Esses são os lugares onde transito no momento. Reparo como a rede se estreita porquanto dos trabalhos, limitando o percurso e os campos de contato e ação. Minha rotina é corrida como o rio que perpassa a viela onde moro. Rio Tavares, bairro de cidadãos naturais da ilha e repletos de cultura local. Um ambiente de paz e reflexão, a um quilometro da praia. Percorro uma pequena rua e um caminho verde, atravesso as dunas e caio num mar de águas quentes e ondas constantes. Sinto vento frio e o sol queimando. Quando terei uma folga? Não vejo mais meu amor. Somente quando chego para dormir, lá pela uma da madruga.
Porém, as coisas vão bem. Espero fazer algum nesse mês e para o próximo espero estar mais integrado e com mais tempo disponível para minha vida amorosa. Estamos ambos sentindo muita falta um do outro. Mas acho que está sendo muito rico e importante esse momento.
Lagoa da Conceição, local de agitação constante, inúmeros bares e restaurantes. Algumas poucas ruas que engarrafam com os milhares de carros que passam por aqui. Suas calçadas mostram na vitrine e nos preços o tipo de gente que frequenta o local. Lagoa rodeada por verde, pousadas, grandes casas e atravessada por diferentes cometas, que passam e quase me levam enquanto pedalo à toda.
Ainda não cheguei, não me acostumei. Não quero. Quero me integrar e expandir aos poucos meus tentáculos, formando essa rede que sustenta minha vida. Objetivos surgem e desaparecem. Aparecem como fagulhas e centelhas de um nativo carioca que busca aqui em floripa o caminho para sua felicidade. Seja lá o que isso for. Não estou tendo tempo nem para organizar minhas idéias. Mas elas não param de chegar e tento anota-las no meu precioso caderninho verde.
Agora vou ao centro da cidade, dar entrada na carteira de trabalho. Volto para casa, me arrumo e parto para o restaurante. Fico até meia noite e volto para casa. Sofro, assim, aos poucos, com a degradação do espírito e do corpo humano. Desrespeito meus limites e as fronteiras parecem se expandir cada vez mais. Respiro e prossigo viagem. Um grande beijo e até mais.
Wednesday, December 28, 2005
Tuesday, December 27, 2005
Olhares e refúgios
Desde minha chegada em terra estrangeira, digo estrangeira por um motivo simples e um complexo. O primeiro, mais simples, pelo fato de estar numa cidade diferente da minha de origem e naturalidade. O segundo, mais complexo para explicar, diz respeito ao sentimento de estranhamento que, às vezes, me invade e torna tudo um tanto estéril e longínquo.
Estou há quinze dias nessa cidade que não para e eu tampouco paro. Respiro em alguns momentos, sem relaxar, com o pensamento fechado e o olhar aberto. Reparo em tudo ao redor, reconheço os caminhos e logo percebo esse movimento interno de estabelecer uma rotina, um traço que me seja conhecido ou reconhecível.
Perambulo nos momentos de descanso. Vou à praia, sinto o vento e a areia das dunas. Meu pensamento está, a todo momento, trabalhando no sentido de construir uma rede de fixação à qual recorro para delimitar meu campo de ação e sentido. Organizo meus dias e minhas noites em função dos trabalhos e da necessidade de fazer dinheiro. Nesses contatos com restaurantes, bares e cafés, tenho encontrado uma diversidade enorme de pessoas e negócios que se abrem aos meus olhos como portas de um sonho inesperado e inoportuno.
Busco amparo e refúgio na minha solidão. Inalcançável para este outro tão próximo, que sinto a dor da distância entre os seres. Somos, portanto, sempre indivisíveis e inócuos. Seres ambulantes e disfarçados em personas e máscaras discretas de quem quer ser reconhecido e desejado pelo outro.
Pulo de idéia em idéia, de olho em olho e pé em pé. Percorro a lagoa e o rio com olhos abertos para o movimento ininterrupto e abrupto dos veículos conduzidos de maneira apressada. Projeto imagens e sons numa tela de mosaico em círculo. Linhas e pontos de um entrecruzamento de sentidos e seres insólitos. Diversos e distintos. Loucos e normais. Acesos e apagados.
Uma luz e uma fumaça denunciam o refúgio de uma alma em desespero e pungência de um outro ser. Como a borboleta que rompe o invólucro da lagarta e voa em direção ao céu. Desse jeito, tão suave e sutil, irrompo em discursos e verdades até então desconhecidas.
Uma conversa, um pedido, uma exigência e uma responsabilidade. Respondo com palavras e silêncio ao diálogo impossível entre o outro e eu. Toco, acaricio. Sublimo e respiro um outro ar. Solto a pressão e relaxo as costas. Alongo o pescoço e ressinto o aconchego do lar. Onde fica? Onde está minha morada?
Conversa silenciosa entre amigos em especial. Em contato infinito com a solidão de nossas almas. Prolongamentos e correspondências entre corações e corpos quebrados. Um beijo.
Estou há quinze dias nessa cidade que não para e eu tampouco paro. Respiro em alguns momentos, sem relaxar, com o pensamento fechado e o olhar aberto. Reparo em tudo ao redor, reconheço os caminhos e logo percebo esse movimento interno de estabelecer uma rotina, um traço que me seja conhecido ou reconhecível.
Perambulo nos momentos de descanso. Vou à praia, sinto o vento e a areia das dunas. Meu pensamento está, a todo momento, trabalhando no sentido de construir uma rede de fixação à qual recorro para delimitar meu campo de ação e sentido. Organizo meus dias e minhas noites em função dos trabalhos e da necessidade de fazer dinheiro. Nesses contatos com restaurantes, bares e cafés, tenho encontrado uma diversidade enorme de pessoas e negócios que se abrem aos meus olhos como portas de um sonho inesperado e inoportuno.
Busco amparo e refúgio na minha solidão. Inalcançável para este outro tão próximo, que sinto a dor da distância entre os seres. Somos, portanto, sempre indivisíveis e inócuos. Seres ambulantes e disfarçados em personas e máscaras discretas de quem quer ser reconhecido e desejado pelo outro.
Pulo de idéia em idéia, de olho em olho e pé em pé. Percorro a lagoa e o rio com olhos abertos para o movimento ininterrupto e abrupto dos veículos conduzidos de maneira apressada. Projeto imagens e sons numa tela de mosaico em círculo. Linhas e pontos de um entrecruzamento de sentidos e seres insólitos. Diversos e distintos. Loucos e normais. Acesos e apagados.
Uma luz e uma fumaça denunciam o refúgio de uma alma em desespero e pungência de um outro ser. Como a borboleta que rompe o invólucro da lagarta e voa em direção ao céu. Desse jeito, tão suave e sutil, irrompo em discursos e verdades até então desconhecidas.
Uma conversa, um pedido, uma exigência e uma responsabilidade. Respondo com palavras e silêncio ao diálogo impossível entre o outro e eu. Toco, acaricio. Sublimo e respiro um outro ar. Solto a pressão e relaxo as costas. Alongo o pescoço e ressinto o aconchego do lar. Onde fica? Onde está minha morada?
Conversa silenciosa entre amigos em especial. Em contato infinito com a solidão de nossas almas. Prolongamentos e correspondências entre corações e corpos quebrados. Um beijo.
Monday, December 12, 2005
Viagem
Primeiras palavras desde minha chegada em Floripa. São tantos sentimentos e emoções que perpassam meu corpo alma neste momento, que não consigo organizar meu pensamento. Vivo o dia, o fôlego infinito do tempo e do desejo. Me encho de ânimo e força para enfrentar as mazelas e durezas desta mudança. Mando um abraço para geral em Niterói. Espero voltar em breve e ter mais tempo para postar algo de algum valor poético.
Monday, December 05, 2005
caminhar com as palavras
numa dessas tardes ensolaradas, quando o suor molha a roupa
quando chamas transparentes cintilam no asfalto quente
quando a paisagem revela o momento, os sentidos se cruzam
a incidência da língua sobre o sujeito, da fala infinita do outro
aquela que nos atravessa e subjuga, como condenados à falta
à perda original que nos constitui, de um objeto amado
de situações e pessoas, de idéias e sensações
percepção de uma morte iminente, da alteridade extrema
caminhando para o futuro, em direção ao passado
eterno retorno de uma voz, de uma língua paterna
uma ferida se faz presente, e outra maré se produz
um deslocamento e uma condensação, em ritmos periféricos
em movimento com a terra e seus imprevistos, suas surpresas
acontecimentos inesperados, insights e alucinações
interferência sobre a realidade, captando seu sentido puro
único, em si, do movimento terrestre, da locomoção
da estrada que percorremos, em sonho e realidade
em desejo e castração, em quase totalidade
na falta inexorável, de onde urge uma questão
uma pergunta, um descobrimento do desconhecido, do esquecido
onde as idéias e o pensamento não têm força, no que escapa
naquilo que não temos controle e que nos assoita como de fora
alheio a desejo e satisfação, naquele momento é tudo, é um
só
um ser solitário que caminha com as palavras, numa balça flutuante
catando estrelas cadentes e conjunções, horizontes, sol e lua,
morrer e nascer do dia, daquele dia em que conduzimos a luz
de um saber, de um conhecimento de si e do outro, daquele que nos reflete
dos olhos que somos olhados e das palavras com as quais somos ditos
essa língua maternal, que serve de abrigo e refúgio
acolhe minha solidão e morre livremente
perdida no ar da imaginação, da corrente inusitada de inspiração
de um desvio que se produz, na minha mente se faz luz
uma certa visão, um olhar, um toque, uma passagem
uma respiração, o primeiro movimento, o essencial
daquilo que fala nossos peitos e sexos
nossa carne e nosso pensamento, juízo imperfeito de uma realidade
fragmentada e inconsistente, de onde nenhuma obra cobrará as dívidas
esfalecimento do tecido social, da multiplicidade violenta
de informações e imagens, e símbolos e letras e punhos
levam nosso desejo em uma corrente, um stream, um rio, um canal
um sentido no qual escoa e transborda o desejo, a pulsação
ritmo de um corpo pensante, de um ser ambulante
de um zé ninguém, engolido pelo anonimato, na impessoalidade
na quebra ininterrupta de modelos, de paradigmas e establishements
um certo poder saber, sobre si, de auto escrutínio, e alheio
da privacidade do outro, que serve de espelho, de retrato e retratante
de real e delirante, protagonistas de uma mesma história
pela qual trespassam muitos e tantos que é impossível contá-los
fios de luz, condutores de energia, repletos de tensão e conflitos
emaranhados elétricos sobrevoam ombros e cabeça, agarram-se
em constante luta e dilema, da decisão, da escolha, do caminho
percorrido como poucos, em confins longínquos
em fins perdidos e correntes elétricas, de um infinito caminhar
com as palavras, num vôo solitário de libertação, de criação
onde a língua incide sobre o olhar e sua expressão, sua escolha
pessoal e intransferível, sua assinatura e impressão digital
aquilo que te faz único, singular e inexistente
aquilo que é você e não te pertence, uma imagem, um devaneio
umas palavras e um sentimento, uma inspiração de talento
uns toques e um retrato, de si, de outro, de mundo, sioutromundo
expiração lenta e inconstante, de lembranças e desejos
de história e território, de estabelecido e arrependido
de contraditório e esquecido
de um arsenal repleto de sons e imagens, letras e corpo
em suspenso, elástico e maleável, distorcido e aumentado
diminuído e esticado, uma peça de automóvel em tenro desuso
de um vir a ser atrasado demais para recuperar o tempo perdido
de um irremediável só depois para saber o que acontece no próximo capítulo
deixo aqui para imaginar qual e quando será o próximo deste blogger
quando chamas transparentes cintilam no asfalto quente
quando a paisagem revela o momento, os sentidos se cruzam
a incidência da língua sobre o sujeito, da fala infinita do outro
aquela que nos atravessa e subjuga, como condenados à falta
à perda original que nos constitui, de um objeto amado
de situações e pessoas, de idéias e sensações
percepção de uma morte iminente, da alteridade extrema
caminhando para o futuro, em direção ao passado
eterno retorno de uma voz, de uma língua paterna
uma ferida se faz presente, e outra maré se produz
um deslocamento e uma condensação, em ritmos periféricos
em movimento com a terra e seus imprevistos, suas surpresas
acontecimentos inesperados, insights e alucinações
interferência sobre a realidade, captando seu sentido puro
único, em si, do movimento terrestre, da locomoção
da estrada que percorremos, em sonho e realidade
em desejo e castração, em quase totalidade
na falta inexorável, de onde urge uma questão
