praticamente partidos, desprendidos de suas essências, de suas existências pueris e febris.
de que vale acreditar? encontramos signos e símbolos de nossa cultura capitalista e consumista. corrompidos pelo desejo da falta, pelo vazio nunca preenchido, tampouco observado de frente, dialogado diante de si mesmo. perfilamos, de lado, escapamos sorrateiramente desse encontro fatídico com nós mesmos. pobres coitados de coração e almas peladas, pescadas na enseada da vida, como objetos à deriva, à espera de um dia melhor, de instantes de alegria e compaixão.
pesadelos e lágrimas de um recém nascido ser, que brilha recoberto de sangue e suor de sua mão parideira. repele a dor, o sofrimento, como as piores coisas da vida. expulsa de si seu próprio ser e enquanto aguarda o instante chegar, relaxa, se conforma com o repulsivo e descarado desejo do capital.
entregues aos instantes de loucura e controle de nossos instintos, perdemos a batalha do amor contra o ódio. deixamos de lado nossa natureza, em prol do desenvolvimento de personalidades histriônicas, esquizóides e paranóicas. instantes atrás de instantes. perdidos entre mundos de significados distintos e alheios ao outro, à cultura, à sociedade que nos dita o modus operandi de ser.
somos. o que? instantes de consciência e engano. momentos de prazer e satisfação parcial do desejo de consumo. perplexos. rastejamos atrás do poder e da satisfação plena, nunca alcançada. perduramos, exaustos, enquanto pequenos lagartos, vibrando ao olhar da criança que, assustada, joga uma pedra em nossa casca verde e dura de quem andou longos desertos atrás de si mesmo.
perseguindo nossa própria sombra, instantes de clareza e finitude de nossa existência. rompimento de limites e contratos com a história que nos delega funções e papéis sociais, aos quais devemos apenas repulsa e recalque.
instantes de obscuridão, de experiências sensoriais e perceptivas que nos ultrapassam e nos recolocam diante de nós mesmos. sofremos em instantes de percepção, de indignação com nossa própria fome de desejo, de necessidade de querer e desejar sempre algo alheio e diferente de nós mesmos.
buscamos, portanto, sempre a mesma coisa, o mesmo instante derradeiro de conforto e relaxamento de espírito. de desprendimento e constrangimento diante de nossa mãe, de nossa provedora, de quem nos alimenta com o próprio seio.
instantes de troca e conflito, significados perdidos, recolhidos em pequenas conchas e sambaquis. resquícios de uma época perdida. instantes de regojizo e júbilo eternos. somente naqueles instantes...

