Tuesday, April 22, 2008

Dizeres

Venho dizer, não sei para quem ao certo, umas palavras sobre a vida. Não vou e nem pretendo ser categórico para não passar-me por presunçoso, mas sinto o dever de expor aqui esses pensamentos.
Enquanto algumas pessoas se valem da imagem e aporte físico para conquistar seu espaço no meio circundante, há aqueles que o conquistam com as idéias e com as palavras.
Dizeres e conversas sobre as atitudes dos outros é algo comum e irrefutável entre os que dispõem de algum intelecto. Porém, reparo atônito, a superficialidade das conversas e como o papo transcorre sem alterações, para não dizer da monotonia geral da vida pequeno burguesa.
Para esses que como eu vivem e transitam nesse mundo de dizeres insensíveis ou, quem sabe, invisíveis, eu tenho algumas coisas para colocar. E colocarei sem medo, pois não devo nada a ninguém (talvez um pouco aos meus pais...).
Quando me apercebo numa dessas conversas sobre o caráter e sobre as atitudes individuais, me coloco sempre a questão: o que está acontecendo aqui e agora? A maioria das pessoas se atém ao passado, às experiências para delinear o pensamento. Eu, do meu lado, se posso dizê-lo, postulo o fenômeno, a experiência inaudita e fugidia do presente.
Pense comigo: se as conversas circulam entre corpos e posturas de caráter, as palavras dizem muito mais do presente que do passado. O trânsito, portanto, dos dizeres entre amigos nos joga na correnteza do presente para o futuro, e busca, incessante, a conclusão. Isto é, a metáfora do jogo das relações: chegar a algum lugar. O objetivo é sempre obscuro e repleto de sensações que passam despercebidas enquanto inconscientes do presente.
Voamos na superfície das conversas, sem notar o que realmente perpassa as palavras e as dá suporte. O corpo, objeto perdido e reencontrado, maculado por fábulas e histórias de infância.
Digo, portanto, aos que me escutam, que falem por si e de si. Pois falar dos outros é sempre mais fácil, e todo discurso que se utiliza do outro como apoio é sem dúvida falho e equivocado.
Se dizem que sou petulante, arrogante e presunçoso, é pois o reflexo dessas mesmas características que os aflige, e os joga no poço do maldito.
Repito, sem medo de obliterações: falem de si e olhem para si. Pois o que falam não é nada além do que são.

Friday, April 18, 2008

...