uma pergunta, um descobrimento do desconhecido, do esquecido
onde as idéias e o pensamento não têm força, no que escapa
naquilo que não temos controle e que nos assoita como de fora
alheio a desejo e satisfação, naquele momento é tudo, é um
só
um ser solitário que caminha com as palavras, numa balça flutuante
catando estrelas cadentes e conjunções, horizontes, sol e lua,
morrer e nascer do dia, daquele dia em que conduzimos a luz
de um saber, de um conhecimento de si e do outro, daquele que nos reflete
dos olhos que somos olhados e das palavras com as quais somos ditos
essa língua maternal, que serve de abrigo e refúgio
acolhe minha solidão e morre livremente
perdida no ar da imaginação, da corrente inusitada de inspiração
de um desvio que se produz, na minha mente se faz luz
uma certa visão, um olhar, um toque, uma passagem
uma respiração, o primeiro movimento, o essencial
daquilo que fala nossos peitos e sexos
nossa carne e nosso pensamento, juízo imperfeito de uma realidade
fragmentada e inconsistente, de onde nenhuma obra cobrará as dívidas
esfalecimento do tecido social, da multiplicidade violenta
de informações e imagens, e símbolos e letras e punhos
levam nosso desejo em uma corrente, um stream, um rio, um canal
um sentido no qual escoa e transborda o desejo, a pulsação
ritmo de um corpo pensante, de um ser ambulante
de um zé ninguém, engolido pelo anonimato, na impessoalidade
na quebra ininterrupta de modelos, de paradigmas e establishements
um certo poder saber, sobre si, de auto escrutínio, e alheio
da privacidade do outro, que serve de espelho, de retrato e retratante
de real e delirante, protagonistas de uma mesma história
pela qual trespassam muitos e tantos que é impossível contá-los
fios de luz, condutores de energia, repletos de tensão e conflitos
emaranhados elétricos sobrevoam ombros e cabeça, agarram-se
em constante luta e dilema, da decisão, da escolha, do caminho
percorrido como poucos, em confins longínquos
em fins perdidos e correntes elétricas, de um infinito caminhar
com as palavras, num vôo solitário de libertação, de criação
onde a língua incide sobre o olhar e sua expressão, sua escolha
pessoal e intransferível, sua assinatura e impressão digital
aquilo que te faz único, singular e inexistente
aquilo que é você e não te pertence, uma imagem, um devaneio
umas palavras e um sentimento, uma inspiração de talento
uns toques e um retrato, de si, de outro, de mundo, sioutromundo
expiração lenta e inconstante, de lembranças e desejos
de história e território, de estabelecido e arrependido
de contraditório e esquecido
de um arsenal repleto de sons e imagens, letras e corpo
em suspenso, elástico e maleável, distorcido e aumentado
diminuído e esticado, uma peça de automóvel em tenro desuso
de um vir a ser atrasado demais para recuperar o tempo perdido
de um irremediável só depois para saber o que acontece no próximo capítulo
deixo aqui para imaginar qual e quando será o próximo deste blogger
Monday, November 07, 2005
Oráculo
Fui consultar-me ao oráculo. Estendi-me diante de sua grandeza assustadora e pus-me a pensar sobre o que lhe perguntaria. Entrelacei os dedos atrás das costas refletindo qual seria a melhor questão a lhe posar. O tempo passava e minhas pernas cansaram, e meus braços esmoeceram dormentes. Fiquei a devanear comigo mesmo, elucubrando uma pergunta que correspondesse à minha angústia. Fechei os olhos após mergulhar em pensamentos e idéias ruminadas durante toda minha vida. Imagens e mais imagens surgiam incessantemente diante de meus olhos. Anoitecera e nada da pergunta surgir. O cansaço me abateu e sentei-me em uma espécie de banco para os aflitos. Senti minha coluna se esticar e estalar os espaços entre os discos. Respirei profundamente, como se aquele gesto fosse libertar a pergunta acertada. Os pensamentos se foram e vi-me num túnel escuro e caudaloso, com portas e janelas que se abriam e fechavam ao sabor do vento. Senti um impulso que me levava ao longo do corredor estreito imaginado em minha mente. Procurei me libertar daquela imagem e sentir onde estava, captando a energia daquele grandioso templo. Meditando sobre minha posição e o tempo que estava ali, percebi a entrada que buscava. Arrisquei escolher o tempo como base para minha pergunta. Onde estava? Ou melhor, quando estava? Meu corpo e minha mente ocupavam tempos distintos. Ligados por uma tênue linha de lembranças e expectativas. Passado e futuro se encontravam ali no presente de minha angústia. Respirando pesadamente coloquei-me a viajar pela minha vida e reparar naqueles momentos de escolha e decisão existencial. Interroguei-me a respeito de minhas escolhas, de minha senda trilhada e do caminho a porvenir. Estava, de certo, no futuro. Talvez um futuro próximo, mas distante o bastante para obscurecer novamente minha mente. Encontrei-me outra vez num tempo absorto por pensamentos e sentimentos indefinidos. Já não percebia qualquer movimento à minha volta. Concentrava-me na força daquele lugar. Tentava encontrar as palavras que já não eram minhas. Mortas, renascidas, elas apareceram claramente diante de mim: para onde estou indo? A pergunta se fizera calada, de olhos fechados e coração aberto. O oráculo fez surgir uma leve fumaça, um tremor de terra e um arranjo de suas estruturas. Seu brilho era forte mesmo na escuridão noturna. Sua entrada dispunha de adornos dignos dos mais terríveis pesadelos, mas que, durante a claridade do dia, entoavam inigualável beleza. Para onde estou indo? A questão se fizera novamente, quando o oráculo rangeu o cimento e retornou em eco surdo: "quem escolhe teu caminho és tu" disse-me, completando com um enigma "o que vem do passado, faz do presente um caminho para o futuro de quem coloca-se junto ao tempo". Observei atentamente o correr das nuvens, como se o tempo parasse naquele instante de extrema exaltação. Um gole a seco, de ar e fogo em plena combustão. Ofereço-lhe um pedaço de mim, materializado num colar de conchas há muito engavetado. Olha-me como retribuindo meu olhar. Expulsa-me como uma mãe dá luz ao bebê. Sinto-me renovado para mais uma busca. Levanto meu corpo e minha alma já parece seguir viagem. Respiro novamente sempre à procura do tempo. Terra e água se fazem ao caminho, como elementos de uma nova vida que precisa morrer para nascer.
Sunday, October 16, 2005
...
neste mundo em que vivemos, de tudo se produz conseqüências, efeitos adversos e programados, na tentativa de intervir, de operar com sutileza e cuidado as palavras, a escuta, a interpretação, o bom uso da relação analítica entre os significantes do mundo subjetivo, significa interpelar a realidade psíquica, objetiva e circunstancial, os fenômenos do olhar, da escuta, do acolhimento, do retorno, da intencionalidade do ato, correspondem precisamente às experiências afetivas e culturais originárias da diferença, da distinção e dissociação de mundos, de sentidos e significados, representamos em idéias, imagens, símbolos e arte, tudo em busca de um cômodo, de um lugar, um espaço onde habite aquilo que nos anima, que nos faz levantar da cama e proceder todos os rituais da vida cotidiana, perda de contato e isolamento circunspectivo, elaboração de tese, teoria e prática de um ofício aprendido e depurado com muito sofrimento e trabalho...
* * *
fui chamado para assistir um julgamento um tanto diferente daqueles que estamos acostumados a assistir, pelo menos nos seriados da televisão estadunidense. posicionei-me ao fundo, numa cadeira de madeira, como fora designado por um ajudante. alguém sentava a meu lado, mas não me detive o suficiente para reparar-lhe a face ou qualquer detalhe significativo. [observava a agitação das pessoas no recinto, o grupamento de cadeiras, o palanque dos juízes]
o julgamento transcorria enquanto um certo incômodo não identificado tomava conta de minha atenção, transformando minhas mãos em instrumentos de inquietação e nervosismo.
tudo se passava num imenso salão quadrangular, com piso de tábua corrida muito bem encerada. colunas de mármore infinitas tocavam os afrescos do teto arredondado, que procurava suavizar a atmosfera com pinturas de uma época perdida. [anjos e deuses da mitologia se agrupavam num céu azul claro com algumas nuvens brancas, que serviam de berços para os anjos e tronos para os deuses] inúmeras cadeiras se dispunham vários metros diante de mim e da cadeira a meu lado.
esse espaço vazio entre eu e o público representado no julgamento, assim como a mulher que estava sendo julgada, materializava o distanciamento necessário para a execução de meu ofício.
como disse, este julgamento em nada se assemelhava dos outros, sobretudo pela minha presença ali.
a mulher permanecia em pé, silenciada pelas vozes do público e do juiz. ela estava exatamente no meio do retângulo reservado aos participantes do julgamento. [sua voz era ináudivel, enquanto gesticulava e parecia esbravejar injúrias a todos]
uma mesa enorme e suspensa pela autoridade judiciária, separava claramente quem punia de quem era punido.
minha permanência até aquele momento se restringia a assistir mais um episódio do exercício da moral e da justição cristãs. contorcia-me na cadeira ao ver aproximar-se a declaração da sentença. a mulher erguia os braços e elevava a voz inutilmente, tentando impedir o procedimento.
meu vizinho levanta-se e abre a porta enquanto o público se exalta e em alvoroço percorre o espaço entre nós. preocupo-me com minha segurança e levanto rapidamente. a mulher aparece diante de mim. seus olhos expressam medo, pavor mesmo do que pode lhe acontecer.
somos transportados a um coliseu nunca vista. sua imensidão era tanta que nos era impossível observar as paredes, ou quaisquer limites entre o céu e a terra.
uma luz âmbar dominava o espaço e dava aos moribundos um aspecto vivo alucinante.
pequenas ilhas agrupavam os corpos que permaneciam de pé, uns à procura dos outros. a aflição era grande e a mulher ainda segurava minha mão. libertei-me ao empurra-la no imenso vazio do coliseu. seu grito mudo ecoou no vácuo [e nos ouvidos dos outros sentenciados, que a olhavam com desdém] e seu corpo foi instantaneamente levado por nuvens de matéria decomposta [de ácido gaseificado].
seu horror só não parecia maior que daqueles que descobriram o impossível daquele lugar. como espectros mortalizados, seus olhos esbugalhados e corpos transparentes, cada um assumia a forma que lhera designada [uns agachados, outros em pé, outros ainda de joelho e aqueles curvados em prece].
meu ofício se limitava a executar o procedimento, mas minha obra excedia o regulamento enquanto me detia a reparar o horror daquele lugar [dando-lhe vida e objetividade no relato que apresento].
Sunday, October 09, 2005
Outubro
Apesar de ser o mês de aniversário do meu irmão, Outubro sempre mexe comigo. Não sei explicar claramente o efeito que sofro desse mês. A palavra em si mesma carrega um conteúdo cinzento, nublado. Talvez nem seja pela convenção em que vivemos, mas sim pelo ciclo que ela procura calcular. Medir tempo e espaço. Através e a partir de experiências e compromissos sociais. Controle sobre desejo e necessidades. Limites e transgressão.
Como um amor de infância. Reencontrado em semblante. Num horizonte perdido em lágrimas e gozo. Uma existência interrompida. Um laço cortado. Um lugar escondido, esquecido em caixas e cartas abandonadas.
Como uma paixão adolescente. Aspirada em instantes. Num caldo efervescente em borbulhas e respingos. Um desejo ansioso. Um rodeio medroso. Um tempo mordido, mastigado e vomitado em sarjetas escuras e calçadas estranhas.
Como um carinho de jovens. Aflitos em toques e remédios. Num plano frágil e simbólico. Em pequenas rachaduras, fissuras entre mundos. Um suplício faltoso. Um olhar de relance. Um corpo e um espaço. Um pedaço de bolo.
Lampejos e lembranças.
Como um amor de infância. Reencontrado em semblante. Num horizonte perdido em lágrimas e gozo. Uma existência interrompida. Um laço cortado. Um lugar escondido, esquecido em caixas e cartas abandonadas.
Como uma paixão adolescente. Aspirada em instantes. Num caldo efervescente em borbulhas e respingos. Um desejo ansioso. Um rodeio medroso. Um tempo mordido, mastigado e vomitado em sarjetas escuras e calçadas estranhas.
Como um carinho de jovens. Aflitos em toques e remédios. Num plano frágil e simbólico. Em pequenas rachaduras, fissuras entre mundos. Um suplício faltoso. Um olhar de relance. Um corpo e um espaço. Um pedaço de bolo.
Lampejos e lembranças.
