Saturday, January 28, 2006
cuspindo sangue
alguma vez na vida, um sujeito cospe sangue. seja por conta de um murro na boca, seja por uma infecção qualquer, ou ainda por um dente estragado. a verdade é que, de qualquer jeito, quando se cospe sangue, percebe-se a cor da vida que corre dentro de nós e nota-se a fragilidade de nossa existência. cuspindo sangue e respirando um ar rarefeito, persigo destinos e objetivos antes alheios. sigo, continuo, persisto e insisto. murro na cara, de cara na parede, na porta do armário. sangue na boca, jato no chão. dor de estômago, respiro no salão. perco, ganho. cuspindo sangue, sigo caminhando.
Friday, January 27, 2006
armando ratoeiras
é bem verdade que todo estabelecimento que lida com comida tem um problema com as bestas que vivem das sobras e dos restos. não é diferente lá no restaurante. toda noite tenho de armar três ratoeiras no estoque da casa para aniquilar com a raça de camundongos que rasga e devora as compras. toda noite coloco um pedaço de queijo, muito bem servido, é claro, nas armadilhas, que escondo pelos cantos do lugar.
ontem, por exemplo, dei de cara com um estrangulado numa ratoeira das antigas. uma barata se divertia em seu fucinho esmagado. antes de verificar as outras, chutei-as. o que, rapidamente, despertou os outros roedores das tocas disfarçadas. estava de luvas de borracha e desarmei-as antes de colocar o queijo. tudo pronto. posso ir embora.
o cheiro me enjoa e respiro com dificuldade. desço do buraco. como um rato, procuro minha armadilha e me mato mais um pouco. caminho até a carona. o queijo está na ratoeira. e a pulga atrás da orelha.
ontem, por exemplo, dei de cara com um estrangulado numa ratoeira das antigas. uma barata se divertia em seu fucinho esmagado. antes de verificar as outras, chutei-as. o que, rapidamente, despertou os outros roedores das tocas disfarçadas. estava de luvas de borracha e desarmei-as antes de colocar o queijo. tudo pronto. posso ir embora.
o cheiro me enjoa e respiro com dificuldade. desço do buraco. como um rato, procuro minha armadilha e me mato mais um pouco. caminho até a carona. o queijo está na ratoeira. e a pulga atrás da orelha.
Wednesday, January 25, 2006
mesa para dois
numa mesa de restaurante, um casal chega para jantar. entreolham-se, respiram, examinam o cardápio. pedem uma garrafa de vinho tinto seco, dois copos e uma água sem gás para acompanhar. peço licença e comunico ao copeiro após fazer a comanda. ajeitam-se nas cadeiras, sorriem levemente e discutem os pedidos. chamam-me e perguntam sobre os molhos e as saladas. faço algumas sugestões, explico os detalhes e anoto os pedidos. estão prontos. aguardam, bebendo lentamente a água da vida. sentem o passar do tempo e seus corpos se contorcem. se ajeitam mais uma vez e respiram.
ela, algumas lágrimas, um sorriso encabulado. ele, mãos na boca, olhar incisivo.
eles compõem uma mesa para dois. sentem o tempo e o espaço indefinido do amor e da dor.
duas vidas, unidas. num jantar a dois. palavras e gestos dialogam com o ambiente e tornam a atmosfera sutilmente doce.
pedem sobremesa e dividem. trago para ele um expresso e a conta. saem. decidiram suas vidas.
ela, algumas lágrimas, um sorriso encabulado. ele, mãos na boca, olhar incisivo.
eles compõem uma mesa para dois. sentem o tempo e o espaço indefinido do amor e da dor.
duas vidas, unidas. num jantar a dois. palavras e gestos dialogam com o ambiente e tornam a atmosfera sutilmente doce.
pedem sobremesa e dividem. trago para ele um expresso e a conta. saem. decidiram suas vidas.
Monday, January 23, 2006
Tráfico de Idéias
No restaurante, sou o primeiro a chegar. As correntes estão do lado de fora com os cadeados, me informando ainda não posso entrar para passar o cartão de ponto. Seguro minha onda do lado de fora enquanto a chuva cai torrencialmente. Me protejo mal e porcamente dos pingos grossos da chuva de verão.
Chega Bruno, o cozinheiro, ensopado, xingando tudo e todos por causa da chuva. Eu simplesmente sorrio e olho em seus olhos. Apertamos a mão. Como é que tá meu velho? E aí, tudo beleza? Cumprimentos feitos, abrimos os cadeados e rapidamente passamos o cartão. Respiro profundamente e reflito ligeiro sobre o que tenho para fazer.
