Sunday, October 14, 2007
o tempo das águas
o tempo corre, a água cai do céu em finas gotas, o novo horário já chegou perturbando o sono da manhã. os dias correm, as noites voam, as semanas galopam, enquanto eu me mantenho preso, sustentado por arquétipos e símbolos de uma vida intempestiva e conflituosa. meus sonhos se misturam à realidade e tudo aquilo que desejava aos poucos se torna real, ou talvez metáfora de uma realidade quase nula e apagada. as luzes começam a acender, o movimento rareia e o batimento acelera ao sabor das pedaladas. a rotina de dia após dia, acordar e dormir pensando conjecturas, abobrinhas de uma mente em eterno conflito. situações que são criadas, situações inusitadas, inesperadas, dignas de um filme noir de terceira categoria. percebi há pouco que não dou mais tanto peso aos problemas, às mazelas da vida, da rotina do dia a dia. as coisas ganham outro peso, outra medida, um resquício de memória, de lembrança, de sonho que tarda a chegar. pernas se cruzam, olhares e mãos se entrelaçam, pequenos problemas que se tornam questões de jantares inteiros, de muitas garrafas de vinho e café. as perdas, os ganhos, tudo é relativo. o aprendizado, o ensino, os diplomas. de que servem? a vida é uma só, tem um único movimento, inalterado, seja qual for minha esperança. não espero mais nada. não aguardo o elevador chegar, ou o porteiro abrir a porta. forço a entrada, irrompo em palavras diretas, porém, sutis. olhar aguçado de quem aprende coisas novas, novos endereços e novos caminhos. porém, os passos são sempre os mesmos, o olhar que pende sobre o vazio é o mesmo, até o vazio é o mesmo. os pisantes me levam a encarar almas castigadas, corpos deformados com a tristeza e a angústia da vida. pobreza de espírito, de desejo, de alma. perda de vontade, de ânimo para realizar as mudanças necessárias. o rio corre ao lado, eu me sento na grama e observo. as pedras brilham com o sol e a água do rio passa levando pequenos cardumes e algas escurecidas. bocas aflitas, corações partidos, mentes desorientadas, espíritos malditos que repetem a mesma história dos vencidos, aquela ensinada nos tempos de escola. singela repercussão de sabores e aromas de um tempo esquecido que não volta mais. não que seja necessário, ou desejável. o tempo passa e deve passar, deve correr junto com o rio, com as águas profundas do devaneio poético.
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