Sunday, October 02, 2005
de vez em quando
eu sonho com praias inabitadas, onde o mar com suas ondas imensas domina a paisagem
reparo nos corais que protegem a enseada e permitem que eu exista na areia pacífica
caminho por desfiladeiros pontiagudos e flutuo de nuvem em nuvem em meditação
choro com o tempo perdido em divagações inúteis e sem sentido
sorrio tranqüilo quando acordo para um novo dia, lembrando dessas imagens oníricas
caio na água agitada, procurando me encontrar, seguindo caminhos nunca trilhados
adormeço com a luz acesa, a cara enfiada num texto copiado, as pernas cansadas
reluto em levantar e torno a sonhar com ondas e paisagens familiares, com amigos e amores
discuto comigo mesmo, brigo e luto com aquilo que me é estranho, inconsciente
me vem à cabeça um sentido, uma porta, uma janela, abertas e fechadas, batem ao vento
subo ao céu como quem morre, e repito a fala de um lugar desconhecido
desço escadas até o porão de minha memória, evocando lembranças de criança
fecho os olhos, esperando o primeiro raio de sol que surge lá de dentro, da superfície
vislumbro um horizonte mais limpo, com menos casas, menos gente, menos morte
me perco num infinito amanhecer de sonhos inacabados e desejos esburacados
me encontro num atalho entre índice e ícone de avatares virtuais
vejo o reflexo de meus pedaços nos cristais que brilham atrás do espelho
quebro a cabeça em contas mirabolantes, concluo que nada sei, respeito alguma lei
rompo com modelos e preconceitos, caio naquele refutado anseio de um dia melhor
irrompo com gritos e sussurros, desconcerto as cordas e arranho as teclas
grito e choro de dor, de saudade, de buraco crescente
peido e arroto de tristeza e alegria vãs
escorrego por entre os dedos do tempo e mato o ar, escapando da morte, no vácuo
esbarro com alguém, comigo mesmo, que me tira, retira e reitera em meu sentido
digo, calo, sinto, sento e levanto diante da tela límpida da noite escura
imagino coisas, pessoas, sentidos e conexões guiadas, aleatório e mecânico
repito e digo, um silêncio que me cala, me encara me desconcerta
molho as plantas como quem ama, como quem morre e mata, assim, de um jeito doce
preparo versos e lampejos, fragmentos e espaços entre azulejos
reparo nos corais que protegem a enseada e permitem que eu exista na areia pacífica
caminho por desfiladeiros pontiagudos e flutuo de nuvem em nuvem em meditação
choro com o tempo perdido em divagações inúteis e sem sentido
sorrio tranqüilo quando acordo para um novo dia, lembrando dessas imagens oníricas
caio na água agitada, procurando me encontrar, seguindo caminhos nunca trilhados
adormeço com a luz acesa, a cara enfiada num texto copiado, as pernas cansadas
reluto em levantar e torno a sonhar com ondas e paisagens familiares, com amigos e amores
discuto comigo mesmo, brigo e luto com aquilo que me é estranho, inconsciente
me vem à cabeça um sentido, uma porta, uma janela, abertas e fechadas, batem ao vento
subo ao céu como quem morre, e repito a fala de um lugar desconhecido
desço escadas até o porão de minha memória, evocando lembranças de criança
fecho os olhos, esperando o primeiro raio de sol que surge lá de dentro, da superfície
vislumbro um horizonte mais limpo, com menos casas, menos gente, menos morte
me perco num infinito amanhecer de sonhos inacabados e desejos esburacados
me encontro num atalho entre índice e ícone de avatares virtuais
vejo o reflexo de meus pedaços nos cristais que brilham atrás do espelho
quebro a cabeça em contas mirabolantes, concluo que nada sei, respeito alguma lei
rompo com modelos e preconceitos, caio naquele refutado anseio de um dia melhor
irrompo com gritos e sussurros, desconcerto as cordas e arranho as teclas
grito e choro de dor, de saudade, de buraco crescente
peido e arroto de tristeza e alegria vãs
escorrego por entre os dedos do tempo e mato o ar, escapando da morte, no vácuo
esbarro com alguém, comigo mesmo, que me tira, retira e reitera em meu sentido
digo, calo, sinto, sento e levanto diante da tela límpida da noite escura
imagino coisas, pessoas, sentidos e conexões guiadas, aleatório e mecânico
repito e digo, um silêncio que me cala, me encara me desconcerta
molho as plantas como quem ama, como quem morre e mata, assim, de um jeito doce
preparo versos e lampejos, fragmentos e espaços entre azulejos
Thursday, September 22, 2005
Pousada
Refúgio para as almas desesperadas, em momentos de solidão e tédio infantil. Um lugar de pouso, de abrigo, onde as almas encontram repouso e continente para seus devaneios. Para chegar até ela é necessário atravessar florestas, rios, com suas águas caldalosas e negras, montanhas e lagos, com sua tranquilidade ambígua. Viagem entre mundos, quando se quer encontrar a pousada. Mas não qualquer pousada. E sim aquela de nossos devaneios vespertinos, no momento em que despertamos naquele lugar de descanso agitado das almas inquietas. Para essas pousadas, vamos sem compromisso, nem preocupação. Nossa ida é uma viagem em si mesma. Percorrer estradas e caminhos para acessar aquele campo da imaginação e da criação a partir da poesia que compõe a experiência de ser-em. Portanto, devir nessa pousada elementar, onde repousam lembranças e delírios, e acrescentar algumas pedras na estante. Retratos e símbolos de um tempo remoto, de outrora, de outra infância, aquela que não se esquece. Perturbamos esse estado de devaneio poético infantil ao entrarmos no mundo dos adultos, da metafísica particular da vida contemporânea. Buscamos, assim que podemos, novamente experimentar esse encontro repousante com a pousada que nos espera. Nos espera num tempo passado que é constantemente imaginado, não tanto no que deixou de ser, mas sim no que poderia ter sido. Afluentes que irrompem a terra e deslocam a construção para um terreno de segurança e continuidade. Espaço aberto para imaginar e criar situações as quais nem a memória, nem o corpo, experimentam fora do cosmos ao qual nos liga o devaneio. Na pousada encontramos extamente o espaço necessário para sonhar, mas não os pesadelos ou mistérios da interpretação da psicanálise. Aquele sonho que nos desperta para a poética da pousada que abriga nosso devaneio.
Sunday, September 11, 2005
Recado
uma cigarra grita lá fora, como prenúncio do verão que está para chegar
o dia claro e ensolarado de domingo compõe a perfeita paisagem
junto com o vento calmo e frio do inverno carioca
estamos em um lugar, isso é certo
durante um certo tempo, isso também nos é dado
estamos, portanto, num tempo espaço definido por leis e processos
alheios à vontade ou ao desejo, sistemas operacionais de controle e vigilância
saber poder de práticas de dominação, que capturam o sujeito
sua existência no ambiente e consequente interação com seus elementos
uma realidade perdida e impraticável, suja em sua origem, de direito e moral
linhas que separam campos e estradas, calçadas e viadutos
edifícios, casas e vilas, repertório imaginário e fantástico de um mundo de outrora
tempos e espaços passados, sonhados, imaginados com perfeição
ajustada ao desejo e à incapacidade de auto crítica
ver a si mesmo em relação com o outro e o mundo, antagonismo entre olhares
disposição de espírito e desejo de diferenciação, pertencimento demarcado
limitado por linhas de ação pertinentes ao quadro estrutural do olhar subjetivo
figuração, metáfora, alegoria, aforisma
nós que sustentam e fixam a linha entre tempo e espaços que nos constitui
a palavra nos atravessa, nos antecede em sua gramática, sintaxe e pragmática
suas mudanças e adaptações surgem de repente, quando de uma abertura
de olhar e braços para a situação, ou fenômeno da relação tempo espaço
que me remete diretamente à diferença entre útero e mundo
entre o mundo aquático, escuro e quente do ventre materno
e o mundo frio, asséptico e claro da realidade externa
do nascimento em hospital, de cesariana para não sentir dor
condição subjetiva desse processo de produção de olhares e estruturas singulares
incapacidade de experimentar a dor, o sofrimento
fuga em obsessões, fobias, quadros de ansiedade e depressão
abuso de álcool e outras drogas, lícitas ou ilícitas
vemos que os processos de subjetivação incidem diretamente sobre a saúde
mental ou orgânica, é claro, pois são uma só coisa, um ser
diferente do animal, que vive a plena racionalidade e integração sustentável com o meio
o ser humano depende de sua irracionalidade para alavancar tais processos
mexer com as rodas do sistema operacional
rever pontos de ligação, de fixação, mudar de posição e ver de outros ângulos
uma experiência única do fenômeno que se localiza num tempo espaço
num dentro e fora sem fronteiras
um grande fosso de onde sobem as labaredas e o o aço que constitui a palavra
derretido e fundido, carrega significados e recordações, lembranças
de um tempo espaço outro, deslocado, inserido num histórico banco de dados
acordar outra vez, de novo e de novo, e outra vez ainda mais
falar uma, duas, três vezes a mesma coisa, ou tudo diferente
acordar para esta fala e o que ela carrega de significado e memória de um recado
o dia claro e ensolarado de domingo compõe a perfeita paisagem
junto com o vento calmo e frio do inverno carioca
estamos em um lugar, isso é certo
durante um certo tempo, isso também nos é dado
estamos, portanto, num tempo espaço definido por leis e processos
alheios à vontade ou ao desejo, sistemas operacionais de controle e vigilância
saber poder de práticas de dominação, que capturam o sujeito
sua existência no ambiente e consequente interação com seus elementos
uma realidade perdida e impraticável, suja em sua origem, de direito e moral
linhas que separam campos e estradas, calçadas e viadutos
edifícios, casas e vilas, repertório imaginário e fantástico de um mundo de outrora
tempos e espaços passados, sonhados, imaginados com perfeição
ajustada ao desejo e à incapacidade de auto crítica
ver a si mesmo em relação com o outro e o mundo, antagonismo entre olhares
disposição de espírito e desejo de diferenciação, pertencimento demarcado
limitado por linhas de ação pertinentes ao quadro estrutural do olhar subjetivo
figuração, metáfora, alegoria, aforisma
nós que sustentam e fixam a linha entre tempo e espaços que nos constitui
a palavra nos atravessa, nos antecede em sua gramática, sintaxe e pragmática
suas mudanças e adaptações surgem de repente, quando de uma abertura
de olhar e braços para a situação, ou fenômeno da relação tempo espaço
que me remete diretamente à diferença entre útero e mundo
entre o mundo aquático, escuro e quente do ventre materno
e o mundo frio, asséptico e claro da realidade externa
do nascimento em hospital, de cesariana para não sentir dor
condição subjetiva desse processo de produção de olhares e estruturas singulares
incapacidade de experimentar a dor, o sofrimento
fuga em obsessões, fobias, quadros de ansiedade e depressão
abuso de álcool e outras drogas, lícitas ou ilícitas
vemos que os processos de subjetivação incidem diretamente sobre a saúde
mental ou orgânica, é claro, pois são uma só coisa, um ser
diferente do animal, que vive a plena racionalidade e integração sustentável com o meio
o ser humano depende de sua irracionalidade para alavancar tais processos
mexer com as rodas do sistema operacional
rever pontos de ligação, de fixação, mudar de posição e ver de outros ângulos
uma experiência única do fenômeno que se localiza num tempo espaço
num dentro e fora sem fronteiras
um grande fosso de onde sobem as labaredas e o o aço que constitui a palavra
derretido e fundido, carrega significados e recordações, lembranças
de um tempo espaço outro, deslocado, inserido num histórico banco de dados
acordar outra vez, de novo e de novo, e outra vez ainda mais
falar uma, duas, três vezes a mesma coisa, ou tudo diferente
acordar para esta fala e o que ela carrega de significado e memória de um recado
Tuesday, September 06, 2005
Substância
em todo fato, e ato, e palavra, e gesto há isso que podemos chamar de simbólico
que nos atravessa com suas normas e leis, insípidas regras sociais e de conduta
permanência absurda em um momento infinito de tristeza e lágrimas, choro e devaneio
um presente nos é dado com a consciência disso que nos constitui enquanto seres
vivos, vegetais, minerais, animais e humanos
perdidos na selva de pedra e asfalto, tráfico e morte, trabalho e amor
tal inscrição no simbólico nos permite acessar um mínimo do que é inconsciente
determinado e determinante de circunstâncias repentinas e acontecimentos aleatórios
uma tal inscrição é cultural e subjetiva com possibilidades infinitas de ampliação
de escopos diferenciados, justificados e operantes em leis próprias da cultura
da substância que nos entranha e mortifica nossa existência em pedaços e lampejos
brilhos e azulejos marcados por essa fissura na barreira que nos protege
como acesso direto e ilimitado à fonte disso que constitui a palavra e o enigma
diferença entre sexos e hostilidade ao estranho
tendência a fixar-se e enrigecer tecidos esquecidos no processo de inscrição
a permanência e constância desses processos alimenta isso mesmo que dizemos
a substância da palavra está deslocada em seu efeito enquanto símbolo ou metáfora
de um sonho ou vislumbre ou delírio que nos seja dado
porém manifesta e condensada naquilo que expressa
afetos, sentimentos, percepções, pensamentos, humores, vontades e desejos
falsas ligações e perda contínua de elementos essenciais para o contato
entre eu e o mundo
pontes circunstanciais e repentinas de tropeços e acertos de uma comédia romântica
personificada em fatos reais e fictícios de uma mente sem lembranças
um porvenir infindável e abertura de horizontes morfológicos e sintáticos
prudência e ritmo, paciência e bom humor
agressividade e temperança, resistência e força
elementos organizativos de um sistema tradutor de signos e sinais culturais e linguísticos
comportamentos e desvios de pensar próprios de cada época
cada partido, cada partícula, que se mexe e transforma
um ambiente em ecossistema
um espaço em habitação
um local em moradia
uma caixa em recordação
são muitas as maneiras de materializar tal substância da palavra
em quadros e recintos dourados, cobertos de história e dilema
em esculturas e corpos, danças e músicas
ciência e arte em suas formas mais diversas e misturadas
pois tudo é um só, ramificado em centenas de milhares de conexões
