Tuesday, August 15, 2006

Percepções e Devaneios

volto após um longo período de reclusão, ou seria de isolamento? outro dia li no periódico que os blogs sá em sua maioria esmagadora voltados para o próprio umbigo de quem os constrói. que lástima, pensei. após muitos meses de dedicação e aprofundamento de questões, essa notinha numa página de jornal me fez rever esse espaço.
insisto nesse espaço enquanto potencial e possibilidade de transformação da realidade, minha e daqueles que aqui aportam. não tenho o intuito de escrever um diário virtual, ou expor minhas angústias - leia-se também, alegrias e prazeres - para quem quer que seja. realmente, é um espaço voltado para minha construção pessoal, mas que pretende ir de encontro às almas que compõem a minha paisagem existencial.
estou vivendo um momento difícil e conturbado. mudanças de ritmo, de limites, de horizontes, de cores e cheiros. meu sentimento não cabe em mim mesmo e acabo recorrendo às atúcias de um vício terrível, ou aos ouvidos de um amigo não tão próximo assim.
me vejo sozinho, acordando no meio de um vale, em sua parte mais próxima do nível do mar, cercado por nuvens densas e cinzas, que me escondem do olhar de terceiros. estou sozinho e respiro calmamente, sempre olhando em direção à lagoa, ouvindo suas pequenas e contínuas ondas vindo na direção do trapiche.
esquento meu corpo e minha alma com pensamentos tenros de amor e saudades de minha família e amigos. procuro desvira minha atenção do tempo que passa depressa diante de mim.
o sol esquenta e esvai as nuvens em pequenas gotículas de água e gás carbônico.
sinto a umidade e o calor crescerem. me vejo pequeno diante do mundo que se abre. não reconheço meus passos. não lembro de meu passado. não almejo futuro algum. estou tão empobrecido, tão limito por mim mesmo. pasmo diante do morro verde e cortado pela rua.
sou eu mesmo que crio o mundo e seus limites. os meus se colocam à revelia de meu desejo.
já sinto algumas mudanças no tempo, mas o espaço continua restrito e medíocre.
as ondas do tempo vão e vêm continuamente, perpetuando a passagem e o eterno presente da angústia.
as bordas e margens da lagoa se desfazem, suaves, grama e areia, água e vento, tornando o espaço matéria de outro mundo, de outra ordem.
sou único e sozinho. reflito. meu rosto e olhos. a água balança incessante dentro de mim.
já não sou mais eu e sim as vozes, as falas, os discursos daqueles que me habitam. procuro meu corpo, meu espírito, minha vontade e ânimo. escorregam pelos dedos e juntam-se às aguas da lagoa.
me percebo junto ao trapiche, de longe, como um observador. quem será esse? quando, no tempo da minha vida, esse se destacou de mim? onde, no espaço de meu corpo, esse cortou os laços comigo?
sou eu e esse. um sentindo e outro observando. sou ainda e mais dois, que não sei quem são. quem observa o observador? quem retrata toda a situação? o juiz? o artista? sou, no fundo, funcionário de meu corpo, peça inacabada de mim mesmo.
levanto lentamente, sem pressa para nada, pois não há nada a ser feito. olho o mundo ao redor. meu mundo, meus limites. não persigo mais um sonho, ou um objetivo. estou à deriva de mim mesmo. sujeito às intempéries de minha alma, aos conflitos originários de meu espírito.
surgi, reflito, do conflito entre almas, do confronto entre dois seres inconscientes, soltos e perplexos.
não sou muito mais que o resultado de um conflito, um organismo mal feito e inacabado.
sou assim, maltratado, maltrapilho, malhumorado, a-mal-diz-soado; como um verme repugnante que acorda de um sono longínquo.

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