lembrei-me de um sonho enquanto decidia o que escrever hoje. não sei porque os sonhos teimam em voltar durante a vigília, como peças de teatro ou filmes que voltam ao cartaz por nenhuma razão (além de preencher um espaço vazio na programação de algum teatro de quinta). deixo essa questão para outra hora, agora quero descrever (tentar pelo menos...) esse sonho que voltou a mim há alguns instantes.
como naqueles filmes em que não se vê quem olha, eu era a câmera, sentado num banco de uma estação de trem. haviam algumas pessoas, entravam e saíam da lanchonete e da sala de espera repleta de pequenos assentos desconfortáveis. algumas, em pé, aguardavam o trem que tardava em chegar. era dia e o sol iluminava todos os cantos do lugar. uma luz dourada riscava o chão, desenhava os tetos e as linhas de segurança. escutava o trem se aproximar, as pessoas pendiam suas cabeças e olhavam em direção do infinito, onde os trilhos desapareciam no horizonte. nada. somente o ranger dos trilhos e o arranhar dos vagões. porém, nenhum trem chegava à estação. o tempo parecia não existir e a luz dourada do sol continuava a brilhar. eu observava a lanchonete, a sala de espera e as pistas de embarque sem sair do banco. uma mulher subia a escada do outro lado e o vento repentino me chamou a atenção. reparei brevemente em seus joelhos. eles apareciam e sumiam rapidamente, a cada passo subindo os degraus. novamente o barulho do trem. nada. voltei a olhá-la e, por alguns segundos, ela parecia alçar vôo. seus pés flutuavam e sua saia dava forma ao vento e esculpia seu corpo. algumas centelhas, pequenas brasas explodiam no ar. o barulho do trem aumentava, o chão vibrava e mais gente chegava virando as cabeças para o horizonte. sumiam, um a um. como se pegassem o trem que acabara de passar. centelhas brilhantes ofuscavam meus olhos. olhei para baixo. vi meus pés calçados num par de sapatos antigo. as ripas de madeira do banco estavam marcadas com iniciais e pontos, riscos e buracos. quando levantei a cabeça lá estava o trem. sua respiração era forte e o calor intenso. levantei-me para dar os primeiros passos em sua direção, mas não parecia me mexer e ele seguiu. senti um pequeno ranger em meu peito, meu coração descolava, meu estômago caía, meus pulmões encolhiam. estiquei a mão para tentar alcançá-lo, em vão. meus pés ainda não tocavam o chão e as pequenas centelhas queimavam meu rosto. só percebi aquele sujeito ao meu lado, olhando para o horizonte com uma pasta numa das mãos. olhei ao redor. sobrevoava a estação, a pequena cidade, a lanchonete, o saguão e as pistas. nada. o horizonte rangia. a luz dourada desaparecera.
Monday, August 13, 2007
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