Todo o salão deve ser varrido, as mesas e os banheiros limpos, os talheres polidos, pratos descidos e retirados e colocados em ordem. Tudo leva mais ou menos três quartos de hora e faz descer algumas gotas de suor. Apesar do vento frio e da temperatura que cai precipitadamente, o exercício diário da limpeza arranca alguns quilos e adiciona algumas rugas à minha testa.
Conversamos pouco. O tempo, aparentemente, nos torna mais introvertidos e cuidamos de nossas vidas.
Enquanto Bruno prepara as batatas, Gabriel, outro cozinheiro, chega já com uma cerva na mão. Vai aí carioca? Não, obrigado. Resisto sem trabalho. O tempo pede café com conhaque, ou uma dose de gabriela em casa quando chegar.
Conversam entre si na cozinha enquanto termino os preparativos para abrir o estabelecimento. Hoje é segunda e provavelmente teremos uma ou duas mesas para atender, o que é uma merda, já que todos ficam loucos para ir embora e o serviço cai de qualidade. Prefiro quando estamos cheios, quase insuportável. Quando tenho de me virar sobre meus calcanhares para dar conta dos diversos pedidos e daqueles clientes chatos e estúpidos que não percebem que estou praticamente fazendo o trabalho de três gaçons ao mesmo tempo.
Não me incomodo. Aprendi com a gerente que tudo tem um motivo desconhecido. O mal humor do cliente pode representar seu ciúme da mulher, ou sua impotência latente. Aprendi ainda que se estiver aberto o suficiente posso torná-lo, ao final da noite, meu amigo e cliente exclusivo.
Bom, isso ainda não aconteceu, mas estou praticando.
Quando chega meia noite, apressamos a caixa, devolvemos os pratos aos seus lugares, trazemos as mesas e cadeiras para dentro, os guarda chuva gigantes, tudo para dentro, tudo organizado. Cadeados, correntes, uma água para finalizar. Passamos todos o cartão. Rimos sem motivo, respiramos por mais um dia.
Carona até a rua e ciao.
Chega Bruno, o cozinheiro, ensopado, xingando tudo e todos por causa da chuva. Eu simplesmente sorrio e olho em seus olhos. Apertamos a mão. Como é que tá meu velho? E aí, tudo beleza? Cumprimentos feitos, abrimos os cadeados e rapidamente passamos o cartão. Respiro profundamente e reflito ligeiro sobre o que tenho para fazer.
Todo o salão deve ser varrido, as mesas e os banheiros limpos, os talheres polidos, pratos descidos e retirados e colocados em ordem. Tudo leva mais ou menos três quartos de hora e faz descer algumas gotas de suor. Apesar do vento frio e da temperatura que cai precipitadamente, o exercício diário da limpeza arranca alguns quilos e adiciona algumas rugas à minha testa.
Conversamos pouco. O tempo, aparentemente, nos torna mais introvertidos e cuidamos de nossas vidas.
Enquanto Bruno prepara as batatas, Gabriel, outro cozinheiro, chega já com uma cerva na mão. Vai aí carioca? Não, obrigado. Resisto sem trabalho. O tempo pede café com conhaque, ou uma dose de gabriela em casa quando chegar.
Conversam entre si na cozinha enquanto termino os preparativos para abrir o estabelecimento. Hoje é segunda e provavelmente teremos uma ou duas mesas para atender, o que é uma merda, já que todos ficam loucos para ir embora e o serviço cai de qualidade. Prefiro quando estamos cheios, quase insuportável. Quando tenho de me virar sobre meus calcanhares para dar conta dos diversos pedidos e daqueles clientes chatos e estúpidos que não percebem que estou praticamente fazendo o trabalho de três gaçons ao mesmo tempo.
Não me incomodo. Aprendi com a gerente que tudo tem um motivo desconhecido. O mal humor do cliente pode representar seu ciúme da mulher, ou sua impotência latente. Aprendi ainda que se estiver aberto o suficiente posso torná-lo, ao final da noite, meu amigo e cliente exclusivo.
Bom, isso ainda não aconteceu, mas estou praticando.
Quando chega meia noite, apressamos a caixa, devolvemos os pratos aos seus lugares, trazemos as mesas e cadeiras para dentro, os guarda chuva gigantes, tudo para dentro, tudo organizado. Cadeados, correntes, uma água para finalizar. Passamos todos o cartão. Rimos sem motivo, respiramos por mais um dia.
