Saturday, May 31, 2008

YouTube - Gotan Project - Diferente

YouTube - Gotan Project - Diferente

blogs e blogs

Outro dia li numa coluna de uma revista que admiro muito um comentário sobre blogs, dizendo que se tratavam de mais uma das muitas formas de exibicionismo e consumo desenfreados de nossa cultura vigente.
Bom, talvez seja até verdade o que o colunista escreveu, mas para tanto é preciso que haja acesso e muitos comentários. Isto é, só se justificaria o que ele escreveu no caso do blog ser bastante visitado e contar com muitos comentários sob os posts.
Concordo com ele que blogs que tratem de assuntos polêmicos ou da cultura da imagem, tipo os que primam pelas notícias dos famosos, dando supostos "furos" das celebridades, etc. Esses, sem dúvida, devem bater recordes de audiência, tendo em vista que a maioria das pessoas se interessa por esse tipo de besteira.
Porém, não se pode falar nada desses blogs, uma vez que o que faz girar, corroborando com a filosofia vã desses espaços, é o interesse das pessoas, o desejo de ficar sabendo da vida dos outros, ainda mais dos famosos. É claro. Pois da minha vida, anônimo e romântico, ninguém, nem mesmo os meus amigos querem saber.
Não reclamo ou choramingo as mágoas de posts e posts sem nenhum comentário.
Por isso mesmo que posso dizer que não faço parte da parcela que descreveu o colunista na revista. Há anos escrevo nesse blog, colocando pautas que considero interessantes e de suma importância para refletir sobre nossa sociedade e estilos de vida. Quando tem algum comentário sob o post até estranho e já vou olhar reticente, achando que será um anúncio, ou qualquer coisa do tipo. Não, na maioria das vezes é da minha ex que deixa um comentário inspirado ou uma ponta de lamento que não consigo decifrar e me calo.
Portanto, se continuo a postar aqui, mesmo sem comentários, mesmo sem acessos, posso dizer que estou naquela parcela mínima dos bloggers que fazem porque gostam e acreditam realmente que o que dizem pode e fará, algum dia, diferença neste mundo de merda.
Enquanto isso não acontece vou colocando aqui tudo que se passa, sem medo, sem escassez, sem miudez de espírito, deixando para alguns afortunados o direito de resposta sobre aquilo que está dito e, portanto, morto.

Wednesday, May 28, 2008

despedida

Miles Davis não precisava de letras para tocar os corações daqueles que escutam sua música.
Seu sopro primordial nos tira da correria do pensamento, do atropelamento das emoções e dos sentimentos mais importantes para nossa vida.
Portanto, escrever diante dessa constatação é algo como olhar nos olhos da besta fera e pensar: realmente preciso detê-la? É caso de necessidade ou puro narcisismo em busca de um reconhecimento fugaz que reside no olhar de um outro que nem mesmo conhecemos?
Estou nesse momento diante desta besta chamada tela, ou computador, que formula e molda minhas palavras num teclado insosso no meio de um shopping center em Curitba.
Miles já se foi, pelo menos nos meus ouvidos, abrindo espaço para outros álbuns, outros artistas entoarem suas vozes, seus instrumentos. Sem dúvida, nenhum é como ele.
A música, enquanto trabalho maestral dos sons, assim como os cheiros, as luzes, a pressão de certos lugares, nos leva a revisitar momentos de nossas vidas, nos transportando a situações específicas.
Estou atordoado com a despedida, não sei se apressada, ou nunca esperada, da minha gatinha, a gordinha.
Interessante o pensamento que me ocorreu ao terminar a frase: se tivesse uma foto dela colocaria aqui. Pensei imediatamente: será que tenho alguma foto dela? Sim, algumas guardadas no celular, pelo menos pra isso ele serve, né?
As lágrimas queimaram meu rosto e eu que há alguns dias reparava nas manchas do cachorro de um amigo, que igual às minhas, ficaram para sempre.
Ainda as tenho para despejar, mas não encontro lugar, tampouco um seio no qual debruçar.
Me sinto extremamente sozinho. Desesperadamente perdido e sem horizontes. Como se um pedaço de mim houvesse caído em algum lugar do caminho entre Florianópolis e Curitiba.
Queria correr para os braços daquela que tanto me amou e, espero, ainda ama. Poder soluçar em seu colo e deixar transbordar as lágrimas enquanto as guardasse dentro de mim.
Ainda me sinto só, tão só que qualquer lugar estaria melhor que esse de agora, aqui.
Seus miados, suas brincadeiras sempre ficarão gravadas em minha memória, talvez por isso não tenha tantas fotos dela. Sempre fui muito bom de memória.
Seus olhos, seu pêlo, sua gordura em excesso, por isso era chamada carinhosamente de gordinha por nós.
Ao mesmo tempo que desejo voltar agora para Florianópolis e deitar na minha cama, enquanto uivo pela noite adentro a perda desse animal maravilhoso, tenho medo de voltar e cair no meio da caminho, não conseguir chegar em casa e me deparar com o vazio que ela me deixou.
Não há fumaça que preencha esse vazio, não há graça que perdoe esse fastio, tampouco alegria que perdure tão pouco.
Não quero olhar para ninguém, talvez por isso esteja de costas para todos e de frente para você, para mim mesmo. Como enquanto chorava no banheiro masculino do shopping. Olhava-me no espelho e percebia os olhos avermelhados, as veias saltadas, o rosto mal arranjado.
Parecia ter envelhecido dez anos em dez minutos.
A ignorância e falta de compaixão das pessoas ainda me espantam.
Talvez por ser um eterno romântico, alguém que acredita no amor à primeira vista.
Não sei o que esperar desses dias que demoro ainda em Florianópolis. Só espero que não sejam tão doloridos quanto minha vinda para Curitiba.
Me desfaço aqui, como ao longo do último mês mes desfiz de tudo que conquistei, para permitir que mais um pedaço de mim morra e outro renasça.
Por favor, não demore muito.