Friday, May 05, 2006

da utilidade da vida

não é incomum ouvir coisas do tipo "isso não é bom para você", ou "o melhor seria fazer isso ou aquilo", e assim vai. são tantas e tão frequentes as frases com algum sentido para nossas vidas. na minha postagem anterior, tentei tratar desse assunto, mas, pelo visto, fui mal sucedido. minha intenção inicial era de discutir o sentido da vida contemporânea e, após ler minhas próprias palavras, percebi que corri em volta, mas não cheguei ao cerne da questão. antes que meu tempo acabe, vou procurar sintetizar minhas idéias para atingir, ou chegar perto do meu objetivo principal.
viver hoje é o reflexo de nossa história, não seu exato retrato ou a simples repetição de padrões de repetição passados em gerações de famílias e da sociedade capitalista. não. nossa vida tem um sentido muitas vezes pré determinado, ao qual não conseguimos, ou não tentamos nos questionar a respeito. quando acreditamos sair de nosso padrão e estabelecer novos parâmetros, podemos estar, aí mesmo, repetindo mais uma vez aquele inusitado padrão, ou modelo de conduta que nos atravessa.
nesse sentido, de escapar ao índice da utilidade de nossas ações, chamo atenção à nossa capacidade de transformar e transfigurar a realidade em pequenos quadros simbólicos, os quais desprendem-se da realidade que nos atravessa e nos torna capazes de criar outros mundos e outras formas de viver.
dessa forma, escapando e transfigurando o sentido da vida, subvertemos o sistema simbólico vigente e criamos uma nova matriz, uma outra estrutura de ação que pode, se tivermos sorte ou empenho suficiente, mudar nossa posição diante da utilidade da vida.
viver não é produzir, tampouco trabalhar, ou ainda, entregar-se ao caráter capitalístico da sociedade contemporânea.
viver não pode ser simplesmente acordar, levantar, patrocinar-se em ações e delitos contra a própria alma. resignar-se com a estratificação do desejo e o dilaceramento da falta. viver é, portanto, ir contra a maré, dirigir-se contra a multidão de desafortunados, incrédulos da mudança e da transfiguração da realidade a partir da criação de outros sistemas de funcionamento, tanto da psique quanto da máquina do desejo.
estar vivo e dar sentido à vida, pertence à esfera da dialética entre eu e outro, entre si mesmo e o mundo circundante. diálogo no qual estabelece-se direitos e delitos, regras e contra regras, camêras e diretores, produtores e atores.
escolhemos meio ao acaso nossa função no grande teatro da vida. sempre procurando nos ajustar e coibir os impulsos e instintos mais primitivos, os quais nos remetem à nossa natureza selvagem e contraditória.
com tantos avisos e com tanta ciência, esquecemos do papel do inconsciente e da vida anímica em nossas atitudes diárias.
quando pensamos ou nos dizemos da utilidade da vida, temos em mente sentidos e símbolos inconscientes, passados na esfera da linguagem, da sociedade. esquecemos, portanto, de nossa vida animal e inconsciente, que controla e dita nossas escolhas.
viver não tem utilidade. não estamos vivos no intuito de aprimorar ou evoluir, tampouco de aprender ou crescer, consigo e com os outros.
estamos vivos para nutrir nossos desejos e responder com afeto ao impulsos inconscientes que queimam nossa alma e nos lançam ao desconhecido.
viver não é ser bom no trabalho, tampouco conseguir servir mais mesas que o antigo garçom.
viver não é, tampouco, prescindir do animalesco e incontrolável desejo de romper com a realidade e com os limites impostos pela sociedade utilitarista.
dificilmente nos damos conta quando respondemos como automâtos aos estímulos do mundo, e ainda menos quando propomos ao mundo um modo de ser que acreditamos quebrar com o paradigma atual.
simplesmente atuamos no cenário, acompanhamos a lente e a direção de filmagem. respondemos como atores de segunda classe na película do estigma da vida útil e prestativa.
quando rompemos com o enlace, definitivamente, do assujeitamento e da domesticação da loucura, aí sim, somos capazes de responder ao mundo e a nós mesmos, sem um sentido para a vida, muito menos um sentido útil e produtivo aquilo que conhecemos como desejo e falta.
finalmente, ser capaz de romper com a produção de sentido utilitarista da vida, é ser capaz de ir contra si mesmo e abster-se de sua própria falta e de seu próprio desejo, sabendo-os inescrupulosos e vulgares.
por hoje é só.

Sunday, April 30, 2006

um sentido para a vida

talvez esse tema seja algo recorrente que teima em voltar a essas páginas virtuais. talvez ele grite por si mesmo dentro de meu peito. ou ainda tenha voz própria e queira se fazer escutar, por mim e pelos outros que acessam esse domínio.
pois encontrar sentido para a vida não é tarefa que se resuma em um parágrafo, ou numa página, tampouco numa tela de computador. é algo para se conversar, filosofar que seja. é um tema que perdura e nos atravessa. como um ditado ou dito popular, que guarda em si um sentido a-histórico. dar um sentido para a vida é muito mais que encontrar a profissão ou o trabalho que nos completa. é muito mais que dizer "encontrei meu amor", "a parte que me complementa".
a vida, sem dúvida, guarda em si um sentido que nos escapa, que se extravia. portanto, cabe a cada um dar um sentido a isso. percorrendo estradas e arranhando os céus. contornando montanhas e as escalando. trazendo para si a responsabilidade de responder enquanto sujeito de direito e de desejo.
um sentido para a vida é, talvez, chama-la pelo nome, ou, melhor, por seu avesso.
um sentido para a morte é, assim, a chama que arde em nosso peito e nos eleva ao posto de cidadãos, incluídos e excluídos de pequenos sistemas linguísticos e simbólicos.
morte e vida, sentido duplo de nossa existência. vida e morte, diálogo eterno da palavra e do gesto, do amor e do ódio que nos habita e nos revela o sentido para a vida.

