não é incomum ouvir coisas do tipo "isso não é bom para você", ou "o melhor seria fazer isso ou aquilo", e assim vai. são tantas e tão frequentes as frases com algum sentido para nossas vidas. na minha postagem anterior, tentei tratar desse assunto, mas, pelo visto, fui mal sucedido. minha intenção inicial era de discutir o sentido da vida contemporânea e, após ler minhas próprias palavras, percebi que corri em volta, mas não cheguei ao cerne da questão. antes que meu tempo acabe, vou procurar sintetizar minhas idéias para atingir, ou chegar perto do meu objetivo principal.
viver hoje é o reflexo de nossa história, não seu exato retrato ou a simples repetição de padrões de repetição passados em gerações de famílias e da sociedade capitalista. não. nossa vida tem um sentido muitas vezes pré determinado, ao qual não conseguimos, ou não tentamos nos questionar a respeito. quando acreditamos sair de nosso padrão e estabelecer novos parâmetros, podemos estar, aí mesmo, repetindo mais uma vez aquele inusitado padrão, ou modelo de conduta que nos atravessa.
nesse sentido, de escapar ao índice da utilidade de nossas ações, chamo atenção à nossa capacidade de transformar e transfigurar a realidade em pequenos quadros simbólicos, os quais desprendem-se da realidade que nos atravessa e nos torna capazes de criar outros mundos e outras formas de viver.
dessa forma, escapando e transfigurando o sentido da vida, subvertemos o sistema simbólico vigente e criamos uma nova matriz, uma outra estrutura de ação que pode, se tivermos sorte ou empenho suficiente, mudar nossa posição diante da utilidade da vida.
viver não é produzir, tampouco trabalhar, ou ainda, entregar-se ao caráter capitalístico da sociedade contemporânea.
viver não pode ser simplesmente acordar, levantar, patrocinar-se em ações e delitos contra a própria alma. resignar-se com a estratificação do desejo e o dilaceramento da falta. viver é, portanto, ir contra a maré, dirigir-se contra a multidão de desafortunados, incrédulos da mudança e da transfiguração da realidade a partir da criação de outros sistemas de funcionamento, tanto da psique quanto da máquina do desejo.
estar vivo e dar sentido à vida, pertence à esfera da dialética entre eu e outro, entre si mesmo e o mundo circundante. diálogo no qual estabelece-se direitos e delitos, regras e contra regras, camêras e diretores, produtores e atores.
escolhemos meio ao acaso nossa função no grande teatro da vida. sempre procurando nos ajustar e coibir os impulsos e instintos mais primitivos, os quais nos remetem à nossa natureza selvagem e contraditória.
com tantos avisos e com tanta ciência, esquecemos do papel do inconsciente e da vida anímica em nossas atitudes diárias.
quando pensamos ou nos dizemos da utilidade da vida, temos em mente sentidos e símbolos inconscientes, passados na esfera da linguagem, da sociedade. esquecemos, portanto, de nossa vida animal e inconsciente, que controla e dita nossas escolhas.
viver não tem utilidade. não estamos vivos no intuito de aprimorar ou evoluir, tampouco de aprender ou crescer, consigo e com os outros.
estamos vivos para nutrir nossos desejos e responder com afeto ao impulsos inconscientes que queimam nossa alma e nos lançam ao desconhecido.
viver não é ser bom no trabalho, tampouco conseguir servir mais mesas que o antigo garçom.
viver não é, tampouco, prescindir do animalesco e incontrolável desejo de romper com a realidade e com os limites impostos pela sociedade utilitarista.
dificilmente nos damos conta quando respondemos como automâtos aos estímulos do mundo, e ainda menos quando propomos ao mundo um modo de ser que acreditamos quebrar com o paradigma atual.
simplesmente atuamos no cenário, acompanhamos a lente e a direção de filmagem. respondemos como atores de segunda classe na película do estigma da vida útil e prestativa.
quando rompemos com o enlace, definitivamente, do assujeitamento e da domesticação da loucura, aí sim, somos capazes de responder ao mundo e a nós mesmos, sem um sentido para a vida, muito menos um sentido útil e produtivo aquilo que conhecemos como desejo e falta.
finalmente, ser capaz de romper com a produção de sentido utilitarista da vida, é ser capaz de ir contra si mesmo e abster-se de sua própria falta e de seu próprio desejo, sabendo-os inescrupulosos e vulgares.
por hoje é só.
Friday, May 05, 2006
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1 comment:
Ufa!
Faz tempo que não leio algo tão chocante e tão cheio de significados e estímulos ao pensar.
RENOVAR!
Rompimento de utilitarismos cotidianos - como olham os estranhos normalistas, soldados do pragmatismo cotidiano.
Afogamento, bolhas de sabão que sobem a superfície supérfula do capital, dos rótulos e finalidades.
Com vc meu amor, rompo limites e deixo fluir meus instintos...
Beijos,
sua menina com uma flor
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