Carona até a rua e ciao.
Sunday, January 08, 2006
mais um pouco
de dentro de mim saem escamas, pedaços e calos de uma caminhada em dunas escaldantes. aproveito os dias, as manhãs com minha gata na praia, as noites no restaurante. após a saída da padaria, curto os momentos de minha vida em casal, em dupla existencial com ela. cheguei mais cedo para deixar algumas notas nesse pequeno espaço de mundo virtual em que me encontro e permito que me encontrem em palavras e imagens. logo logo disponibilizarei algumas imagens daqui, dos lugares que temos visitado. realmente a ilha é uma maravilha, cheia de magia e sonhos partidos. discursos e palavras sem sentido. de sonhadores e lunáticos despertos, corretos e corrigidos.
sinto o passar do tempo e caminho na corrente dos acontecimentos. deixo a corda correr um pouco, afrouxando os laços com o desejo e a vontade de ser. sou o momento, o presente de um futuro incerto e angustiante. percebo aos poucos a mudança de clima, o calor que aumenta, o vento sul que sopra nos ouvidos. soluções passageiras e respostas em conflito. dissonância e diálogo entre parênteses. convergência e sintonia de corpos e mentes. correspondências e literatura dinâmica. pertenço ao instante, ao fenômeno de um dia findo. quando o céu reflete e revela o espetáculo da natureza, do transcorrer inquieto do tempo.
tempo e espaço confluem para uma síntese abstrata e imperfeita da realidade. pertenço em sonhos e fantasia. palavras e toques. espero tocar e alcançar aqueles distantes. companheiros e família. amigos e camaradas. todos que flutuam na mesma corredeira de águas cristalinas de uma manhã com calma. beijo grande
sinto o passar do tempo e caminho na corrente dos acontecimentos. deixo a corda correr um pouco, afrouxando os laços com o desejo e a vontade de ser. sou o momento, o presente de um futuro incerto e angustiante. percebo aos poucos a mudança de clima, o calor que aumenta, o vento sul que sopra nos ouvidos. soluções passageiras e respostas em conflito. dissonância e diálogo entre parênteses. convergência e sintonia de corpos e mentes. correspondências e literatura dinâmica. pertenço ao instante, ao fenômeno de um dia findo. quando o céu reflete e revela o espetáculo da natureza, do transcorrer inquieto do tempo.
tempo e espaço confluem para uma síntese abstrata e imperfeita da realidade. pertenço em sonhos e fantasia. palavras e toques. espero tocar e alcançar aqueles distantes. companheiros e família. amigos e camaradas. todos que flutuam na mesma corredeira de águas cristalinas de uma manhã com calma. beijo grande
Monday, January 02, 2006
correspondências
nesses dias corridos em floripa só tenho tempo para trabalhar e descansar o corpo fatigado da jornada dupla. minha vida está tão agitada quanto o mar da joaquina. as ondas não cessam de chegar à costa e meu espírito se renova a cada dia. não sei de onde tirar força, ou gana para vencer nesse tempo espaço louco e infinito da imaginação coletiva. sei que a tenho e a capto no ar. capturo sintonias e melodias de um tempo perdido, partido em fragmentos indefinidos de estadia e percurso. uma palavra atrás da outra em busca de um sentido vivo, de uma percepção inaudita desse tempo inconstante e ininterrupto de hoje. crio destinos e imagens, sons e toques de um dia cada vez mais retratado, cada vez mais detalhado e esmiuçado. em padrões e regras, horários e contratempos. campos e contracampos de um alvorecer esperado e desejado em rodas e assento de uma bicicleta. pedalo pela manhã à beira da lagoa da conceição. curto o visual, respiro o ar matinal, capto as influências e tendências de uma cidade criada para o turismo e o lazer. o prazer está em alta. prioridade de vida, satisfação impossível de desejos e vontades construídas em histórias particulares e coletivas. todos querem a mesma coisa. não sei mais de onde falo. de onde vejo e reparo. sou, como sempre, perdido, quebrado. um ser em constante criação, recriação. transformação de modelos em imagens, cores e fronteiras pré estabelecidos. tudo ao mesmo tempo agora. boto a cara na mesa, descanso o corpo mal arranjado. repouso minha alma em gracejos de gaviões e pássaros azul escuro. lindos e fugidios. choros e soluços. quebras e colagem. momento de reflexão e escolha. instante de pintura e reparação. minha alma grita sutilmente nos interstícios dessa rotina louca em floripa. a todos um excelente 2006.
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