Saturday, April 22, 2006

padrões de repetição

sabe-se há muito da importância da comunicação para a vida cotidiana, sua influência sobre nossos conceitos e valores nos é tão arraigada que nem percebemos sua força em nossas mentes. é isso: somos guiados por pensamentos e imagens que nos antecedem e nos encostam na parede da existência enquanto rezamos e nos punimos pelos pecados imputados pela ordem religiosa de nossa sociedade.
culpa, erro, medo, sofrimento e desalento. sentimentos e estados da alma de um ser fragmentado em pequenas parcelas à prestação. pagamos com juros os dividendos de uma cobrança ancestral conosco mesmos. somos irremediavelmente enfermos de um mal, ou seria uma doença? social.
escutamos e respondemos aos ataques de um senhor pastoral e cúmplice de nossas quimeras e nossos devaneios solitários.
tentamos, em vão, nos comunicar e tornar comum sentimentos e pensamentos que nos convém afirmar que são únicos e verdadeiros diante da regra geral de verbos e substantivos espalhados pelo ar.
soltamos peidos e arrotos de uma língua perdida em hiatos e silêncios. conjugamos palavras e nomes em busca de entendimento mútuo e respeito à diferença. será isso mesmo??
falamos, escutamos, interpretamos e respondemos ao que nos é dito. tons e semitons. vozes e sílabas balançam ao roçar dos pulmões nas costelas de um ser esquecido.
procuramos fazer comum e nos confundimos, nos perdemos em mensagens entrecortadas, em espaços distilados e tempos recortados.
presente, passado e futuro coexistem na palavra e na vã tentativa de tornar nossas imagens filme de uma história que pode e deve ser contada aos demais.
nos perdemos em justificativas e palavras demasiadamente pesadas e sem sentido.
o gesto e a ação correspondem ao inverso do verbo substanciado em pensamento e imagem.

Friday, April 07, 2006

ser e estar

apenas duas palavras, dois verbos, suas existências na gramática e na pragmática da vida nos impelem ao desconhecido, à lacuna entre nós e os outros, entre o familiar e o estrangeiro, quando percebemos a diferença e construímos essa barreira chamada recalque, eridimos muito mais que um mecanismo de defesa, damos ensejo à precipitação do ser e sua relaçao com o transbordamento do desejo e a falta inexorável que reside na angústia.
apenas duas palavras, dois nomes, cujas representações simbolizam a própria história do sujeito, que encontrou na linguagem sua forma de expressão anímica e pulsional, criando redes de significados e significantes, veiculando sua presença com a ausência de sentido ulterior à palavra recuperada para dar corpo à existência do estar.
ser e estar, perambular entre um espaço e outro, entre tempos e campos do saber, do conhecimento e da sabedoria, pulsar entre verbos da mesma classe, que conjugam e auxiliam outros verbos e reverberam em nossa compreensão do mundo e do outro que constitui a linguagem, a alteridade.
sejamos, portanto, em lugares e tempos distintos daqueles que sempre estivemos e fomos, deixemos partir a metáfora livre de sentido pré concebido e fantasias transvestidas em alegorias e histórias de vida, as quais delineam boa parte da população.
sejamos únicos, estejamos atentos, antenas e satélites de comunicação entre frequências e dispositivos de tráfego interneuronal.
potencial de ação, criatividade, inteligência, entusiasmo, complexos linguísticos do ser e estar em sintonia com a frequência que nos constitui em sujeitos simbólicos.