de potenciais de ação que procuram loucamente por seus pares em forma de anacronismo
pentagrama de oposições perfeitas e sistemáticas que incide sobre a decisão
de si em relação ao outro mundo que te obriga a permanecer e sustentar teu lugar
uma briga de interesses e poder pela palavra e certeza de saber que sua substância
está bem guardada em fundos de petróleo e ouro, diamantes e pérolas
contadas em velhas histórias as quais não escutamos mais
um jogo rápido e violento de competição e progresso, ambição, vaidade
pelo excesso de informação, de imagens e reportagens vinculadas
formadores de opinião, entre meios de comunicação em massa e construção do mundo
de um olhar sobre o mundo e si mesmo
em relação aos outros ao mundo a si mesmo
escapar das leis da física clássica, que nos rege até mesmo em pensamentos
ação e reação por caos e relatividade
mecânica por quântica
explosiva por atômica
explosões de significados e fissuras em novos cristais de porcelana intactos
prontos a nascer e povoar a paisagem com seus lindos carros voadores
cidades suspensas e subterrâneas, em céus e cavernas, sólido ou líqüido
permanece a substância disso que ousamos chamar deum verso simbólico
que nos atravessa com suas normas e leis, insípidas regras sociais e de conduta
permanência absurda em um momento infinito de tristeza e lágrimas, choro e devaneio
um presente nos é dado com a consciência disso que nos constitui enquanto seres
vivos, vegetais, minerais, animais e humanos
perdidos na selva de pedra e asfalto, tráfico e morte, trabalho e amor
tal inscrição no simbólico nos permite acessar um mínimo do que é inconsciente
determinado e determinante de circunstâncias repentinas e acontecimentos aleatórios
uma tal inscrição é cultural e subjetiva com possibilidades infinitas de ampliação
de escopos diferenciados, justificados e operantes em leis próprias da cultura
da substância que nos entranha e mortifica nossa existência em pedaços e lampejos
brilhos e azulejos marcados por essa fissura na barreira que nos protege
como acesso direto e ilimitado à fonte disso que constitui a palavra e o enigma
diferença entre sexos e hostilidade ao estranho
tendência a fixar-se e enrigecer tecidos esquecidos no processo de inscrição
a permanência e constância desses processos alimenta isso mesmo que dizemos
a substância da palavra está deslocada em seu efeito enquanto símbolo ou metáfora
de um sonho ou vislumbre ou delírio que nos seja dado
porém manifesta e condensada naquilo que expressa
afetos, sentimentos, percepções, pensamentos, humores, vontades e desejos
falsas ligações e perda contínua de elementos essenciais para o contato
entre eu e o mundo
pontes circunstanciais e repentinas de tropeços e acertos de uma comédia romântica
personificada em fatos reais e fictícios de uma mente sem lembranças
um porvenir infindável e abertura de horizontes morfológicos e sintáticos
prudência e ritmo, paciência e bom humor
agressividade e temperança, resistência e força
elementos organizativos de um sistema tradutor de signos e sinais culturais e linguísticos
comportamentos e desvios de pensar próprios de cada época
cada partido, cada partícula, que se mexe e transforma
um ambiente em ecossistema
um espaço em habitação
um local em moradia
uma caixa em recordação
são muitas as maneiras de materializar tal substância da palavra
em quadros e recintos dourados, cobertos de história e dilema
em esculturas e corpos, danças e músicas
ciência e arte em suas formas mais diversas e misturadas
pois tudo é um só, ramificado em centenas de milhares de conexões
de potenciais de ação que procuram loucamente por seus pares em forma de anacronismo
pentagrama de oposições perfeitas e sistemáticas que incide sobre a decisão
de si em relação ao outro mundo que te obriga a permanecer e sustentar teu lugar
uma briga de interesses e poder pela palavra e certeza de saber que sua substância
está bem guardada em fundos de petróleo e ouro, diamantes e pérolas
contadas em velhas histórias as quais não escutamos mais
um jogo rápido e violento de competição e progresso, ambição, vaidade
pelo excesso de informação, de imagens e reportagens vinculadas
formadores de opinião, entre meios de comunicação em massa e construção do mundo
de um olhar sobre o mundo e si mesmo
em relação aos outros ao mundo a si mesmo
escapar das leis da física clássica, que nos rege até mesmo em pensamentos
ação e reação por caos e relatividade
mecânica por quântica
explosiva por atômica
explosões de significados e fissuras em novos cristais de porcelana intactos
prontos a nascer e povoar a paisagem com seus lindos carros voadores
cidades suspensas e subterrâneas, em céus e cavernas, sólido ou líqüido
permanece a substância disso que ousamos chamar deum verso simbólico
Saturday, August 13, 2005
sensação-percepção
naquilo que trafego, borda
insuportável da ausência sua
num tempo espaço infinito
onde nem a lua se esconde
e o anjo se revela a mim, limite
da solidão profunda, infantil
da completude imensa do amor
sensação-percepção de horizontes
linhas e volumes, formas e conteúdos
peso e consistência, nas bordas
do real, lá e aqui, na entrega e na dor
na beleza da memória, fotos-palavras
na sensação viva do reencontro
do reconhecimento, palavras-gestos
naquilo que chamo de limite
-horizonte
navegamos e dançamos juntos
em mares tempestuosos e calmos
caminhamos, subimos e descemos
dormimos e comemos, sorrimos
abrimos caminhos e sentidos
toques e olhares, beijos escondidos
suores e lágrimas, peitos ardidos
em chamas de um amor crescente
de uma admiração mútua e apaixonamento
surpresas e impulsos de almas expulsas
de seus corpos, conversando
em diálogos inauditos entre olhares
nas bordas das ondas e desejos
anseios e manifestações delirantes
num ponto distante no céu
entre a lua e seus olhares
entre o espaço-mundo existente
em nossos olhares-corpos-realidades
prementes e dispostos
ávidos e loucos, um pelo outro
em cachos e chamas
delírios e sambas, lapa e santa teresa
e tantos outros trens por aí
barcos a navegar
carros a dirigir e praias a visitar
acampar em diversos campos
e sempre no mesmo horizonte-mar
infinito do amor que sinto
da gata que anseio dia-e-noite
incompletas e ausentes
de sentido e propósito
sensação-percepção-delirante-amorosa
insuportável da ausência sua
num tempo espaço infinito
onde nem a lua se esconde
e o anjo se revela a mim, limite
da solidão profunda, infantil
da completude imensa do amor
sensação-percepção de horizontes
linhas e volumes, formas e conteúdos
peso e consistência, nas bordas
do real, lá e aqui, na entrega e na dor
na beleza da memória, fotos-palavras
na sensação viva do reencontro
do reconhecimento, palavras-gestos
naquilo que chamo de limite
-horizontenavegamos e dançamos juntos
em mares tempestuosos e calmos
caminhamos, subimos e descemos
dormimos e comemos, sorrimos
abrimos caminhos e sentidos
toques e olhares, beijos escondidos
suores e lágrimas, peitos ardidos
em chamas de um amor crescente
de uma admiração mútua e apaixonamento
surpresas e impulsos de almas expulsas
de seus corpos, conversando
em diálogos inauditos entre olhares
nas bordas das ondas e desejos
anseios e manifestações delirantes
num ponto distante no céu
entre a lua e seus olhares
entre o espaço-mundo existente
em nossos olhares-corpos-realidades
prementes e dispostos
ávidos e loucos, um pelo outro
em cachos e chamas
delírios e sambas, lapa e santa teresa
e tantos outros trens por aí
barcos a navegar
carros a dirigir e praias a visitar
acampar em diversos campos
e sempre no mesmo horizonte-mar
infinito do amor que sinto
da gata que anseio dia-e-noite
incompletas e ausentes
de sentido e propósito
sensação-percepção-delirante-amorosa
Sunday, July 17, 2005
Amor e Dor.
Sobre isso que acontece com todos nós quando estamos apaixonados, envolvidos e seduzidos por um certo brilho no ar. O que conseguimos tirar, com um mínimo prazer em descarregar as forças internas, do meio e do outro que nos rodeia. Um mundo de fantasia e enigmático. Um labirinto de forças e vetores que conduzem o desejo no lastro do anonimato e da falta de sentido da vida. Uma barreira intransponível que separa-me do mundo e do outro, permitindo-me refletir e arranjar uma fluência com o outro que me constitui. Diferença e culpa. Raiva e simpatia. Quadro repleto de idéias e experiências, imagens recordadas, vozes escutadas, corpos tocados. O cheiro e o olhar daqueles que estão próximos. Demais para perceberem seus próprios enigmas. Descobrem-se frente à imagem absoluta da morte. Da ausência de sentido, do ganho de consciência da produção de pensamentos e comportamentos ditados por uma ordem mundial. Somos apenas joguetes mormente à condução de nossos próprios sentidos. Alienados em sintonia com satélites de informação, codificados e significados dentro de um sistema de signos e estruturas de subjetivação. Perto demais do vértice entre a realidade externa e interna. Um apêndice na gramática subjetiva, que reduz a experiência ao fenômeno de sua representação.
As demandas de amor e de dor estão entrelaçadas neste sistema. Como binômio da experiência afetiva, amor e dor significam preto e branco em experiências visuais. A diferença e complementaridade típica dos sentimentos de prazer e desprazer. A economia desregula seus padrões de demanda, criando condições de impossibilidade no enlace entre sujeito e alteridade. A experiência da diferença é significada de inúmeras formas ao longo de nossa história, pelo menos ocidental. Essa diferença que se apresenta nos costumes, nas vestes, nos traços, na intensidade do olhar. Molécula do amor, do apaixonamento, do encantamento. Devaneio sobre esse momento em particular daquilo que chamo de nível de identificação, que variam de acordo com o segmento corporal. O que, por sua vez, determina um tipo de gozo, um circuito sintomático entre amor e dor, que os torna inseparáveis. Entrelaçamento de conexões e preconceitos que dificultam o gozo polimorfo. Aliás, se segmentarmos o gozo em suas formas, estaremos aí diante de um enigma, ou encruzilhada. Romântico, intenso, apaixonado, carinhoso, tenro, firme, gentil, seguro, etc. É, portanto, nessa trilha de palavras e conceitos baseados na experiência subjetiva do amor e da dor, que o enigma se apresenta de forma clara e perspicaz. Na própria linguagem, no discurso sobre as formas de gozo, que evidencia-se a ação da reflexão sobre a idéia representada daquela experiência primordial do vínculo antagônico entre eu e o outro.
A - M - O - R - D - O - R - A - D - O - R - A - R - D - O - R - A - D - O - R - A - R
As demandas de amor e de dor estão entrelaçadas neste sistema. Como binômio da experiência afetiva, amor e dor significam preto e branco em experiências visuais. A diferença e complementaridade típica dos sentimentos de prazer e desprazer. A economia desregula seus padrões de demanda, criando condições de impossibilidade no enlace entre sujeito e alteridade. A experiência da diferença é significada de inúmeras formas ao longo de nossa história, pelo menos ocidental. Essa diferença que se apresenta nos costumes, nas vestes, nos traços, na intensidade do olhar. Molécula do amor, do apaixonamento, do encantamento. Devaneio sobre esse momento em particular daquilo que chamo de nível de identificação, que variam de acordo com o segmento corporal. O que, por sua vez, determina um tipo de gozo, um circuito sintomático entre amor e dor, que os torna inseparáveis. Entrelaçamento de conexões e preconceitos que dificultam o gozo polimorfo. Aliás, se segmentarmos o gozo em suas formas, estaremos aí diante de um enigma, ou encruzilhada. Romântico, intenso, apaixonado, carinhoso, tenro, firme, gentil, seguro, etc. É, portanto, nessa trilha de palavras e conceitos baseados na experiência subjetiva do amor e da dor, que o enigma se apresenta de forma clara e perspicaz. Na própria linguagem, no discurso sobre as formas de gozo, que evidencia-se a ação da reflexão sobre a idéia representada daquela experiência primordial do vínculo antagônico entre eu e o outro.
A - M - O - R - D - O - R - A - D - O - R - A - R - D - O - R - A - D - O - R - A - R
Thursday, July 14, 2005
Ressonância
O espaço aberto e escuro da noite abriga diferentes personagens em suas histórias particulares.
O sujeito sozinho que caminha e fala sozinho. Repara as estrelas, sente a brisa fria do inverno, espanta-se com a grandeza do ambiente e emociona-se com a lua crescente brilhando no céu azul escuro.
O cachorro que o acompanha, sente seu cheiro e lambe sua canela. Senta-se ao lado do sujeito, repara a noite, olha seu dono, levanta-se e caminha para deitar-se mas afastado. Respira profundamente, ao mesmo tempo que o sujeito acende um cigarro.
O ponto laranja ilumina fragmentos do rosto e da mão dele. A fumaça desenha espíritos no vazio do espaço. Preenche seu interior e sai levada pelo vento até se dissiparem.
Permanece em pé, apoiado sobre a perna esquerda. Braços cruzados e olhar distraído.
Sente o passar do tempo e contempla a paisagem.
De repente, escuta o assobio mágico do morcego. Seu som provoca vibrações nas árvores, na construção e no sujeito, que retornam ao animal em imagens e sensações.
Sua plasticidade e leveza o levam pelo ar através da fumaça respirada pelo sujeito. Percebe o calor da chama e aproxima-se de maneira arrojada.
O sujeito não se mexe, observando o balanço do animal e sua ousadia em busca de alimento. Reconhecimento acústico. Reverberações. Repercussões. Ressonância.
O sujeito sozinho que caminha e fala sozinho. Repara as estrelas, sente a brisa fria do inverno, espanta-se com a grandeza do ambiente e emociona-se com a lua crescente brilhando no céu azul escuro.
O cachorro que o acompanha, sente seu cheiro e lambe sua canela. Senta-se ao lado do sujeito, repara a noite, olha seu dono, levanta-se e caminha para deitar-se mas afastado. Respira profundamente, ao mesmo tempo que o sujeito acende um cigarro.
O ponto laranja ilumina fragmentos do rosto e da mão dele. A fumaça desenha espíritos no vazio do espaço. Preenche seu interior e sai levada pelo vento até se dissiparem.
Permanece em pé, apoiado sobre a perna esquerda. Braços cruzados e olhar distraído.
Sente o passar do tempo e contempla a paisagem.
De repente, escuta o assobio mágico do morcego. Seu som provoca vibrações nas árvores, na construção e no sujeito, que retornam ao animal em imagens e sensações.