Tuesday, May 27, 2008

Tentarei resumir em poucas palavras o que aprendi com minha experiência de vida em Florianópolis, ilha e capital de Santa Catarina.
O mundo se tornou inabitável.
Florianópolis é o tipo de lugar que nos coloca dentro daquilo que há de mais degradante em nossa sociedade atual.
A miséria cultural, o extremo individualismo, a inveja, a relação perversa entre dominantes e dominados. Tudo na famosa "ilha da magia" nos remete ao antropofagismo digno de pequenos povos escondidos no interior da África central.
Todo espaço, toda esquina, cada cruzamento de pernas é uma luta entre corpos, entre desejos.
Cada momento em que encontramos alguém, seja para trocar algumas palavras, seja simplesmente caminhando na mesma calçada, é um confronto que pretende revelar o mais forte, o mais esperto, aquele que sobrepuja o outro.
Talvez pela cultura, talvez pelo povo, quem sabe pelas influências de conquistadores externos, os famosos novos ricos vindos de São Paulo e Curitiba, as pessoas que moram aqui se tornam, ou já nascem, com o desejo de aniquilar o outro.
A diferença (quem sabe?) é tratada com desdém e um desejo assassino, cujos efeitos aparecem nesses pequenos detalhes do dia a dia.
Sempre tem alguém se dar bem em cima dos outros. E aqueles que assumem o trabalho que os nativos não almejam (garçons, cozinheiros, guias, etc.) são arrogantes e impertinentes. Quase como uma tentativa vã de vingar-se de si mesmo por ser um eterno frustrado.
Culpabilizam os "estrangeiros" pelo estado atual da ilha, degradada, suja, empilhada de veículos e casas com cercas eletrificadas. Porém, os nativos tampouco colaboram com o ecossistema (nem político, nem natural), jogando lixo nos ônibus, pescando indevidamente, invadindo a vida daqueles que vieram de fora.
Portanto, o mundo se torna cada vez mais inabitável.
A famosa ilha de Santa Catarina nos revela sem medo o que acontece pelo mundo afora: toda relação é uma relação de poder.
Domina quem pode, é dominado quem concede.

