Miles Davis não precisava de letras para tocar os corações daqueles que escutam sua música.
Seu sopro primordial nos tira da correria do pensamento, do atropelamento das emoções e dos sentimentos mais importantes para nossa vida.
Portanto, escrever diante dessa constatação é algo como olhar nos olhos da besta fera e pensar: realmente preciso detê-la? É caso de necessidade ou puro narcisismo em busca de um reconhecimento fugaz que reside no olhar de um outro que nem mesmo conhecemos?
Estou nesse momento diante desta besta chamada tela, ou computador, que formula e molda minhas palavras num teclado insosso no meio de um shopping center em Curitba.
Miles já se foi, pelo menos nos meus ouvidos, abrindo espaço para outros álbuns, outros artistas entoarem suas vozes, seus instrumentos. Sem dúvida, nenhum é como ele.
A música, enquanto trabalho maestral dos sons, assim como os cheiros, as luzes, a pressão de certos lugares, nos leva a revisitar momentos de nossas vidas, nos transportando a situações específicas.
Estou atordoado com a despedida, não sei se apressada, ou nunca esperada, da minha gatinha, a gordinha.
Interessante o pensamento que me ocorreu ao terminar a frase: se tivesse uma foto dela colocaria aqui. Pensei imediatamente: será que tenho alguma foto dela? Sim, algumas guardadas no celular, pelo menos pra isso ele serve, né?
As lágrimas queimaram meu rosto e eu que há alguns dias reparava nas manchas do cachorro de um amigo, que igual às minhas, ficaram para sempre.
Ainda as tenho para despejar, mas não encontro lugar, tampouco um seio no qual debruçar.
Me sinto extremamente sozinho. Desesperadamente perdido e sem horizontes. Como se um pedaço de mim houvesse caído em algum lugar do caminho entre Florianópolis e Curitiba.
Queria correr para os braços daquela que tanto me amou e, espero, ainda ama. Poder soluçar em seu colo e deixar transbordar as lágrimas enquanto as guardasse dentro de mim.
Ainda me sinto só, tão só que qualquer lugar estaria melhor que esse de agora, aqui.
Seus miados, suas brincadeiras sempre ficarão gravadas em minha memória, talvez por isso não tenha tantas fotos dela. Sempre fui muito bom de memória.
Seus olhos, seu pêlo, sua gordura em excesso, por isso era chamada carinhosamente de gordinha por nós.
Ao mesmo tempo que desejo voltar agora para Florianópolis e deitar na minha cama, enquanto uivo pela noite adentro a perda desse animal maravilhoso, tenho medo de voltar e cair no meio da caminho, não conseguir chegar em casa e me deparar com o vazio que ela me deixou.
Não há fumaça que preencha esse vazio, não há graça que perdoe esse fastio, tampouco alegria que perdure tão pouco.
Não quero olhar para ninguém, talvez por isso esteja de costas para todos e de frente para você, para mim mesmo. Como enquanto chorava no banheiro masculino do shopping. Olhava-me no espelho e percebia os olhos avermelhados, as veias saltadas, o rosto mal arranjado.
Parecia ter envelhecido dez anos em dez minutos.
A ignorância e falta de compaixão das pessoas ainda me espantam.
Talvez por ser um eterno romântico, alguém que acredita no amor à primeira vista.
Não sei o que esperar desses dias que demoro ainda em Florianópolis. Só espero que não sejam tão doloridos quanto minha vinda para Curitiba.
Me desfaço aqui, como ao longo do último mês mes desfiz de tudo que conquistei, para permitir que mais um pedaço de mim morra e outro renasça.
Por favor, não demore muito.
Wednesday, May 28, 2008
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