Friday, September 14, 2007

infância em concreto

a tristeza solitária da menina lhe traga entre os fios e calças penduradas. seus dedos pequeninos cintilam na beirada, tocando a corrente que sustenta a janela. procura passar o tempo. guarda suspiros de angústia e tristeza. cabelos soltos lhe cobrem o rosto e os olhos. a boca entreaberta parece dizer algo incompreensível, um lamúrio perdido no tempo corrido do centro. o quadro de alumínio suspende seu corpo e a alça num vôo pueril de lembranças e devaneios. a buzina lhe acende o espírito, lhe tira o sossego. o caminhão interrompe a exibição e faz parar o tempo. as portas abrem e fecham, fazem corpos e olhos perambularem soltos, perdidos. pequenos instantes de lucidez e transparência. súbitos ataques de consciência e perplexidade frente ao inusitado do dia a dia. o silencio perdura e resgata o incólume sentimento de solidão projetado na criança. infância em concreto, cinza e enfumaçada, solitária e entristecida. braços finos e alongados tocam o céu da imaginação e fazem carinho no vazio da fome intelectual. perguntas e respostas de um ser desesperado, despreparado para a vida, para a morte. sinais de trânsito, de dor e prazer. prazer solitário em assistir ao circo da vida.

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