Saturday, March 25, 2006

coisas

escrever é mais que um prazer e muito menos que uma obrigação. minha vida se faz em gestos e palavras que descrevem meu percurso por essa terra infinita, de infinitos trilhos, incontáveis passagens e trilhas. escrever é uma necesidade, uma pulsação que me chama, clama por alguém, um outro que existe em mim, um interlocutor, um zé ninguém que responde pelo nome que me deram. coisas e mais coisas para se escrever, para delinear, em tempo e espaço, em lugares e corpos, em olhares e beijos. uma situação, um engano, algo atravessado na garganta, que me impede de respirar, de enxergar. coisas oblíquas, coisas definidas, ilimitadas, irrestritas, mal amparadas em desafios linguísticos.
escrever coisas, sobre coisas, coisas que se escrevem, que pedem escritas, letras e coisas. coisas de letras, de perdas. escrever se impõe, como atalho ao caminho da vida. coisas se escrevem. escrevo sobre coisas, perdidas e solitárias. experiências e consequências. atenção, responsabilidade, paciência, dever e definições.
coisas, coisas e coisas para se escrever. coisas para se perder. coisas para se ver. coisas e coisas, mais coisas e coisas para ler, para soletrar, para entender, compreender e responder a.
escrever, perder, responder, anotar, lembrar, recordar, rememorar, reaparecer. coisas, coisas e mais coisas. coisas menos coisas, coisas vezes coisas.
escrever coisas. coisas para escrever. pedidos, escritos, escrituras, escrivão, escriturário.
de hoje, ontem e amanhã. coisas que não acabam. coisas que morrem, outras que nascem, resplandecem, iluminam e enaltecem.
escrever coisas, conquistar coisas e sublinhar outras tantas coisas que persistem como coisas. nesse mundo, nessa vida, nesse tempo espaço de hoje. me perco em coisas, coisas de papel, de cerâmica, madeira e mármore. pedras de coisas, cimentos de coisas. tantas coisas....

Saturday, March 18, 2006

nada mais

uma coisa é certa nesse mundo cão, estamos todos fadados ao fracasso da velhice e ao fardo da morte. desejamos e sonhamos com muita coisa que nos encanta e nos fascina, mas estamos atolados no caldo mórbido da falta e da reparação.
(re)parando os erros, as falhas, os desfalques, os contratempos, percebo a dinâmica e a transferência de responsabilidades e obrigações esquecidas.
perder-se no tempo e no espaço, esconder-se nos interstícios do corpo e da alma, atingir pontos e linhas de um encontro entre um ser e outro.
nada mais.

Wednesday, February 22, 2006

quanto tempo?

sem dúvida, nada é eterno em nossa curta passagem pela terra. o mundo se estende, se encurta, com tecnologias e meios de comunicação, ligando-nos uns aos outros em distâncias incríveis. percorremos nosso caminho, buscamos auto realização e reconhecimento de nossas atitudes, nossos valores.
quanto tempo temos? não sabemos. escolhemos, decidimos por nossas vidas e a dos outros. quando nos mexemos, movemos o mundo, os olhares, os gestos, o desejo.
quanto tempo nos resta? andamos ao léu, buscando realizar objetivos, atingir metas e destinos os mais diversos.
quanto tempo nos é dado? cada passo, cada entrada e saída, cada viela, cada rua e avenida. estradas perdidas em lembranças e sonhos. abertura e fechamento de ciclos, círculos, circularidade temporal.
quanto tempo? quanto damos, quanto recebemos? relação econômica entre sujeitos de desejo e falta. sentimetos de angústia e desespero.
tempo de perceber, de sentir, o momento, o instante da decisão primeira, da primeira escolha. o segundo do olhar e do desejo de entrar e construir novas realidades, novos mundos.
admirável mundo novo. abre-se diante de nós, em telas e monitores de cristal líquido.
movemo-nos, distantes, distanciados, dicotomizados de nosso ser terrestre. flutuamos, insones, insólitos, na atmosfera, na estratosfera de nosso umbigo.
traçamos linhas e pontos, volumes e circunstâncias. somos em falta, na precipitação do desejo de movermos um milímetro de nossa vida primária.
estrutura e mosaico primordial. temas de um sujeito entregue ao vento e ao sol, à lua e à chuva.

