No restaurante, sou o primeiro a chegar. As correntes estão do lado de fora com os cadeados, me informando ainda não posso entrar para passar o cartão de ponto. Seguro minha onda do lado de fora enquanto a chuva cai torrencialmente. Me protejo mal e porcamente dos pingos grossos da chuva de verão.
Chega Bruno, o cozinheiro, ensopado, xingando tudo e todos por causa da chuva. Eu simplesmente sorrio e olho em seus olhos. Apertamos a mão. Como é que tá meu velho? E aí, tudo beleza? Cumprimentos feitos, abrimos os cadeados e rapidamente passamos o cartão. Respiro profundamente e reflito ligeiro sobre o que tenho para fazer.
Todo o salão deve ser varrido, as mesas e os banheiros limpos, os talheres polidos, pratos descidos e retirados e colocados em ordem. Tudo leva mais ou menos três quartos de hora e faz descer algumas gotas de suor. Apesar do vento frio e da temperatura que cai precipitadamente, o exercício diário da limpeza arranca alguns quilos e adiciona algumas rugas à minha testa.
Conversamos pouco. O tempo, aparentemente, nos torna mais introvertidos e cuidamos de nossas vidas.
Enquanto Bruno prepara as batatas, Gabriel, outro cozinheiro, chega já com uma cerva na mão. Vai aí carioca? Não, obrigado. Resisto sem trabalho. O tempo pede café com conhaque, ou uma dose de gabriela em casa quando chegar.
Conversam entre si na cozinha enquanto termino os preparativos para abrir o estabelecimento. Hoje é segunda e provavelmente teremos uma ou duas mesas para atender, o que é uma merda, já que todos ficam loucos para ir embora e o serviço cai de qualidade. Prefiro quando estamos cheios, quase insuportável. Quando tenho de me virar sobre meus calcanhares para dar conta dos diversos pedidos e daqueles clientes chatos e estúpidos que não percebem que estou praticamente fazendo o trabalho de três gaçons ao mesmo tempo.
Não me incomodo. Aprendi com a gerente que tudo tem um motivo desconhecido. O mal humor do cliente pode representar seu ciúme da mulher, ou sua impotência latente. Aprendi ainda que se estiver aberto o suficiente posso torná-lo, ao final da noite, meu amigo e cliente exclusivo.
Bom, isso ainda não aconteceu, mas estou praticando.
Quando chega meia noite, apressamos a caixa, devolvemos os pratos aos seus lugares, trazemos as mesas e cadeiras para dentro, os guarda chuva gigantes, tudo para dentro, tudo organizado. Cadeados, correntes, uma água para finalizar. Passamos todos o cartão. Rimos sem motivo, respiramos por mais um dia.
Carona até a rua e ciao.
Monday, January 23, 2006
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