Sua plasticidade e leveza o levam pelo ar através da fumaça respirada pelo sujeito. Percebe o calor da chama e aproxima-se de maneira arrojada.
O sujeito não se mexe, observando o balanço do animal e sua ousadia em busca de alimento. Reconhecimento acústico. Reverberações. Repercussões. Ressonância.
Thursday, July 07, 2005
Investimento
O que suscita a imagem e irrompe em ato
energia suspensa, em anteparos virtuais
conjugados numa só matéria, um só corpo
uma direção e um objetivo
perambular enquanto morto vivo
vivendo de sonhos e fantasias
ar que infla os peitos
levanta as pernas e põe-se a correr
nas orelhas de livros, em estantes
de madeira tratada, largadas
orientadas num sentido único
atravessar a parede que se interpõe
romper com os paradigmas daqueles que pensam
que acreditam saber
dominar algo que seja dito de uma consciência
invadir a inconsciência, inconsistente relâmpago de fogo
consome o ar e brilha no escuro da noite
de um só movimento, transforma o ambiente
ilumina o caminho daqueles que passam
não sou um desses que deseja permanecer
o rio é constante e ininterrupto
basta acuidade suficiente para vê-lo
límpido correr de águas
pedras e seixos, cascalho e cachoeira
ventos frios e nuvens de mosquito
corridas e amor, experiências e vida
corre água, corre
leva contigo o investimento
a fantasia do olhar
a tristeza do pesar que reside em teu rosto
choras à vontade, gritas pelas corredeiras
ensurdece e amedronta
vai água, doce queimada
escorre lentamente
pelas telhas e paredes de pau a pique
de lama e bambu
sente o cheiro da terra molhada
a terra respira lentamente
desconta em nós,
o que desconfiamos
de uma lembrança traumática
de um sentimento de impotência
investe de si mesma, água rás
queima contigo os vermes do banheiro
do baú de fotografias
das lembranças escondidas
no porão do esquecimento
no correr dos dias lentos
demorados, pesados, passados
energia suspensa, em anteparos virtuais
conjugados numa só matéria, um só corpo
uma direção e um objetivo
perambular enquanto morto vivo
vivendo de sonhos e fantasias
ar que infla os peitos
levanta as pernas e põe-se a correr
nas orelhas de livros, em estantes
de madeira tratada, largadas
orientadas num sentido único
atravessar a parede que se interpõe
romper com os paradigmas daqueles que pensam
que acreditam saber
dominar algo que seja dito de uma consciência
invadir a inconsciência, inconsistente relâmpago de fogo
consome o ar e brilha no escuro da noite
de um só movimento, transforma o ambiente
ilumina o caminho daqueles que passam
não sou um desses que deseja permanecer
o rio é constante e ininterrupto
basta acuidade suficiente para vê-lo
límpido correr de águas
pedras e seixos, cascalho e cachoeira
ventos frios e nuvens de mosquito
corridas e amor, experiências e vida
corre água, corre
leva contigo o investimento
a fantasia do olhar
a tristeza do pesar que reside em teu rosto
choras à vontade, gritas pelas corredeiras
ensurdece e amedronta
vai água, doce queimada
escorre lentamente
pelas telhas e paredes de pau a pique
de lama e bambu
sente o cheiro da terra molhada
a terra respira lentamente
desconta em nós,
o que desconfiamos
de uma lembrança traumática
de um sentimento de impotência
investe de si mesma, água rás
queima contigo os vermes do banheiro
do baú de fotografias
das lembranças escondidas
no porão do esquecimento
no correr dos dias lentos
demorados, pesados, passados
Tuesday, July 05, 2005
Sujeito barrado
A lógica lacaniana nos coloca o problema do recalcamento como significante de uma marca que opera sobre o sujeito uma barragem cultural e simbólica.
O significante da lei, o nome-do-pai, elemento essencial para o entendimento da castração e sua influência sobre os processos psíquicos em diferentes estruturas diagnósticas.
Certamente, a estrutura que se nos apresenta é a perversão. As modalidades de gozo transgridem sem reparar a lógica do recalcamento. Forma de expressão fetichista, na qual o sujeito barrado, em seu transbordamento desejante, rompe o contrato social através de atos e idéias perversas.
Num mundo com limites cada vez mais tênues e práticas disciplinares de controle sutis e vigilantes daquilo que, de alguma forma, se mantém no laço social. Inscrição necessária para a própria elaboração do problema. Exercício de dominação através de processos culturais de exclusão e seleção de perfis psicossociais.
Homogeneização da população, após Foucault e Derrida, que tão bem descreveram a função dos mecanismos de poder-saber envolvidos no processo de subjetivação e construção sócio-histórica de sujeitos e normas culturais.
O significante da lei, o nome-do-pai, elemento essencial para o entendimento da castração e sua influência sobre os processos psíquicos em diferentes estruturas diagnósticas.
Certamente, a estrutura que se nos apresenta é a perversão. As modalidades de gozo transgridem sem reparar a lógica do recalcamento. Forma de expressão fetichista, na qual o sujeito barrado, em seu transbordamento desejante, rompe o contrato social através de atos e idéias perversas.
Num mundo com limites cada vez mais tênues e práticas disciplinares de controle sutis e vigilantes daquilo que, de alguma forma, se mantém no laço social. Inscrição necessária para a própria elaboração do problema. Exercício de dominação através de processos culturais de exclusão e seleção de perfis psicossociais.
Homogeneização da população, após Foucault e Derrida, que tão bem descreveram a função dos mecanismos de poder-saber envolvidos no processo de subjetivação e construção sócio-histórica de sujeitos e normas culturais.
Wednesday, June 29, 2005
Distância
Os momentos se alongam, extendem-se, detêm-se, preenchem um tempo espaço subjetivo.
Momentos irreais, fantásticos e apaixonados.
Quebra do espelho, descobrimento da falta, transbordamento do desejo.
Molduras, frames descolados, deslocados, fragmentados.
Composição de uma estrutura subjetiva em constante processo de produção.
Jogo de palavras, de ciladas, armadilhas vindas do pensamento.
Enfraquecimento do sensório em detrimento do cognitivo.
Capacidades e habilidades necessárias para funcionar na máquina social.
Que se torna o sujeito, em intrínsecas ligações com o território em que vive.
Perspectivas alucinadas, barreiras intransponíveis.
Soluções fantasmagóricas, repletas de simbolismo e agressividade.
Explosão, implosão.
Sistemas alienados, perplexos diante da complexidade.
Sem método, alheios às práticas de dominação e exercício do poder.
Inconscientes, inconsistentes, processos de significação do mundo e do sujeito.
Buraco inalienável.
Momentos irreais, fantásticos e apaixonados.
Quebra do espelho, descobrimento da falta, transbordamento do desejo.
Molduras, frames descolados, deslocados, fragmentados.
Composição de uma estrutura subjetiva em constante processo de produção.
Jogo de palavras, de ciladas, armadilhas vindas do pensamento.
Enfraquecimento do sensório em detrimento do cognitivo.
Capacidades e habilidades necessárias para funcionar na máquina social.
Que se torna o sujeito, em intrínsecas ligações com o território em que vive.
Perspectivas alucinadas, barreiras intransponíveis.
Soluções fantasmagóricas, repletas de simbolismo e agressividade.
Explosão, implosão.
Sistemas alienados, perplexos diante da complexidade.
Sem método, alheios às práticas de dominação e exercício do poder.
Inconscientes, inconsistentes, processos de significação do mundo e do sujeito.
Buraco inalienável.
Sunday, June 12, 2005
Entre olhares
Aqui estou novamente após longo período de reclusão e dedicação às coisas práticas da vida como trabalho e estudo. São tantas as idéias que tenho para esse espaço que por várias vezes me vi impotente diante da tela e do teclado. Agora, busco uma volta ao redor dessas idéias, para dialogar com um possível leitor sobre a singularidade do olhar.
Para muitos olhar significa contemplar por alguns instantes um acontecimento ou um objeto que atrai a atenção. Sem interesse, nem resistência, ele se esvai. Sendo assim caracterizado como uma função menor do ato de ver. Porém, se há algo de uma diferença entre olhar, enxergar e ver, este reside na interpretação pessoal das palavras que constrôem a gramática do sujeito.
Minha intenção é tão-somente a de levantar questões sobre a função do olhar e seus efeitos sobre o sujeito. Tarefa, diga-se de passagem, tão árdua quanto diferenciar as palavras citadas acima. Mas, procurarei colocar minhas questões e torcer para que minhas palavras incidam sobre o leitor de maneira a recolocar o problema do olhar.
Digo problema uma vez que olhar desperta conceitos, idéias e juízos ligados aos primórdios da vida subjetiva. O primeiro contato entre duas pessoas se dá no olhar. Neste relance de corpos e histórias singulares. Olhar, nesse sentido, ultrapassa os arredores da gramática simplificada de nossas palavras. Olhar, portanto, define uma posição, uma falta e um desejo.
Claro está que olhar prediz interação, mesmo que fugaz, entre dois sujeitos. Pois aí habita a particularidade do olhar que trato nessas palavras. Primeiro contato entre duas pessoas, última lembrança de um enlace pueril, olhar nos remete à base de nossa história, assim como interage nossos corpos com outros corpos. Olhar dessa forma quer dizer estabelecer contato. Uma ligação, mesmo que rápida e incerta, entre duas histórias e dois corpos.
No decorrer de nossa formação, estruturamos caminhos e pontos de referência aos quais reportamo-nos em caso de atrito e confluência de desejos. Estabelecemos uma posição, suscinta e ineficaz diante da falta e da distância entre corpos. Mesma falta que precipita o desejo e coloca novamente o problema do olhar. Olhamos enquanto seres partidos, esburacados e fixados em modos ancestrais de operar a relação com o real.
Diálogo de fantasias, olhar traz consigo lembranças e expectativas. Olhar o outro é, em certa medida, olhar a si mesmo. Reparamos naquilo que admitimos como possível, ignorando tudo aquilo que não seja familiar. Ir contra esse movimento é tarefa árdua que pode ser trabalhada em análise ou em outra forma de auto conhecimento. Olhar desperta paixões e temores guardados nos confins de nossas histórias.
Muitas patologias encontram no olhar, ou na ausência dele, sua base explicativa. Portanto, olhar é primordial para a vida, tanto quanto comer ou dormir. Olhar significa estar aberto para o mundo e suas vicissitudes. Suportar a distância e a ausência de sentido predeterminado da vida, são funções construídas no olhar entre dois sujeitos.
É nesse encontro do olhar que deixo minhas marcas, minha presença-ausência de ser faltoso e desejante. Olhar é dirigir-se ao mundo, ao outro, ao desconhecido, ao além daquilo que conheço. Portanto, deixo aqui um olhar demorado e carinhoso para quem inclinou-se durante alguns instantes sobre minhas palavras.
Para muitos olhar significa contemplar por alguns instantes um acontecimento ou um objeto que atrai a atenção. Sem interesse, nem resistência, ele se esvai. Sendo assim caracterizado como uma função menor do ato de ver. Porém, se há algo de uma diferença entre olhar, enxergar e ver, este reside na interpretação pessoal das palavras que constrôem a gramática do sujeito.
Minha intenção é tão-somente a de levantar questões sobre a função do olhar e seus efeitos sobre o sujeito. Tarefa, diga-se de passagem, tão árdua quanto diferenciar as palavras citadas acima. Mas, procurarei colocar minhas questões e torcer para que minhas palavras incidam sobre o leitor de maneira a recolocar o problema do olhar.
Digo problema uma vez que olhar desperta conceitos, idéias e juízos ligados aos primórdios da vida subjetiva. O primeiro contato entre duas pessoas se dá no olhar. Neste relance de corpos e histórias singulares. Olhar, nesse sentido, ultrapassa os arredores da gramática simplificada de nossas palavras. Olhar, portanto, define uma posição, uma falta e um desejo.
Claro está que olhar prediz interação, mesmo que fugaz, entre dois sujeitos. Pois aí habita a particularidade do olhar que trato nessas palavras. Primeiro contato entre duas pessoas, última lembrança de um enlace pueril, olhar nos remete à base de nossa história, assim como interage nossos corpos com outros corpos. Olhar dessa forma quer dizer estabelecer contato. Uma ligação, mesmo que rápida e incerta, entre duas histórias e dois corpos.
No decorrer de nossa formação, estruturamos caminhos e pontos de referência aos quais reportamo-nos em caso de atrito e confluência de desejos. Estabelecemos uma posição, suscinta e ineficaz diante da falta e da distância entre corpos. Mesma falta que precipita o desejo e coloca novamente o problema do olhar. Olhamos enquanto seres partidos, esburacados e fixados em modos ancestrais de operar a relação com o real.
Diálogo de fantasias, olhar traz consigo lembranças e expectativas. Olhar o outro é, em certa medida, olhar a si mesmo. Reparamos naquilo que admitimos como possível, ignorando tudo aquilo que não seja familiar. Ir contra esse movimento é tarefa árdua que pode ser trabalhada em análise ou em outra forma de auto conhecimento. Olhar desperta paixões e temores guardados nos confins de nossas histórias.
Muitas patologias encontram no olhar, ou na ausência dele, sua base explicativa. Portanto, olhar é primordial para a vida, tanto quanto comer ou dormir. Olhar significa estar aberto para o mundo e suas vicissitudes. Suportar a distância e a ausência de sentido predeterminado da vida, são funções construídas no olhar entre dois sujeitos.