Monday, February 06, 2006

do caldo à floração

queimo a boca, a pele encosta, seca, molhada, sentida
sento, sinto, cheiro o vento e a luz que passam
recorro às palavras, ao sofrimento e à solidão
respiro o suor, a lágrima, a falta
perco, em rios e trilhas, sentido
sentidos de ser
do caldo à floração
quando arde e afeta, esmurra a cara
aparece sem querer e arranca da cama
adoece e faz crescer a distância
um hiato entre vapor e líquido
reminiscências de uma alma que grita
um choro calado, silencioso
uma lágrima invisível, um pedido inaudito
talvez, do fogo e do caldo, haja um broto
uma semente, um feto
um recém nascido ser
recém chegado, abraçado e olhado
em seu sofrimento e dependência
reflexo e retalhos entre colchas de cristais
um vento soprou, levando consigo
pétalas e caules, terra e raízes
e fez claro aos olhos daqueles que passam
o caldo de onde flora e renasce a esperança

Saturday, February 04, 2006

roda mundo

esse dia parece não passar... peço para que a hora corra e minha hora chegue. atrasado para o último ônibus, tento correr e não consigo alcançar o fio da vida... respiro com dificuldade, transpiro e soluço sobre o real. esse sol parece não fugir... como quem hesita em partir. não se despede, nem diz adeus. permanece, reinando quieto e silencioso, sobre terra e mar... afugenta os ladrões de almas e acalenta os pobres de espírito. o azul transfigura-se aos poucos... perdido em tonalidades afugentadas, em recortes inusitados, em pedaços descolados. a massa mexe... se move, movendo os azulejos... arrumando o lugar. queima de combustível humano... líquido de uma semente esquecida no interior da selva de pedra. relíquia sem igual, iguaria máxima de toda uma geração... símbolo da lógica e do racional... extrapola os limites e apodera-se daquele que o criou.
esse tempo passa, mas não passa... sente escorregar, devagar, lentamente, entre pedras, rios e cachoeiras, praias, dunas e mares. vai e volta, me mostra o real da percepção, do fenômeno, da crise existencial.
passa tempo dentro de tempo... em círculos sub atômicos, em superfícies caladas, perfuradas e exploradas por máquinas de petróleo e caldo de gente. morre, mais um pouco.... morre tempo, deixa partir a mágoa, a tristeza e o comodismo típico do amor. leva contigo o alvorecer, o amanhecer e o entardecer... deixa comigo a percepção, o sentimento, a reflexão torta e dinâmica sobre o real.
vai, tempo, vai... deixa ser... deixa de ser, vai. vai, perdura tempo, passa em círculos ou rosquinhas cobertas de chocolate... quebra ao meio e relativiza, mostra o sentido, o movimento de tudo e de todos. não, não permita que pereça... diante de ti, de incomparável beleza e esplendor... amanhece novamente, e de novo e novamente... me mostra que sou inócuo e imperfeito, maldito e limitado. me defronta com a maleza da alma e com o êxtase do corpo... mistura tudo em roda e roda, roda mundo....

Saturday, January 28, 2006

cuspindo sangue

alguma vez na vida, um sujeito cospe sangue. seja por conta de um murro na boca, seja por uma infecção qualquer, ou ainda por um dente estragado. a verdade é que, de qualquer jeito, quando se cospe sangue, percebe-se a cor da vida que corre dentro de nós e nota-se a fragilidade de nossa existência. cuspindo sangue e respirando um ar rarefeito, persigo destinos e objetivos antes alheios. sigo, continuo, persisto e insisto. murro na cara, de cara na parede, na porta do armário. sangue na boca, jato no chão. dor de estômago, respiro no salão. perco, ganho. cuspindo sangue, sigo caminhando.

