Tuesday, November 13, 2007

sobre temperos e tempo

o corte rápido e sutil na carne deixa entrever as pequenas ranhuras de uma vida. o sangue tarda em escorrer e a carne tenra e firme contém o corte e aguarda os temperos que lhe acalmam a ferida. grãos e pó, folhas e raspas, pequenos condimentos, temperos para a vida, para um tempo de sonho e ilusão. a carne agrada aos olhos, ao olfato com seu leve aroma de mar e sal. o corpo, mutilado, não respira mais o ar subaquático dos mares, mas sim as pequenas partículas de temperos e tempo que lhe conferem preço e sabor singulares. moer, picar, cortar, raspar em pequenas porções de amor e carinho, cuidado e atenção com o ser que renasce da criação, sobre temperos e tempo.
o óleo esquenta e respinga, torce a carne e endurece a camada de ervas e grãos dispersos. salta e estala, a capa de tempo e sobras de vida caem sobre os temperos, e tombam fogão abaixo. a panela quente, ferve, faz fumaça, faz vibrar e enche a casa de cinza e lamentos. perdeu-se a carne com o descuido, com a falta de olhar, de fitar sua paciência, seu tempero e tempo.
eles chegam com o vento, trazidos de longe, de um lugar desconhecido, de montanhas e praias distantes. eles tocam e comovem, mantêm firmes e especulares, tendências e modas, razões e lógicas.
um vai com o outro, o outro repara em si, no contraste que absurda sua voz, seu toque e seu aroma. crosta terrestre sobre temperos e tempo, resta apenas um minuto na frigideira, expulsa o limite e a fronteira, permite, assim, viver a expectativa, o sonho de um dia, reunir na panela, vida, morte, temperos e tempo.

1 comment:

liberdade said...

Que tempero a vida teria se estivesse ao seu lado?
Que tempero, que gosto tinha a carne quando estava ao seu lado?
Quanto sal coloquei de mais ou de menos no nosso amor para querer romper os sentidos?
Temperos são como palavras, só damos falta quando sentimos o gosto sem graça da vida...