É nesse encontro do olhar que deixo minhas marcas, minha presença-ausência de ser faltoso e desejante. Olhar é dirigir-se ao mundo, ao outro, ao desconhecido, ao além daquilo que conheço. Portanto, deixo aqui um olhar demorado e carinhoso para quem inclinou-se durante alguns instantes sobre minhas palavras.
Sunday, May 22, 2005
Uma carta
Sem fôlego, com a boca seca e o estômago cheio
Respiro com dificuldades, sinto minha cabeça girar
Procuro um foco, um ponto para me fixar
Sinto vontade de vomitar
Meus ouvidos estão plugados na espinha dorsal
Não consigo evitar sentir espasmos e uma tonteira
Náusea do mundo, da vontade de viver, uma agonia intensa
Sorvi um último gole d'água, mais vomitaria
Procurava uma carta, um retrato, um postal, um selo
Escutava as tosses e as reclamações, uma vida desperdiçada
Fruto de uma geração? Escolha subjetiva? Imposição sócio familiar?
O que pensar?
No envelope que contém esta carta, este retrato, esse selo
Sua dimensão é mais ampla, tanto para conter o material do mundo
dos sentimentos e dos gestos, quanto para servir de moldura, de borda
possível dentro do impossível, vitorioso frente ao fracassso evidente
Que sejas.
Até a morte.
Respiro com dificuldades, sinto minha cabeça girar
Procuro um foco, um ponto para me fixar
Sinto vontade de vomitar
Meus ouvidos estão plugados na espinha dorsal
Não consigo evitar sentir espasmos e uma tonteira
Náusea do mundo, da vontade de viver, uma agonia intensa
Sorvi um último gole d'água, mais vomitaria
Procurava uma carta, um retrato, um postal, um selo
Escutava as tosses e as reclamações, uma vida desperdiçada
Fruto de uma geração? Escolha subjetiva? Imposição sócio familiar?
O que pensar?
No envelope que contém esta carta, este retrato, esse selo
Sua dimensão é mais ampla, tanto para conter o material do mundo
dos sentimentos e dos gestos, quanto para servir de moldura, de borda
possível dentro do impossível, vitorioso frente ao fracassso evidente
Que sejas.
Até a morte.
Friday, May 13, 2005
Luzes
Por aí vou andando
perambulando pelas ruas
adivinhando pensamentos e
intenções, vindas do céu
dos corpos em chamas
das vidas desperdiçadas
das cabeças desregradas
dos peitos dilacerados
das almas perturbadas
de um mundo refletido
Entre as luzes se esconde
a escuridão do real
inegável alienação
de si
do outro
do mundo
Do outro mundo
do outro lado do muro
presente em um olhar
desapercebido de alguém
encontrou seu outro lado
refletido ao contrário
ao inverso
ao avesso
De ponta cabeça
perdidas no ar
as luzes de um outro lar
Luzes que irrompem
verde adentro
azul acima
marrom abaixo
e todas as outras cores
brilham umas
outras mais intensas
Luzes vindas das estrelas
piscam sem parar
rarefeitas pela distância
pelo tempoespaço
Viajando por aí
observando o mundo
a mim e ao outro
perseguindo luzes
de um alvorecer inesquecível
Pouco a pouco
as estrelas somem
os raios se alastram
ocupando o tempoespaço
desfazendo e fazendo
fazendo e refazendo
virando e revirando
Numa elipse pisou
lembrado como um breve balanço
equilibrado num sistema
perambulando pelas ruas
adivinhando pensamentos e
intenções, vindas do céu
dos corpos em chamas
das vidas desperdiçadas
das cabeças desregradas
dos peitos dilacerados
das almas perturbadas
de um mundo refletido
Entre as luzes se esconde
a escuridão do real
inegável alienação
de si
do outro
do mundo
Do outro mundo
do outro lado do muro
presente em um olhar
desapercebido de alguém
encontrou seu outro lado
refletido ao contrário
ao inverso
ao avesso
De ponta cabeça
perdidas no ar
as luzes de um outro lar
Luzes que irrompem
verde adentro
azul acima
marrom abaixo
e todas as outras cores
brilham umas
outras mais intensas
Luzes vindas das estrelas
piscam sem parar
rarefeitas pela distância
pelo tempoespaço
Viajando por aí
observando o mundo
a mim e ao outro
perseguindo luzes
de um alvorecer inesquecível
Pouco a pouco
as estrelas somem
os raios se alastram
ocupando o tempoespaço
desfazendo e fazendo
fazendo e refazendo
virando e revirando
Numa elipse pisou
lembrado como um breve balanço
equilibrado num sistema
Wednesday, May 11, 2005
Horizonte perfeito
Na cadência das águas ao longo do mar, os olhos iam de encontro àquela linha ameaçadora e, ao mesmo tempo, profundamente apaziguadora. Como um resquício do paraíso, um lugar imaginado para repousar e revigorar a alma. Ah, se tão-somente nos bastasse um mergulho para alcançar esta linha, poderíamos fitar o mundo apoiados no horizonte além mar.
Um vôo e um assobiar de passarinhos, um vento frio e nuvens que circundam a montanha. Os últimos raios do sol deixam um rastro rosa claro na superfície opaca do céu branco acinzentado. Estava claro que passear no tempo sentado na linha do horizonte, observando atentamente o mundo e suas formas, era uma imagem esplêndida do desejo de isolamento. Percebendo ilhas de interação e o movimento contínuo da massa terrestre. Acompanhando o ciclo circadiano e as tempestades pelo mundo afora. Ciclones e tufões, maremotos, terremotos e terroristas. Tudo é real e ao vivo, transmitido via satélite ao redor do mundo.
Tragédias humanas e dramas pessoais. Experiências traumáticas e cadeia de significantes. Lembranças e memória interagem na construção de uma presente significação do mundo e de suas intemperanças.
Criando símbolos e desempenhando funções, ocupando espaços e remodelando a terra, o asfalto, o concreto. O bizarro.
Clonando células e desenvolvendo terapias genéticas. Investigação minuciosa dos genes e do genoma humano. Intervenção antes do nascimento. Prevenções e tratamentos numéricos. Análise combinatória de variáveis genéticas e ambientais que caracterizam um comportamento inaceitável, ou transgressor no seio de uma sociedade.
Pertencimento fechado a grupos e classes de indivíduos robotizados, adestrados ao trabalho ininterrupto, à dedicação total ao serviço da Lei, da ordem e do progresso.
Ideais e sonhos partidos. Realidade nua e crua.
Rações diárias de informação laboral. Conexão direta entre corpo e rede. Captação instantânea de dados e controle persecutório aos desviantes. A loucura está sendo domesticada e cada vez mais o potencial da genialidade disperso em grupos homogeneizados de atores. Máscaras para proteger a verdade subjetiva. Capa que acoberta um corpo nu, desprovido de defesas. Fantasia e desejo de conhecer. Poder avançar, caminhar sobre as águas até a linha do horizonte.
Um vôo e um assobiar de passarinhos, um vento frio e nuvens que circundam a montanha. Os últimos raios do sol deixam um rastro rosa claro na superfície opaca do céu branco acinzentado. Estava claro que passear no tempo sentado na linha do horizonte, observando atentamente o mundo e suas formas, era uma imagem esplêndida do desejo de isolamento. Percebendo ilhas de interação e o movimento contínuo da massa terrestre. Acompanhando o ciclo circadiano e as tempestades pelo mundo afora. Ciclones e tufões, maremotos, terremotos e terroristas. Tudo é real e ao vivo, transmitido via satélite ao redor do mundo.
Tragédias humanas e dramas pessoais. Experiências traumáticas e cadeia de significantes. Lembranças e memória interagem na construção de uma presente significação do mundo e de suas intemperanças.
Criando símbolos e desempenhando funções, ocupando espaços e remodelando a terra, o asfalto, o concreto. O bizarro.
Clonando células e desenvolvendo terapias genéticas. Investigação minuciosa dos genes e do genoma humano. Intervenção antes do nascimento. Prevenções e tratamentos numéricos. Análise combinatória de variáveis genéticas e ambientais que caracterizam um comportamento inaceitável, ou transgressor no seio de uma sociedade.
Pertencimento fechado a grupos e classes de indivíduos robotizados, adestrados ao trabalho ininterrupto, à dedicação total ao serviço da Lei, da ordem e do progresso.
Ideais e sonhos partidos. Realidade nua e crua.
Rações diárias de informação laboral. Conexão direta entre corpo e rede. Captação instantânea de dados e controle persecutório aos desviantes. A loucura está sendo domesticada e cada vez mais o potencial da genialidade disperso em grupos homogeneizados de atores. Máscaras para proteger a verdade subjetiva. Capa que acoberta um corpo nu, desprovido de defesas. Fantasia e desejo de conhecer. Poder avançar, caminhar sobre as águas até a linha do horizonte.
Thursday, May 05, 2005
Tudo é história
Durante minha vida inteira, mesmo que tão jovem em idade, persegui sonhos e fantasias de uma vida alegre, instigante e movimentada. Hoje, apesar de algumas realizações pessoais, para mim, vividas prematuramente, percebo a descontinuidade de meu caminho. Comecei inúmeros projetos, embarquei em diversas áreas, mas não me aprofundei em nada, não dei uma direção ao meu trabalho de crescimento pessoal e profissional. Minha vida interior parece ter pouco mudado nós últimos anos.
Entretanto, percebo em outro ângulo meu processo de escolha e definição de objetivos. Muito mais reais e possíveis de serem atingidos. Um curso de aprendizado se seguiu e uma certa ordem pôde se estabelecer. Porém, agora, essa ordem não corresponde às necessidades internas de estipular outros objetivos e torná-los cada vez mais reais, realizáveis, realizados.
Reparo em duas variáveis que influenciam em grande medida meu estado de alma. O primeiro e, creio, o mais importante é o tempo. O segundo, porém, tão importante quanto o primeiro, é o espaço. Tempo e espaço. Tempo espaço. Espaço tempo. Temporal. Espacial. Espaço temporal, temporal do espaço. O arranjo desses significantes se multiplicam a medida em que distinguo ações em minha ossada mortal e mal diagramada. Travo intenso contato com as paredes do mundo real, inverto a lógica do pensamento dualista e causal, reinvento fórmulas de pensar e experimentar a realidade e o mundo anímico. Alço vôo sem pensar na descida. Não tenho os pés no chão. Voando constantemente pelos céus de brigadeiro dos meus sonhos, corro o risco de adoentar-me, de contrair uma praga moderna. A mistura de ansiedade e angústia, depressão e euforia, disforia e distorção, impermanência e estranha certeza. Linguajar forasteiro e imaginação estrangeira. Passagem de momentos de extrema dúvida e sofrimento, outros de asoluta certeza e gozo impossível.
Vejo portas e janelas se abrindo diariamente, mas meu tempo espaço interno não responde aos chamados do meio. Abrigo-me em casa e em redutos de amigos. Sinto pavor de multidões e prédios comerciais. A vida está na natureza e na fluidez da energia interpessoal.
Raros são os momentos de paz e equilíbrio dentro de mim. Sinto-me como uma folha que cai de seu galho seco. Perambula pelo ar por alguns instantes. Simula uma parada no ar, um balanço rítmico acompanha o coração, as últimas batidas. Finalmente, cai ao chão, encosta sua matéria no piso da laje, afasta-se de sua origem. Nova realidade, lixo criado, recurso ensanguentado. Renovação da vida pela morte. Caos e destruição. Ordem e transformação.
Ouvindo Gotan Project - La revancha del tango
Entretanto, percebo em outro ângulo meu processo de escolha e definição de objetivos. Muito mais reais e possíveis de serem atingidos. Um curso de aprendizado se seguiu e uma certa ordem pôde se estabelecer. Porém, agora, essa ordem não corresponde às necessidades internas de estipular outros objetivos e torná-los cada vez mais reais, realizáveis, realizados.
Reparo em duas variáveis que influenciam em grande medida meu estado de alma. O primeiro e, creio, o mais importante é o tempo. O segundo, porém, tão importante quanto o primeiro, é o espaço. Tempo e espaço. Tempo espaço. Espaço tempo. Temporal. Espacial. Espaço temporal, temporal do espaço. O arranjo desses significantes se multiplicam a medida em que distinguo ações em minha ossada mortal e mal diagramada. Travo intenso contato com as paredes do mundo real, inverto a lógica do pensamento dualista e causal, reinvento fórmulas de pensar e experimentar a realidade e o mundo anímico. Alço vôo sem pensar na descida. Não tenho os pés no chão. Voando constantemente pelos céus de brigadeiro dos meus sonhos, corro o risco de adoentar-me, de contrair uma praga moderna. A mistura de ansiedade e angústia, depressão e euforia, disforia e distorção, impermanência e estranha certeza. Linguajar forasteiro e imaginação estrangeira. Passagem de momentos de extrema dúvida e sofrimento, outros de asoluta certeza e gozo impossível.
Vejo portas e janelas se abrindo diariamente, mas meu tempo espaço interno não responde aos chamados do meio. Abrigo-me em casa e em redutos de amigos. Sinto pavor de multidões e prédios comerciais. A vida está na natureza e na fluidez da energia interpessoal.
Raros são os momentos de paz e equilíbrio dentro de mim. Sinto-me como uma folha que cai de seu galho seco. Perambula pelo ar por alguns instantes. Simula uma parada no ar, um balanço rítmico acompanha o coração, as últimas batidas. Finalmente, cai ao chão, encosta sua matéria no piso da laje, afasta-se de sua origem. Nova realidade, lixo criado, recurso ensanguentado. Renovação da vida pela morte. Caos e destruição. Ordem e transformação.