Friday, January 27, 2006

armando ratoeiras

é bem verdade que todo estabelecimento que lida com comida tem um problema com as bestas que vivem das sobras e dos restos. não é diferente lá no restaurante. toda noite tenho de armar três ratoeiras no estoque da casa para aniquilar com a raça de camundongos que rasga e devora as compras. toda noite coloco um pedaço de queijo, muito bem servido, é claro, nas armadilhas, que escondo pelos cantos do lugar.
ontem, por exemplo, dei de cara com um estrangulado numa ratoeira das antigas. uma barata se divertia em seu fucinho esmagado. antes de verificar as outras, chutei-as. o que, rapidamente, despertou os outros roedores das tocas disfarçadas. estava de luvas de borracha e desarmei-as antes de colocar o queijo. tudo pronto. posso ir embora.
o cheiro me enjoa e respiro com dificuldade. desço do buraco. como um rato, procuro minha armadilha e me mato mais um pouco. caminho até a carona. o queijo está na ratoeira. e a pulga atrás da orelha.

Wednesday, January 25, 2006

mesa para dois

numa mesa de restaurante, um casal chega para jantar. entreolham-se, respiram, examinam o cardápio. pedem uma garrafa de vinho tinto seco, dois copos e uma água sem gás para acompanhar. peço licença e comunico ao copeiro após fazer a comanda. ajeitam-se nas cadeiras, sorriem levemente e discutem os pedidos. chamam-me e perguntam sobre os molhos e as saladas. faço algumas sugestões, explico os detalhes e anoto os pedidos. estão prontos. aguardam, bebendo lentamente a água da vida. sentem o passar do tempo e seus corpos se contorcem. se ajeitam mais uma vez e respiram.
ela, algumas lágrimas, um sorriso encabulado. ele, mãos na boca, olhar incisivo.
eles compõem uma mesa para dois. sentem o tempo e o espaço indefinido do amor e da dor.
duas vidas, unidas. num jantar a dois. palavras e gestos dialogam com o ambiente e tornam a atmosfera sutilmente doce.
pedem sobremesa e dividem. trago para ele um expresso e a conta. saem. decidiram suas vidas.

Monday, January 23, 2006

Tráfico de Idéias

No restaurante, sou o primeiro a chegar. As correntes estão do lado de fora com os cadeados, me informando ainda não posso entrar para passar o cartão de ponto. Seguro minha onda do lado de fora enquanto a chuva cai torrencialmente. Me protejo mal e porcamente dos pingos grossos da chuva de verão.
Chega Bruno, o cozinheiro, ensopado, xingando tudo e todos por causa da chuva. Eu simplesmente sorrio e olho em seus olhos. Apertamos a mão. Como é que tá meu velho? E aí, tudo beleza? Cumprimentos feitos, abrimos os cadeados e rapidamente passamos o cartão. Respiro profundamente e reflito ligeiro sobre o que tenho para fazer.
Todo o salão deve ser varrido, as mesas e os banheiros limpos, os talheres polidos, pratos descidos e retirados e colocados em ordem. Tudo leva mais ou menos três quartos de hora e faz descer algumas gotas de suor. Apesar do vento frio e da temperatura que cai precipitadamente, o exercício diário da limpeza arranca alguns quilos e adiciona algumas rugas à minha testa.
Conversamos pouco. O tempo, aparentemente, nos torna mais introvertidos e cuidamos de nossas vidas.
Enquanto Bruno prepara as batatas, Gabriel, outro cozinheiro, chega já com uma cerva na mão. Vai aí carioca? Não, obrigado. Resisto sem trabalho. O tempo pede café com conhaque, ou uma dose de gabriela em casa quando chegar.
Conversam entre si na cozinha enquanto termino os preparativos para abrir o estabelecimento. Hoje é segunda e provavelmente teremos uma ou duas mesas para atender, o que é uma merda, já que todos ficam loucos para ir embora e o serviço cai de qualidade. Prefiro quando estamos cheios, quase insuportável. Quando tenho de me virar sobre meus calcanhares para dar conta dos diversos pedidos e daqueles clientes chatos e estúpidos que não percebem que estou praticamente fazendo o trabalho de três gaçons ao mesmo tempo.
Não me incomodo. Aprendi com a gerente que tudo tem um motivo desconhecido. O mal humor do cliente pode representar seu ciúme da mulher, ou sua impotência latente. Aprendi ainda que se estiver aberto o suficiente posso torná-lo, ao final da noite, meu amigo e cliente exclusivo.
Bom, isso ainda não aconteceu, mas estou praticando.
Quando chega meia noite, apressamos a caixa, devolvemos os pratos aos seus lugares, trazemos as mesas e cadeiras para dentro, os guarda chuva gigantes, tudo para dentro, tudo organizado. Cadeados, correntes, uma água para finalizar. Passamos todos o cartão. Rimos sem motivo, respiramos por mais um dia.
Carona até a rua e ciao.