Tuesday, May 13, 2008

tu

um pouco de mim, um pouco dos outros, um olhar aqui, algumas palavras ali, mais um olhar, mais algumas palavras, silêncio.
uma respiração pesada invade minha alma, acalma meu espírito inquieto, transborda em reticências, reminiscências de um presente em futuro próximo.
como mergulhar no tempoespaço? o que procurar neste espaço aberto pelo pensamento, repleto de sentimento? as palavras dizem de uma história, de um ser em constante movimento, em perpétua transformação.
camadas de pele, de interface, de microorganismos, bactérias, folhas de papel açucarado que recobrem órgãos e emoções. todas elas, as camadas a-camadas, de cama-da-em-ca-mada caem uma após a outra e revelam o ser que está para nascer.
perfis irreconhecíveis, histórias inverossímeis, controle de rachaduras, ranhuras e brechas de um porvenir sonhado com tesão e devaneio.
trânsito de idéias, corrente simbólica, pontes inefáveis, rios e mares que se chocam. ondas de desejo e lascívia, corpos, carne, metro cúbico do amor terreno, do sexo sem sentido, da boca amaciada pelo azeite. entre ossos e costelas, pulmões e intestinos, gases rarefeitos poluem a atmosfera do desejo incorrompível.
absoluta imensidão do ser em si, absorto no absurdo, inconformado na conformidade da linha horizontal. quebra em si o vértice do conformismo e rompe. cor-rompe com o cedro mágico da ilha, da magia? da putrefação do espírito de uma mente inquieta.
uma respiração a mais, um leve toque de dedos, terá sido por acaso, ou por sorte?
ter te encontrado, re-encontrado quem sabe?, numa ilha deserta, repleta de sons e ruídos intermináveis, de transeuntes lânguidos, esquálidos, em busca do preenchimento disso, daquilo e daquilo outro.
onde está você agora? que tua ausência me demora, delonga a estadia, atrasa a partida... pequenas partículas de lembrança e re-cord-ação, memória imperdível insustentável, que lamenta a perda do objeto, da ranhura desmedida da paixão.
sentimentos e finas lâminas de um líquido espesso, obscuro, impenetrável.
um leve enroscar, rápido, ligeiro entrelábios, inconformidade do tempo, medo, angústia, prazer, sono.
crepita no precipício da incerteza, senhora criança, desnuda de toda verdade invertida.
circula no espaço do vazio, mácula rebelde, absorta na atração de um amor impossível.
respeita o tempo, o vazio da ilha em que se encontra, sejas tua, só tua a mensagem.
rompe as regras, do tempoespaço, mergulha no longo e infinito oceâno, vem comigo.
lança-te em medidas e volumes desconhecidos, procura palavras, letras do indizível.
ressurge assim, devagar, lenta-mente e me atrai, me desprende do chão, me enleva.
meu coração bate, minhas pernas tremam, aquelas malditas borboletas fazem girar.
minha boca pede mais, mais, e mais. um sabor in-provado, ir-resistível, grita em dor.
minhas mãos procuram mais, mais, e mais. um corpo ir-real, ir-realizado, goza em pranto.
chora a perda, mas, junto comigo. o silêncio, o vazio entre nós que não existimos, um pro outro.
chora, sim, chora, lágrimas de dor, de gozo, de amor, de admiração inexplicável.
se um de nós cair em si, que seja de frente pra morte, esta, que nos vem de encontro.
fundo, profundo, profundamente. a-fundo, a-profundo, a-pro-funda-mente.
desrespeita as regras, corrompe teu corpo com o meu.
não admita erros, eles marcam e pode ser mais do que a pele. pode ser a alma.
respeita-te e respira, bem devagar, para o ar entrar e sair, carregando a distância e o vazio.
sorria e deixe que teus olhos te guiem, não tenha medo de errar, eles te engrandecem.
tu és a mais linda entre olhares e bocas, entre sorrisos e metáforas, entre metonímias e aliterações.
saudades de ti, que nunca conheci...

Tuesday, May 06, 2008

Para ler cagando

Eis eu aqui novamente, para mim mesmo, já que não há visitantes nesta página...
só vim depositar algumas palavras de esperança e bom humor à minha própria vida.
Aposto numa vida melhor, longe de tudo e de todos que conheço.
Arrisco um destino desconhecido que admito parece-me irresistível.
Trabalhar a bordo de cruzeiros, viajando o mundo...
Sim, linhas e reticências não são suficientes para abarcar, ou circunscrever os limites dessa experiência que tenho certeza será definitiva na minha vida.
Hoje, em Curitiba, só espero que o dia de amanhã passe logo, com o resultado positivo do exame para já me preparar para a entrevista final na segunda.
Estou num shopping, pra variar. Esses espaços são horríveis, pois nos aprisionam em redomas invisíveis que atiçam a compulsão e o consumismo, nos jogando num calabouço de desejos e fotoimagens transloucadas de nós mesmo. Há muito tempo perdido nessa tela, viajando por domínios tão desconhecidos como meu próprio intestino, sinto lentamente crescer a urgência por um banheiro decente no qual eu possa sentar o rabo e defecar.
Ah, se as palavras tivessem o mesmo efeito de uma boa cagada!