Ouvindo Gotan Project - La revancha del tango
Monday, April 25, 2005
Tanto tempo
Assim, leve e solto, o tempo passa e ao sujeito resta a escolha entre viver e viver. Como assim, viver? Ser no tempo, ser em intenção e engajamento, na erotização de idéias sublimadas. Cultura e vida em sociedade. Regras e valores compartilhados. Idéias sobre gênero, origem, experiência e existência. Fenômenos descritos, adscritos, prescritos por um suposto saber. Busca de títulos, aprofundamento de temas e estruturação de teoria. A lógica do saber institui-se sutilmente entre a construção da realidade subjetiva e a consciência da alteridade inexóravel do tempo. Conceito construído ao longo da estruturação social, com seus respectivos espaços e matérias, disciplinas e controle sob o mesmo teto. A diferença primordial do tempo subjetivo e do tempo cronológico se dá no próprio processo de estruturação de aspectos econômicos e dinâmicos do desejo subjetivo. A sociedade não é o reflexo do sujeito, ou do indivíduo. Este sim, muito mais suscetível à mudança que o meio, o sujeito estabelece defesas para se manter em equilíbrio com este outro. Um brinquedo, um brincar, um olhar, um trabalho, um objetivo. Um outro objetivo e onipresente. Perpétuo diálogo entre desejo e realidade. Ganhos e perdas. Frustrações e alegrias. "Encantos e desencantos do meu caminho". Experiência e aprendizado, desenvolvimento e produção. Obra de um ser desejante, que parte da crise para estabelecer novas normas de funcionamento, aprimorando habilidades e esquecendo outras. Construindo sua rede de contatos, fixações, referências entre pontos da história do sujeito enquanto ser social e urbano. Urbi et orbi. Túneis e trens, carros apressados, ônibus à toda. Barulho e medicância, vadiagem e tráfico. Juventude e infância ameaçadas. Vida arriscada entre prédios e academis de ginástica. Restaurantes e lanchonetes. Longa linha de decadência e corrupção de um povo por si mesmo. Por ser seu próprio chefe, por não cobrir as necessidades mais básicas para o crescimento de um ser criativo e capaz de alterar a determinação da cronologia enquanto inevitável fracasso da vida em sociedade. Engajado e presente o sujeito procura seu espaço, talvez vital. Cria parâmetros para avaliar os riscos e administrar as relações de custo e benefício que estabalece com tudo aquilo ao seu redor. Cabe a ele, ao sujeito de seu desejo, estipular as regras do jogo com a realidade e agir a partir da intencionalidade do ato. Apreendendo o ambiente como outro sujeito passível de mudanças e tão distante quanto o nosso próprio corpo. Da alienação de si e do outro, para a consciência de seu íntimo envolvimento com o meio objeto brinquedo.
Assim, leve e solto, tanto tempo é preciso para descrever sua condição inapreensível de uma realidade que dita as regras e nos coloca horários. Vida em sociedade, aqui vamos nós.
Assim, leve e solto, tanto tempo é preciso para descrever sua condição inapreensível de uma realidade que dita as regras e nos coloca horários. Vida em sociedade, aqui vamos nós.
Sunday, April 24, 2005
A perder de vista
Lugares horizontais, linhas verticais, charada descarada, enigma em suspenso.
Presas simples, compridas, afiadas. Horizontes a perder de vista, florestas cobertas de limo.
Passos decididos, olhares compridos, respiração ofegante, limiar da consciência.
Limites e fronteiras a perder de vista.
Palavras perdidas no calabouço da memória, marcas de uma escolha inconsciente.
Frases a perder de vista, experiência da presença viva do outro, um corpo, um olho.
Sentimentos, pensamento e imaginação.
Imagens torcidas, realidades distorcidas, verdades inauditas.
Acordos e contratos, culpa e compromisso.
Neurose e histeria coletivas. Psicose e esquizofrenia sociais.
Perambulo entre linhas e espaços, dedicatórias e lembretes, avisos e tarefas.
Linha mágica do tempo espaço, circunscrevendo histórias e desejos.
Lembranças e recordações de uma vida passada ao relento da madrugada estrelada.
Vento e chuva, assoalho molhado, pingos do teto, suor escorrendo nos olhos.
Sobra de pão, presunto e queijo. Vinho quente e chão encharcado.
Janelas e portas entreabertas.
Fogo e água em eterna batalha queimam aqui dentro, perto do estômago.
Presas simples, compridas, afiadas. Horizontes a perder de vista, florestas cobertas de limo.
Passos decididos, olhares compridos, respiração ofegante, limiar da consciência.
Limites e fronteiras a perder de vista.
Palavras perdidas no calabouço da memória, marcas de uma escolha inconsciente.
Frases a perder de vista, experiência da presença viva do outro, um corpo, um olho.
Sentimentos, pensamento e imaginação.
Imagens torcidas, realidades distorcidas, verdades inauditas.
Acordos e contratos, culpa e compromisso.
Neurose e histeria coletivas. Psicose e esquizofrenia sociais.
Perambulo entre linhas e espaços, dedicatórias e lembretes, avisos e tarefas.
Linha mágica do tempo espaço, circunscrevendo histórias e desejos.
Lembranças e recordações de uma vida passada ao relento da madrugada estrelada.
Vento e chuva, assoalho molhado, pingos do teto, suor escorrendo nos olhos.
Sobra de pão, presunto e queijo. Vinho quente e chão encharcado.
Janelas e portas entreabertas.
Fogo e água em eterna batalha queimam aqui dentro, perto do estômago.
Friday, April 15, 2005
Caminhar junto
Talvez a forma mais precisa de arrematar as palavras no sentido de uma síntese e uma atualização constantes seja explorar um assunto de maneira simples e direta, preservando o objetivo e aprimorando o subjetivo. Num eterno diálogo de criação de uma linguagem universal e uma particular. Uma palavra e uma escuta que dependem do posicionamento no mundo, de um pertencimento ao movimento que nos cerca. Percepção e sensível em paradoxo, em perpétua organização de modos de ser. Mundos-imagem, representação e empírico hipertrofiados impedem o contato com o tempo subjetivo, com a presença viva do outro. Num simples caminhar junto.
Momento em que nos deparamos com uma situação análoga, porém banal e desprovida de uma leitura mais profunda. Quando olhamos mais de perto o caminhar e o vínculo entre corpos-almas que aí se estabelece, atentamos num primeiro e sucinto olhar, para a tensão como efeito do próprio vínculo, da dependência do outro e da relutante entrega ao impossível da relacão sexual.
Recalque e identificação funcionam na mesma medida, enquanto interagem para manter o ser ligado ao mundo, aos seus conceitos e valores, regras e ditames morais. Porém, num caminhar junto todas as regras e crenças parecem cair diante do real do contato, do encontro entre corpos-almas. Este vínculo se estabelece sobre diferentes parâmetros de subjetivação, ou seja, sobre diferentes estruturas de funcionamento dos aparelhos psíquico e somático, acoplando-se em sintonia com um sintoma e uma potência, um campo de força.
Num caminhar junto sentimos este campo de força atuante e oscilando entre passos compartilhados. Caminhar junto significa entrelaçar-se num movimento mútuo de aproximação e distanciamento, permitindo a escolha individual, mas preservando o laço. Não porque ambos queiram atingir a mesma meta, chegar no mesmo ponto. Fato talvez de extrema importância para um caminhar junto saudável e interessante. Mas sim pelo balanço que nos leva a manter o contato, a aprofundar o vínculo, a estabelecer uma relação de confiança. Porém, não discuto generalidades, falo tão-somente daquilo que me afeta da presença viva do outro. Falo de minha relação com o mundo, com as pessoas, os conceitos e os valores que me são impostos.
Tento escolher caminhar junto com minha vida, como companheira e fonte de minha sinergia com o mundo e com os viventes. Me ligo de maneira transparente e respeito a decisão individual, estou certo da prevalência do ponto de vista egocêntrico e frágil de nossa estrutura neurótica.
Por isso, caminhar junto contempla a dimensão do sintoma e, ao mesmo tempo, a potência de criação típica do acontecimento, quando passamos do virtual do empírico para o real do sensível.
Neste caminhar junto, dois corpos discutem e se afagam, trocam informações e experiências ancestrais. Todo o repertório de respostas é acionado para uma interação íntima e para a presença no mundo ao lado de outro ser.
Ser e estar, portanto, interagem nesse momento único de caminhar junto.
ser quem és,
estar com quem queres,
ser entre outros,
estar com outros,
ser um só e ser igual,
estar só e estar com alguém,
ser muitos e poucos
estar com muitos e poucos,
ser e estar onde queres,
estar e ser quem és,
quando queres,
quando sonhes,
quando desejes,
quando morreres ou nasceres,
seres
serestar.
Momento em que nos deparamos com uma situação análoga, porém banal e desprovida de uma leitura mais profunda. Quando olhamos mais de perto o caminhar e o vínculo entre corpos-almas que aí se estabelece, atentamos num primeiro e sucinto olhar, para a tensão como efeito do próprio vínculo, da dependência do outro e da relutante entrega ao impossível da relacão sexual.
Recalque e identificação funcionam na mesma medida, enquanto interagem para manter o ser ligado ao mundo, aos seus conceitos e valores, regras e ditames morais. Porém, num caminhar junto todas as regras e crenças parecem cair diante do real do contato, do encontro entre corpos-almas. Este vínculo se estabelece sobre diferentes parâmetros de subjetivação, ou seja, sobre diferentes estruturas de funcionamento dos aparelhos psíquico e somático, acoplando-se em sintonia com um sintoma e uma potência, um campo de força.
Num caminhar junto sentimos este campo de força atuante e oscilando entre passos compartilhados. Caminhar junto significa entrelaçar-se num movimento mútuo de aproximação e distanciamento, permitindo a escolha individual, mas preservando o laço. Não porque ambos queiram atingir a mesma meta, chegar no mesmo ponto. Fato talvez de extrema importância para um caminhar junto saudável e interessante. Mas sim pelo balanço que nos leva a manter o contato, a aprofundar o vínculo, a estabelecer uma relação de confiança. Porém, não discuto generalidades, falo tão-somente daquilo que me afeta da presença viva do outro. Falo de minha relação com o mundo, com as pessoas, os conceitos e os valores que me são impostos.
Tento escolher caminhar junto com minha vida, como companheira e fonte de minha sinergia com o mundo e com os viventes. Me ligo de maneira transparente e respeito a decisão individual, estou certo da prevalência do ponto de vista egocêntrico e frágil de nossa estrutura neurótica.
Por isso, caminhar junto contempla a dimensão do sintoma e, ao mesmo tempo, a potência de criação típica do acontecimento, quando passamos do virtual do empírico para o real do sensível.
Neste caminhar junto, dois corpos discutem e se afagam, trocam informações e experiências ancestrais. Todo o repertório de respostas é acionado para uma interação íntima e para a presença no mundo ao lado de outro ser.
Ser e estar, portanto, interagem nesse momento único de caminhar junto.
ser quem és,
estar com quem queres,
ser entre outros,
estar com outros,
ser um só e ser igual,
estar só e estar com alguém,
ser muitos e poucos
estar com muitos e poucos,
ser e estar onde queres,
estar e ser quem és,
quando queres,
quando sonhes,
quando desejes,
quando morreres ou nasceres,
seres
serestar.
Tuesday, April 12, 2005
A memoria e fisica
Tudo aquilo que constitui nossa memória parte de uma experiência física, de uma marca no corpo, na matéria do fenômeno. Isso que chamamos de energia, libido, espírito e alma é a conjugação do corpo no tempo espaço de suas experiências sensório psíquicas e, portanto, afetivas. O encadeamento de idéias e significados atribuídos substitui e reverte o efeito da imagem sobre a letra. Um correspondente psíquico estabelece uma conexão com o fato real e permite o escoamento de energia. Uma história contada para dar conta da dor e da perda.
Friday, April 08, 2005
Fantasia e sonhos
De repente, me vejo diante de minha própria imagem. Refletida no vidro de um prédio imenso. Reparo meus movimentos, meu ritmo, meu balanço. Noto como os braços se mexem e como nas pernas me apoio, flexionando-as contra o caminho irregular. Percebo pequenos detalhes, para a grande maioria, despercebidos, às vezes enaltecido.
Olho-me nos olhos, tento perceber a intensidade de meu olhar, procuro por meu corpo uma ilha de tensão e acúmulo de energia. Reviro estômago e vísceras em busca de um ponto singular, único. Vejo fios correndo ao redor do corpo, esticando-se, estirando-se. Perdendo-se no horizonte de fantasia e sonhos.
Antecipo alguns passos, antevejo situações e acontecimentos. Não me permito respirar o presente inaudito, a ausência da palavra morta no virtual desta tela. Estou um passo adiante, um passo atrás. Num contínuo vai e vem de ondas celestiais, as quais não nomeio por humildade e consciência de minha imaturidade.
Repúdio, ódio, esperança e carinho. Mistura humana de uma experiência vivida no presente conjugado de um verbo já escutado. Uma palavra que marca, num sentido e noutro. Numa direção e noutra. Placebo de efeito analítico, reposição de vitaminas.
Respiração do vento da inspiração esquecida no formato antiquado de uma tela quadrada. Gozo do toque do mistério aquecido na pele coberta de suor quente e afoito.
