Wednesday, August 15, 2007

águas

imagine (se é que há algum leitor dessa joça) essa idéia que alimento há algum tempo para tentar explicar o sentido da vida, ou o modo como vivemos.
somos organismos vivos em eterna mutação. na verdade, essa mutação parte tanto de dentro para fora quanto de fora para dentro, tudo depende das bordas, das fronteiras entre nosso corpo e o meio. quanto mais pontos de contato e quanto maior o nível de permeabilidade, maior será a influência de um no outro. de certo, para identificar se o movimento de transformação parte de dentro ou de fora, seria preciso um acompanhamento próximo e cuidadoso de um sujeito em específico, que explicaria suas decisões, pensamentos e atitudes no decorrer de sua relação com o meio e com os outros.
para melhorar a linguagem e facilitar a digestão, simplifico: já que somos todos organismos vivos em eterna mutação, nada melhor para exemplificar essa idéia com uma metáfora já bem desgastada, a de que a vida é um rio. pois bem, se a vida é um rio, podemos deduzir que existem margens, fundo, algas, pedras, outros organismos, a floresta ao redor, as raízes e, é claro, a água corrente. somos, portanto, tudo isso ao mesmo tempo. refletimos em nossas atitudes, nossas escolhas, cada parte que compõe o rio de nossas vidas, às vezes, sendo mais pedra, outras mais água e noutras ainda, mais floresta. certo é que nunca deixamos de nos movimentar, mesmo que sejamos aquela alga presa à pedra no fundo do rio. aproveito esse afluente para detalhar essa idéia.
o movimento ininterrupto de nossas vidas é, em alguns breves momentos, interrompido, ou cadenciado quando escolhemos (ou escolhem por nós, no caso do meio influenciar mais que o organismo) agarrar-nos à alguma pedra ou raiz no leito do rio. em outros breves instantes somos jogados à margem ou subimos à superfície do rio e alcançamos à floresta ou quem sabe às nuvens numa súbita explosão de harmonia entre céu, terra e água.
qual a distância do rio? sua extensão e profundidade? que tipos de árvores vivem ao redor? quais outros organismos vivem nessas águas? é pedregoso, arenoso ou límpido rio de águas cristalinas? respostas que vão ter de aguardar até a próxima postagem para serem atendidas. enquanto isso fica o pensamento: o rio nunca é o mesmo rio.

Monday, August 13, 2007

lembrei-me de um sonho enquanto decidia o que escrever hoje. não sei porque os sonhos teimam em voltar durante a vigília, como peças de teatro ou filmes que voltam ao cartaz por nenhuma razão (além de preencher um espaço vazio na programação de algum teatro de quinta). deixo essa questão para outra hora, agora quero descrever (tentar pelo menos...) esse sonho que voltou a mim há alguns instantes.
como naqueles filmes em que não se vê quem olha, eu era a câmera, sentado num banco de uma estação de trem. haviam algumas pessoas, entravam e saíam da lanchonete e da sala de espera repleta de pequenos assentos desconfortáveis. algumas, em pé, aguardavam o trem que tardava em chegar. era dia e o sol iluminava todos os cantos do lugar. uma luz dourada riscava o chão, desenhava os tetos e as linhas de segurança. escutava o trem se aproximar, as pessoas pendiam suas cabeças e olhavam em direção do infinito, onde os trilhos desapareciam no horizonte. nada. somente o ranger dos trilhos e o arranhar dos vagões. porém, nenhum trem chegava à estação. o tempo parecia não existir e a luz dourada do sol continuava a brilhar. eu observava a lanchonete, a sala de espera e as pistas de embarque sem sair do banco. uma mulher subia a escada do outro lado e o vento repentino me chamou a atenção. reparei brevemente em seus joelhos. eles apareciam e sumiam rapidamente, a cada passo subindo os degraus. novamente o barulho do trem. nada. voltei a olhá-la e, por alguns segundos, ela parecia alçar vôo. seus pés flutuavam e sua saia dava forma ao vento e esculpia seu corpo. algumas centelhas, pequenas brasas explodiam no ar. o barulho do trem aumentava, o chão vibrava e mais gente chegava virando as cabeças para o horizonte. sumiam, um a um. como se pegassem o trem que acabara de passar. centelhas brilhantes ofuscavam meus olhos. olhei para baixo. vi meus pés calçados num par de sapatos antigo. as ripas de madeira do banco estavam marcadas com iniciais e pontos, riscos e buracos. quando levantei a cabeça lá estava o trem. sua respiração era forte e o calor intenso. levantei-me para dar os primeiros passos em sua direção, mas não parecia me mexer e ele seguiu. senti um pequeno ranger em meu peito, meu coração descolava, meu estômago caía, meus pulmões encolhiam. estiquei a mão para tentar alcançá-lo, em vão. meus pés ainda não tocavam o chão e as pequenas centelhas queimavam meu rosto. só percebi aquele sujeito ao meu lado, olhando para o horizonte com uma pasta numa das mãos. olhei ao redor. sobrevoava a estação, a pequena cidade, a lanchonete, o saguão e as pistas. nada. o horizonte rangia. a luz dourada desaparecera.