Monday, November 26, 2007
três minutos
quase uma semana após a última postagem, volto com novidades terríveis e incríveis de um dos sentidos mais estudados e valorizados de nossa cultura: a visão. tanto tempo após leitura do clássico "O Alienista", de Machado de Assis, revivo a curiosidade quase infantil que este me proporcionara ao debruçar-me sobre "A Luneta Mágica", de Joaquim Manuel de Macedo. nomes, ou renomes à parte, as escritas confluem para uma reflexão profunda a respeito do que acreditamos ver e conceber enquanto realidade factual. absorto em pensamentos novos e inesperados, construo, pouco a pouco, uma epopéia de devaneios sobre o poder da "Luneta Mágica", que revela após três minutos de um lado, a visão do mal, de outro, a visão do bem. lados opostos da mesma moeda: o ser humano em sua 'mundanidade' irrestrita e irrefreada. desejos de posse, de perda, desalento e desconforto de almas atormentadas, perdidas em pequenos retratos superficiais, em cujos semblantes rogamos observar nossos próprios medos, angústias e esperanças. para lém desses três minutos, aguardam-nos a visão do mal e do bem, mais ou menos observáveis através da luneta mágica. instrumento de descobrimento, desvelamento da alma, do espírito mais impenetrável, do segredo mais profundamente escondido. em ritmo de final de ano, aproveito para lançar mão deste marvilhoso artefacto (não sei se a leitura desses clássicos, ou a própria luneta em si) no descobrimento das almas que me cercam e dizem meu nome em ressoar incerto de admiração e inveja. as formas derivadas no volume, na altura e na profundidade, capturadas no olhar através da luneta, seguem perfomances dignas do teatro medieval, onde todos os figurantes morrem até o final da peça. tragédia grega, teatro circular, conto mitológico do ser ontológico e da escrita, da palavra descrita enquanto alicerce da experiência semântica, da distração da alma que persegue o medo e a vigília dos transeuntes anônimos da cidade. reflexos no espelho da vida, rompimentos e percalços daqueles que vêem além dos três minutos.
Tuesday, November 20, 2007
palavras e vazio
se o mundo fosse feito de palavras e olhares, o que seria de nossos corpos, de nossas almas que flutuam ao sabor da brisa em plena primavera? se o mundo dependesse estritamente de dinheiro e status quo, o que seria do amor e do carinho que guardamos com tanto cuidado em pequenas caixas nas estantes ou nas gavetas do quarto? ai, o que seria de mim? último romântico a existir, a respirar este ar poluído e fétido de nossas cidades malcuidadas, descuidadas, esquecidas, como pequenos seres que sobrevivem do lixo, das latinhas e do resto do mundo. a voz rouca encanta meus ouvidos, me traz lembranças de um tempo já perdido da infância, de um calor incrível de verão, sem suor, nem lágrimas, preservado em estado artificial num ambiente condicionado, climatizado por exaustores e máquinas repetidoras, prefixos de corpos imaginários, refletidos, tidos, perdidos, fragmentados em pequenas partículas das páginas de revistas. glamour, dinheiro, poder, sensualidade, o que mais sobra nesse supermercado de mercadorias estragadas e podres? o que procuro nas estantes da vida? o que espero do mundo, dos olhos que outrora tive a meu lado? da voz que outro dia me confortava, me acordava e lembrava como era bom viver junto com alguém... ai, palavras, mortas, machucadas, como quem as coloca no mundo, mesmo que virtual, porém, real para quem as lê. sem saber ao certo quem as enfrentará e o que dirá em seguida, que partículas irá levantar, que corpos irá tocar, ou almas irá machucar. são apenas palavras que, mais uma vez, caírão no breu do vazio perpétuo, despencando no abismo das catástrofes individuais, vividas em pequenos quartos de madeira e chão batido. lágrimas tardam em escorrer pelo rosto, lembranças de dias e noites, de tardes infindas, de esperanças e sonhos, de devaneios divididos. quem sou eu? o que faço? o caminho é torto, repleto de esquinas, de curvas e sinais. o que estou pronto para traduzir? o que ponho para refletir em pequenos pedaços de espelho quebrado? sinto, como sinto, as coisas, as imagens, os sons, as cores, os cheiros, as texturas... ai como choro, o vazio, o ar que respiro, as noites maldormidas, as manhãs desperdiçadas... ai se pudesse gritar tão alto para que me ouvisse e pudesse sentir meu choro mudo, minhas lágrimas secas que brotam em momentos tão inoportunos quanto uma vontade súbita de cagar. quero colocar para fora isso que arde dentro de mim, das lembranças de um amor rompido, até as esperanças do futuro próximo. para onde estou indo... mar sem ondas, praia sem vento, sol sem lua, céu sem terra. catapulta do desejo, vazio premente, escuridão secular, idade média do amor...
Tuesday, November 13, 2007
sobre temperos e tempo
o corte rápido e sutil na carne deixa entrever as pequenas ranhuras de uma vida. o sangue tarda em escorrer e a carne tenra e firme contém o corte e aguarda os temperos que lhe acalmam a ferida. grãos e pó, folhas e raspas, pequenos condimentos, temperos para a vida, para um tempo de sonho e ilusão. a carne agrada aos olhos, ao olfato com seu leve aroma de mar e sal. o corpo, mutilado, não respira mais o ar subaquático dos mares, mas sim as pequenas partículas de temperos e tempo que lhe conferem preço e sabor singulares. moer, picar, cortar, raspar em pequenas porções de amor e carinho, cuidado e atenção com o ser que renasce da criação, sobre temperos e tempo.
o óleo esquenta e respinga, torce a carne e endurece a camada de ervas e grãos dispersos. salta e estala, a capa de tempo e sobras de vida caem sobre os temperos, e tombam fogão abaixo. a panela quente, ferve, faz fumaça, faz vibrar e enche a casa de cinza e lamentos. perdeu-se a carne com o descuido, com a falta de olhar, de fitar sua paciência, seu tempero e tempo.
eles chegam com o vento, trazidos de longe, de um lugar desconhecido, de montanhas e praias distantes. eles tocam e comovem, mantêm firmes e especulares, tendências e modas, razões e lógicas.
um vai com o outro, o outro repara em si, no contraste que absurda sua voz, seu toque e seu aroma. crosta terrestre sobre temperos e tempo, resta apenas um minuto na frigideira, expulsa o limite e a fronteira, permite, assim, viver a expectativa, o sonho de um dia, reunir na panela, vida, morte, temperos e tempo.
o óleo esquenta e respinga, torce a carne e endurece a camada de ervas e grãos dispersos. salta e estala, a capa de tempo e sobras de vida caem sobre os temperos, e tombam fogão abaixo. a panela quente, ferve, faz fumaça, faz vibrar e enche a casa de cinza e lamentos. perdeu-se a carne com o descuido, com a falta de olhar, de fitar sua paciência, seu tempero e tempo.
eles chegam com o vento, trazidos de longe, de um lugar desconhecido, de montanhas e praias distantes. eles tocam e comovem, mantêm firmes e especulares, tendências e modas, razões e lógicas.
um vai com o outro, o outro repara em si, no contraste que absurda sua voz, seu toque e seu aroma. crosta terrestre sobre temperos e tempo, resta apenas um minuto na frigideira, expulsa o limite e a fronteira, permite, assim, viver a expectativa, o sonho de um dia, reunir na panela, vida, morte, temperos e tempo.
Subscribe to:
Posts (Atom)