no que acreditar? vivemos um tempo de tormentas instantâneas, simultâneas com grandes abalos existenciais. mudanças climáticas de nossos interiores e afecções as mais diversas de nossa forma e expressão de vida. tsunamis de ódio e revolta, furacões de aspereza e incredulidade incomensuráveis. terremotos e explosões de seres praticamente partidos, desprendidos de suas essências, de suas existências pueris e febris.
de que vale acreditar? encontramos signos e símbolos de nossa cultura capitalista e consumista. corrompidos pelo desejo da falta, pelo vazio nunca preenchido, tampouco observado de frente, dialogado diante de si mesmo. perfilamos, de lado, escapamos sorrateiramente desse encontro fatídico com nós mesmos. pobres coitados de coração e almas peladas, pescadas na enseada da vida, como objetos à deriva, à espera de um dia melhor, de instantes de alegria e compaixão.
pesadelos e lágrimas de um recém nascido ser, que brilha recoberto de sangue e suor de sua mão parideira. repele a dor, o sofrimento, como as piores coisas da vida. expulsa de si seu próprio ser e enquanto aguarda o instante chegar, relaxa, se conforma com o repulsivo e descarado desejo do capital.
entregues aos instantes de loucura e controle de nossos instintos, perdemos a batalha do amor contra o ódio. deixamos de lado nossa natureza, em prol do desenvolvimento de personalidades histriônicas, esquizóides e paranóicas. instantes atrás de instantes. perdidos entre mundos de significados distintos e alheios ao outro, à cultura, à sociedade que nos dita o modus operandi de ser.
somos. o que? instantes de consciência e engano. momentos de prazer e satisfação parcial do desejo de consumo. perplexos. rastejamos atrás do poder e da satisfação plena, nunca alcançada. perduramos, exaustos, enquanto pequenos lagartos, vibrando ao olhar da criança que, assustada, joga uma pedra em nossa casca verde e dura de quem andou longos desertos atrás de si mesmo.
perseguindo nossa própria sombra, instantes de clareza e finitude de nossa existência. rompimento de limites e contratos com a história que nos delega funções e papéis sociais, aos quais devemos apenas repulsa e recalque.
instantes de obscuridão, de experiências sensoriais e perceptivas que nos ultrapassam e nos recolocam diante de nós mesmos. sofremos em instantes de percepção, de indignação com nossa própria fome de desejo, de necessidade de querer e desejar sempre algo alheio e diferente de nós mesmos.
buscamos, portanto, sempre a mesma coisa, o mesmo instante derradeiro de conforto e relaxamento de espírito. de desprendimento e constrangimento diante de nossa mãe, de nossa provedora, de quem nos alimenta com o próprio seio.
instantes de troca e conflito, significados perdidos, recolhidos em pequenas conchas e sambaquis. resquícios de uma época perdida. instantes de regojizo e júbilo eternos. somente naqueles instantes...
Wednesday, May 10, 2006
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