Friday, April 18, 2008

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há algum tempo procuro pelas palavras certas para descrever as impressões e os sentimentos que povoam meu espírito na atualidade. porém, a cada nova tentativa descubro minha incapacidade para transformar em letras e palavras isso que acontece aqui dentro. contudo, teimoso e determinado, busco incessante por essa brecha no horizonte da literatura que me abrigará e permitirá que desvele o pensamento que me traz aqui até a tela desse computador.
hoje tudo é instantêneo e fugaz, talvez por isso mesmo essa dificuldade em colocar para fora o mundo que me anima. essa instantaneidade fugaz da realidade contemporânea me corrompe o espírito numa medida que desconhecia e torna minha escrita algo morto e sem brilho, pois o que me anima não tem tempo e perdura enquanto mineral exposto ao sol e à chuva, coberto de sedimentos e estrelas através dos séculos que vêm e virão.
se, diante disso tudo, ainda me resta o que dizer, posso afirmar que sou um vitorioso. não como costumamos remeter logo de cara, ao sucesso ou ao milagre dos afortunados das esquinas, que gritam e choram pela menor ausência e comemoram a vitória e o sacrifício em igual medida, sem linhas, tampouco volumes de cor e aroma, como uma bela garrafa de vinho.
percebo o corre-corre desenfreado e perdido das pessoas, lutando por espaço, colidindo umas com as outras em ruas tracejadas que orientam os corpos ao lamento, ao desespero sem aresta e sem tesão. procuro o buraco, o vazio que possibilita romper com o tradicional já conhecido das palavras e dizeres bestializados.
observo as estampas, os detalhes, o que procuram homem e mulher. noto órgãos impunes, pedintes por afeto e carinho, respiro a falta e o desalento daqueles que se entregam ao horizonte da bem-aventurança dos afetos desmedidos, das lágrimas incontidas e do grito em alto e bom som da vida.
aproveito para reclamar dessas palavras, inúteis e corrompidas pelo uso corriqueiro e pelo preconceito que lhes é atribuído. dizer algo, portanto, é, em si mesmo, incorrer no erro e na miséria do mal-entendido. o desvelo e o apelo pela palavra que não foi dita, esse sim é o mérito de um vitorioso da literatura.
porém, mesmo que o diga em alto e bom som, a todos os cantos do mundo, tudo se resume à imagem e ao prospecto de um funcionário medicado e remediado com sua situação lúgubre e inescrupulosa no mundo.
por que estar vivo? se do encontro entre corpos, o espírito sobrevoa a mais superficial lâmina do acaso e não perdura sequer uma gota de gozo, de lágrima, de grito...
alguns ainda buscam isso que digo, não sei quem, pois são invisíveis e insensíveis, já corrompidos, descansam suas almas em plenos pulmões, com a boca aberta esperando serem alimentados pelas notícias de mais um crime hediondo.
conversas escrotas, toques vazios, sem libido, olhares perdidos, conotação estúpida de corações partidos.
onde estamos com a cabeça, ou com o cú? que não falamos o que precisa ser dito e rodeamos, ladrilhamos com muitas pedrinhas toda a rua que nos leva à morte!
reclamamos, histéricos vitimizados, de tudo e de todos! vão pro caralho!

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