Tuesday, October 30, 2007

vermelho e azul

o músculo que impulsiona o sangue através do corpo ressoa o tom do batimento em dó, a permanência de seu ritmo propulsiona o corpo, o tira do chão e faz suar.
a esperança de bater mais uma vez, de ecoar mais uma vez na interioridade do corpo, na exterioridade do olhar, reflete o sangue vermelho que desce e azul que sobe em fuga.
repetições de um mesmo soar, de um sino que pende em dias de chuva e vento, batidas como na água de pétalas e pedras.
nascimento e morte instantâneos, retratos da vida, do espírito, do sopro vital que nos joga na dança dos corpos, dos sabores e cheiros, do peso e das medidas.
as linhas não servem, a curva nos leva ao desabafo da perda, a inexatidão nos capta e captura o olhar que vê atravessado.
um vazio irremediável se apresenta, um toque na porta do outro, uma batida na batida do outro.
ora, quem és? quem se apresenta em prantos e cores, em volumes e formas de uma mente inconstante?
quem, ou o que? como poderei saber, se na interseção dos espaços renasce uma pedra, perdida, batida na superfície da água mais remota dos sonhos.
armadilhas e tropeços, desejo o desconheço.
arremato o sabor da aurora e o temor da madrugada perdida em devaneios de uma vida singela, de um ar infantil que inalo novamente, que permito novamente adentrar meus pulmões e captar, capturando o sangue vermelho que sobe e azul que desce em fuga.
ah! se eu pudesse controlá-lo, sangue! sua batida em pequenos cascalhos, na corredeira da vida, dos sonhos perdidos água abaixo.
oh! temor do amanhã, do inesperado, do encontro firmado entre eu e você, entre o que sou, quem sou e o que vejo que sou, quem vejo que sou.
súbita consciência de si, de um dia ter sido alguém, de ter poupado o fôlego e fechado os olhos, de ter sonhado ainda mais uma vez com aquele lugar distante e longínquo, repleto de flores e cores, de uma árvore calma e robusta, que provém sombra e descanso para o corpo, que nos dá campo e fantasia para o espírito.
raízes e galhos, copa e folhas, leve tilintar de sombra e suor, de calmaria e paixão, de queima e combustão. ah! perda do fôlego, da esperança em acordar e ver, encarar assim o dia que nasce e vida que finda.
ah! se não fosses tu, majestosa árvore de pequenas flores roxas que caem com o vento, teus galhos me protegem e me carregam para além, para um lugar desconhecido, despercebido, talvez esquecido, do mundo onírico das palavras.
sem palavras, com olhar, sem voz, com soar, conjugar e recordar, rememorar a tomada de um ar, de um sangue vermelho que sobe e azul que desce em fuga.

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