há algum tempo procuro pelas palavras certas para descrever as impressões e os sentimentos que povoam meu espírito na atualidade. porém, a cada nova tentativa descubro minha incapacidade para transformar em letras e palavras isso que acontece aqui dentro. contudo, teimoso e determinado, busco incessante por essa brecha no horizonte da literatura que me abrigará e permitirá que desvele o pensamento que me traz aqui até a tela desse computador.
hoje tudo é instantêneo e fugaz, talvez por isso mesmo essa dificuldade em colocar para fora o mundo que me anima. essa instantaneidade fugaz da realidade contemporânea me corrompe o espírito numa medida que desconhecia e torna minha escrita algo morto e sem brilho, pois o que me anima não tem tempo e perdura enquanto mineral exposto ao sol e à chuva, coberto de sedimentos e estrelas através dos séculos que vêm e virão.
se, diante disso tudo, ainda me resta o que dizer, posso afirmar que sou um vitorioso. não como costumamos remeter logo de cara, ao sucesso ou ao milagre dos afortunados das esquinas, que gritam e choram pela menor ausência e comemoram a vitória e o sacrifício em igual medida, sem linhas, tampouco volumes de cor e aroma, como uma bela garrafa de vinho.
percebo o corre-corre desenfreado e perdido das pessoas, lutando por espaço, colidindo umas com as outras em ruas tracejadas que orientam os corpos ao lamento, ao desespero sem aresta e sem tesão. procuro o buraco, o vazio que possibilita romper com o tradicional já conhecido das palavras e dizeres bestializados.
observo as estampas, os detalhes, o que procuram homem e mulher. noto órgãos impunes, pedintes por afeto e carinho, respiro a falta e o desalento daqueles que se entregam ao horizonte da bem-aventurança dos afetos desmedidos, das lágrimas incontidas e do grito em alto e bom som da vida.
aproveito para reclamar dessas palavras, inúteis e corrompidas pelo uso corriqueiro e pelo preconceito que lhes é atribuído. dizer algo, portanto, é, em si mesmo, incorrer no erro e na miséria do mal-entendido. o desvelo e o apelo pela palavra que não foi dita, esse sim é o mérito de um vitorioso da literatura.
porém, mesmo que o diga em alto e bom som, a todos os cantos do mundo, tudo se resume à imagem e ao prospecto de um funcionário medicado e remediado com sua situação lúgubre e inescrupulosa no mundo.
por que estar vivo? se do encontro entre corpos, o espírito sobrevoa a mais superficial lâmina do acaso e não perdura sequer uma gota de gozo, de lágrima, de grito...
alguns ainda buscam isso que digo, não sei quem, pois são invisíveis e insensíveis, já corrompidos, descansam suas almas em plenos pulmões, com a boca aberta esperando serem alimentados pelas notícias de mais um crime hediondo.
conversas escrotas, toques vazios, sem libido, olhares perdidos, conotação estúpida de corações partidos.
onde estamos com a cabeça, ou com o cú? que não falamos o que precisa ser dito e rodeamos, ladrilhamos com muitas pedrinhas toda a rua que nos leva à morte!
reclamamos, histéricos vitimizados, de tudo e de todos! vão pro caralho!

Friday, April 04, 2008

isso

as coisas não são mais como antigamente. não que eu seja saudosista, talvez um pouco melancólico, mas issonão vem ao caso agora. o que importa é trazer a esse espaço as idéias e sentimentos que me invadem e fazem de minha estadia em Florianópolis algo transitório e incerto. percorri milhares de quilômetros em poucos dias e descobri, atônito, que até mesmo minha casa me resta como um lugar transitório e passageiro.
respiro, pois, a transição entre mundos, entre cenários que identifico como meus próprios e repletos, portanto, de imaginário e desejo.
as relações parecem findar um limite tênue entre minha vida e o mundo em que vivo. encontros, lembranças e recordações, experiências afetivas e sociais que me retificam cada vez mais num mundo completamente distinto daquele imaginado.
minhas palavras saem sem controle e não desejo limitá-las à gramática do recalque e da censura, na qual o sentido impera sobre o afeto e sobre a intenção. desejo romper com essas barreiras invisíveis e transpor o limite entre o que deve ser dito e o que quero dizer. a luta cotidiana pela sobrevivência impõe regras claras e rígidas contra o desejo. porém, a cada dia sinto a pressão e a tensão entre corpos e mundos, como uma luta infinita entre o corpo e a alma, entre olhares e desejos.
estou aqui, por enquanto, pesquisando espaços e vetores cujo sentido identifico com meu desejo torto. curvas e linhas de um volume inesperado e inusitado. respiro o ar da lembrança e da saudade, transpiro o suor do ideal e da imaginação. tudo é sempre tão diferente do que imaginamos, mas basta persistência e disciplina para, aos poucos, transformar isso que chamamos de realidade. algo intransponível e dialético que se impõe ao corpo e à alma. à minha revelia e contrário à esperança de uma vida tranquila. a tranquilidade é algo sonhado, porém, não praticado, e, assim, levo uma vida agitada e desesperada, cujo sentido implico contra a grande correnteza da segurança e da estabilidade.
guio-me por entre espaços e tempos, percorro sistemas e circuitos que abrem-se e fecham-se ao piscar dos olhos. recorro sempre às idéias, artifício inútil, para lidar com essa angústia que me invade desde que voltei... alguém me consola?