Sunday, January 08, 2006

mais um pouco

de dentro de mim saem escamas, pedaços e calos de uma caminhada em dunas escaldantes. aproveito os dias, as manhãs com minha gata na praia, as noites no restaurante. após a saída da padaria, curto os momentos de minha vida em casal, em dupla existencial com ela. cheguei mais cedo para deixar algumas notas nesse pequeno espaço de mundo virtual em que me encontro e permito que me encontrem em palavras e imagens. logo logo disponibilizarei algumas imagens daqui, dos lugares que temos visitado. realmente a ilha é uma maravilha, cheia de magia e sonhos partidos. discursos e palavras sem sentido. de sonhadores e lunáticos despertos, corretos e corrigidos.
sinto o passar do tempo e caminho na corrente dos acontecimentos. deixo a corda correr um pouco, afrouxando os laços com o desejo e a vontade de ser. sou o momento, o presente de um futuro incerto e angustiante. percebo aos poucos a mudança de clima, o calor que aumenta, o vento sul que sopra nos ouvidos. soluções passageiras e respostas em conflito. dissonância e diálogo entre parênteses. convergência e sintonia de corpos e mentes. correspondências e literatura dinâmica. pertenço ao instante, ao fenômeno de um dia findo. quando o céu reflete e revela o espetáculo da natureza, do transcorrer inquieto do tempo.
tempo e espaço confluem para uma síntese abstrata e imperfeita da realidade. pertenço em sonhos e fantasia. palavras e toques. espero tocar e alcançar aqueles distantes. companheiros e família. amigos e camaradas. todos que flutuam na mesma corredeira de águas cristalinas de uma manhã com calma. beijo grande

Monday, January 02, 2006

correspondências

nesses dias corridos em floripa só tenho tempo para trabalhar e descansar o corpo fatigado da jornada dupla. minha vida está tão agitada quanto o mar da joaquina. as ondas não cessam de chegar à costa e meu espírito se renova a cada dia. não sei de onde tirar força, ou gana para vencer nesse tempo espaço louco e infinito da imaginação coletiva. sei que a tenho e a capto no ar. capturo sintonias e melodias de um tempo perdido, partido em fragmentos indefinidos de estadia e percurso. uma palavra atrás da outra em busca de um sentido vivo, de uma percepção inaudita desse tempo inconstante e ininterrupto de hoje. crio destinos e imagens, sons e toques de um dia cada vez mais retratado, cada vez mais detalhado e esmiuçado. em padrões e regras, horários e contratempos. campos e contracampos de um alvorecer esperado e desejado em rodas e assento de uma bicicleta. pedalo pela manhã à beira da lagoa da conceição. curto o visual, respiro o ar matinal, capto as influências e tendências de uma cidade criada para o turismo e o lazer. o prazer está em alta. prioridade de vida, satisfação impossível de desejos e vontades construídas em histórias particulares e coletivas. todos querem a mesma coisa. não sei mais de onde falo. de onde vejo e reparo. sou, como sempre, perdido, quebrado. um ser em constante criação, recriação. transformação de modelos em imagens, cores e fronteiras pré estabelecidos. tudo ao mesmo tempo agora. boto a cara na mesa, descanso o corpo mal arranjado. repouso minha alma em gracejos de gaviões e pássaros azul escuro. lindos e fugidios. choros e soluços. quebras e colagem. momento de reflexão e escolha. instante de pintura e reparação. minha alma grita sutilmente nos interstícios dessa rotina louca em floripa. a todos um excelente 2006.