Em fantasia e sonhos percebo esse movimento de um olhar.
Resplandece na esperança de um novo dia, de um eterno acordar.
Recordar, relembrar, rememorar.
Quebra de significados correntes e correntes de significados.
Fragmentação do alienígena, alienação do fragmento.
Sentidos, descaminhos, desparate apaixonado.
Sôfrego balançar de olhos e bocas, corpos nus e almas dialogando.
Esgotamento e saciedade.
Pensamento e saudade.
Beijo e abraço.
Olho-me nos olhos, tento perceber a intensidade de meu olhar, procuro por meu corpo uma ilha de tensão e acúmulo de energia. Reviro estômago e vísceras em busca de um ponto singular, único. Vejo fios correndo ao redor do corpo, esticando-se, estirando-se. Perdendo-se no horizonte de fantasia e sonhos.
Antecipo alguns passos, antevejo situações e acontecimentos. Não me permito respirar o presente inaudito, a ausência da palavra morta no virtual desta tela. Estou um passo adiante, um passo atrás. Num contínuo vai e vem de ondas celestiais, as quais não nomeio por humildade e consciência de minha imaturidade.
Repúdio, ódio, esperança e carinho. Mistura humana de uma experiência vivida no presente conjugado de um verbo já escutado. Uma palavra que marca, num sentido e noutro. Numa direção e noutra. Placebo de efeito analítico, reposição de vitaminas.
Respiração do vento da inspiração esquecida no formato antiquado de uma tela quadrada. Gozo do toque do mistério aquecido na pele coberta de suor quente e afoito.
Em fantasia e sonhos percebo esse movimento de um olhar.
Resplandece na esperança de um novo dia, de um eterno acordar.
Recordar, relembrar, rememorar.
Quebra de significados correntes e correntes de significados.
Fragmentação do alienígena, alienação do fragmento.
Sentidos, descaminhos, desparate apaixonado.
Sôfrego balançar de olhos e bocas, corpos nus e almas dialogando.
Esgotamento e saciedade.
Pensamento e saudade.
Beijo e abraço.
Wednesday, April 06, 2005
Lua que me consola
Nesta noite solitária encontro na lua consolo para minha dor.
Sofro aos poucos, como veneno ao longo dos anos.
Vivo com medo, inseguro e descontrolado.
Passo pelos cantos da vida, esgueirando meu sinal.
Perco horas, dias, semanas, meses e anos.
Repetindo, correndo atrás das mesmas coisas.
Coisas imaginadas, desejadas, perdidas.
A falta precipita o desejo de criar um outro mundo.
Possível ao olhar, ao gosto e ao toque.
Realização da clivagem frente aos limites do real.
Perturbação e percepção distorcida.
Elementos inconscientes e desagradáveis.
Sonhos entrecortados e pedaços de colchas.
Girassóis e rosas, tulipas e hortências.
Borboletas, cigarras, calangos e lagartos.
Raiar infinito de uma estrela.
Procura de sentido para a vida. Trabalhe.
Escuridão da memória, inconstante aprendizado.
Estrelas cintilam e dançam ao ritmo do espaço ilimitado do universo.
Deito-me nas bordas da lua.
Espero chegar esse momento.
De consolo e abrigo, paz para a alma.
Descanso eterno de uma alma danada.
A existir na falta, na borda, na fronteira.
Na dúvida, no clamor, no sofrimento.
Agarro-me às suas curvas, entrego-me a seu apoio.
Respeito seu balanço, seu aconchego.
Sinto o movimento tranquilo da brisa noturna.
Interferências e pensamentos.
Conteúdos, formas e linhas.
Letras, imagens e sons.
Sofro aos poucos, como veneno ao longo dos anos.
Vivo com medo, inseguro e descontrolado.
Passo pelos cantos da vida, esgueirando meu sinal.
Perco horas, dias, semanas, meses e anos.
Repetindo, correndo atrás das mesmas coisas.
Coisas imaginadas, desejadas, perdidas.
A falta precipita o desejo de criar um outro mundo.
Possível ao olhar, ao gosto e ao toque.
Realização da clivagem frente aos limites do real.
Perturbação e percepção distorcida.
Elementos inconscientes e desagradáveis.
Sonhos entrecortados e pedaços de colchas.
Girassóis e rosas, tulipas e hortências.
Borboletas, cigarras, calangos e lagartos.
Raiar infinito de uma estrela.
Procura de sentido para a vida. Trabalhe.
Escuridão da memória, inconstante aprendizado.
Estrelas cintilam e dançam ao ritmo do espaço ilimitado do universo.
Deito-me nas bordas da lua.
Espero chegar esse momento.
De consolo e abrigo, paz para a alma.
Descanso eterno de uma alma danada.
A existir na falta, na borda, na fronteira.
Na dúvida, no clamor, no sofrimento.
Agarro-me às suas curvas, entrego-me a seu apoio.
Respeito seu balanço, seu aconchego.
Sinto o movimento tranquilo da brisa noturna.
Interferências e pensamentos.
Conteúdos, formas e linhas.
Letras, imagens e sons.
Tuesday, April 05, 2005
No limite da razão
Falo desses acontecimentos que não conseguimos explicar.
De uma maneira de no mundo estar. Conectado e despojado.
De um lance de olhar. Uma presença de espírito e captação.
De sentidos e aberturas de discurso, de fala.
De inspiração momentânea e passageira.
Um leve rasteira, um tropeço no mundo das palavras.
Sentimentos aprisionados, esperanças indeterminadas.
Palavras, palavras e palavras.
Sentido em si mesmas, dirigidas a um propósito.
Propaganda, propagar, progredir, proferir, procurar.
Busca incerta por um equilíbrio no fio da vida.
Caminhar sozinho na beirada da falta, compondo um quadro.
Escrevendo um livro ou uma canção.
Letras de um perdido amoroso, de um completo alienado.
Encontro entre almas, diálogo de inconscientes.
Corpos suados, cansados. Respiração calma e profunda.
Paz de espírito e espírito de causa. E efeito.
Ação e reação. Tristeza e alegria andam juntas.
No limite da razão.
De uma maneira de no mundo estar. Conectado e despojado.
De um lance de olhar. Uma presença de espírito e captação.
De sentidos e aberturas de discurso, de fala.
De inspiração momentânea e passageira.
Um leve rasteira, um tropeço no mundo das palavras.
Sentimentos aprisionados, esperanças indeterminadas.
Palavras, palavras e palavras.
Sentido em si mesmas, dirigidas a um propósito.
Propaganda, propagar, progredir, proferir, procurar.
Busca incerta por um equilíbrio no fio da vida.
Caminhar sozinho na beirada da falta, compondo um quadro.
Escrevendo um livro ou uma canção.
Letras de um perdido amoroso, de um completo alienado.
Encontro entre almas, diálogo de inconscientes.
Corpos suados, cansados. Respiração calma e profunda.
Paz de espírito e espírito de causa. E efeito.
Ação e reação. Tristeza e alegria andam juntas.
No limite da razão.
Sunday, March 27, 2005
Felinos e sonhos
Olha-me desleixado, estica o corpo, range as articulações.
Abre os olhos castanhos e reflete o mundo nas pálpebras.
Agarra o tapete, estica mais um pouco, respira suave.
Ergue a cabeça e repara no que acontece ao seu redor.
Sente os movimentos e assume a melhor posição.
Fita com interesse uma bola no chão. Pula e sacode.
Fica em pé e brinca. Corre e saltita.
Sua vida é impulso.
Seu combustível o ar, a comida, o espaço, a convivência, o aprendizado.
Escala rapidamente a parede e encara com doçura um interlocutor.
Espalha o pêlo e esfrega a pele, a cabeça e os ouvidos.
Contagia com a leveza, a calma e a sabedoria.
Contorce o corpo em busca de carinho, de chamego.
Sente o cheiro, fustiga-se com o odor, contamina-se de paixão.
Levanta o rabo e estica as garras.
Salta de um só vez no vazio da sala.
Continua sem receios, por impulso, precipitação de desejo.
Vai, desaparece, some de minha vista.
Me deixa por instantes sozinho. Para depois reaparecer.
Surgindo manhosa pelo chão e subindo o sofá com agilidade.
Seu espírito é livre e conduz-se sem medo, sem freio, sem curva.
Num mundo de sensações e sentidos puros.
Onde não há a razão para explicar, ou as palavras para complicar.
Só há sentimento, de pertencer e de ligar-se.
Via físico e mental, amoroso e social.
Numa colcha de retalhos, amarrada por fios de sonhos.
Filamentos de tempos entre tempos.
Dissonância entre vozes, diálogos entrecortados.
Olhares correspondidos, laços estabelecidos.
Desperta deste sonho entre felinos e comunica-lhe com clareza:
Sois teu! Tens dúvida ainda?
Onde guarda teu amor? Tua dor?
Caminha comigo entre felinos e sonhos. Sonha comigo este sonho.
Adormece ao meu lado e desperta-me com carinho.
Arranha levemente minha pele e me faz sentir o mundo.
A pulsação da terra.
Coloca teu peito no meu e escutemos os corações. Deixemos que conversem.
Respiro profundamente. Sinto um ar diferente, a gravidade menos atuante.
Sinto-me leve. Sinto-me vivo.
Sinto o impulso, a precipitação de desejo, sensações e sentidos puros.
Reflito em mim mesmo esse olhar profundo de felinos e sonhos.
Abre os olhos castanhos e reflete o mundo nas pálpebras.
Agarra o tapete, estica mais um pouco, respira suave.
Ergue a cabeça e repara no que acontece ao seu redor.
Sente os movimentos e assume a melhor posição.
Fita com interesse uma bola no chão. Pula e sacode.
Fica em pé e brinca. Corre e saltita.
Sua vida é impulso.
Seu combustível o ar, a comida, o espaço, a convivência, o aprendizado.
Escala rapidamente a parede e encara com doçura um interlocutor.
Espalha o pêlo e esfrega a pele, a cabeça e os ouvidos.
Contagia com a leveza, a calma e a sabedoria.
Contorce o corpo em busca de carinho, de chamego.
Sente o cheiro, fustiga-se com o odor, contamina-se de paixão.
Levanta o rabo e estica as garras.
Salta de um só vez no vazio da sala.
Continua sem receios, por impulso, precipitação de desejo.
Vai, desaparece, some de minha vista.
Me deixa por instantes sozinho. Para depois reaparecer.
Surgindo manhosa pelo chão e subindo o sofá com agilidade.
Seu espírito é livre e conduz-se sem medo, sem freio, sem curva.
Num mundo de sensações e sentidos puros.
Onde não há a razão para explicar, ou as palavras para complicar.
Só há sentimento, de pertencer e de ligar-se.
Via físico e mental, amoroso e social.
Numa colcha de retalhos, amarrada por fios de sonhos.
Filamentos de tempos entre tempos.
Dissonância entre vozes, diálogos entrecortados.
Olhares correspondidos, laços estabelecidos.
Desperta deste sonho entre felinos e comunica-lhe com clareza:
Sois teu! Tens dúvida ainda?
Onde guarda teu amor? Tua dor?
Caminha comigo entre felinos e sonhos. Sonha comigo este sonho.
Adormece ao meu lado e desperta-me com carinho.
Arranha levemente minha pele e me faz sentir o mundo.
A pulsação da terra.
Coloca teu peito no meu e escutemos os corações. Deixemos que conversem.
Respiro profundamente. Sinto um ar diferente, a gravidade menos atuante.
Sinto-me leve. Sinto-me vivo.
Sinto o impulso, a precipitação de desejo, sensações e sentidos puros.
Reflito em mim mesmo esse olhar profundo de felinos e sonhos.
Saturday, March 26, 2005
Imaginação e afeto
De onde surgem essas imagens, paisagens de um sem nome de afetos e sentimentos?
Para onde seguem tais imagens, tais sentimentos e afetos de um presente suspenso?
Não logro encontrar respostas. Ao menos pistas, dicas, de um caminho possível.
Por entre imaginação e afeto, palavras, símbolos, sinais e sintomas de um ser.
Sensível por natureza, confuso pela lógica, enrolado na linguagem de um amanhecer infinito.
Perplexo frente ao absurdo que é existir, pensar, sentir, sofrer e chorar.
Lágrimas de uma morte anunciada, desejada, digna.
Mar adentro, mundo adentro. De renúncias e medo. Horror diante do espelho, da miséria da vida sem movimento.
Há sempre movimento. Nas palavras, no pensamento.
Há sempre vida, mesmo na morte, na ode de um não existir, mais.
Mais e mais. Desejo de morte, pulsão incontrolável, inominável, abominável, insustentável leveza de um ser denunciado.
Estirpado de sua própria natureza, pela lógica da linguagem e das imagens.
Imaginação e afeto conversam, dialogam no presente insandecido da paixão.
Imagina, ação, afeto, afeito, afoito. Por um outro inigualável, indescritível.
Soberba, lascívia.
Permanentes imaginação e afeto. Interrupções de um discurso mutável, descontrolado.
Fantasia e contato. Derme e intenção. Suor e lágrimas. Suspiros de um não saber.
Desconhecer o conhecido, estranhar o familiar. Surpreender-se com o comum.
Abalo sísmico de uma terra virgem. Intocada, selvagem, arredia ao controle.
Vento e chuva, brisa suave de um dia sem horas. Brilho eterno de um amanhecer sem lembranças.
Constantes imaginação e afeto, constróem um império de sentimentos e fantasias.
Crepúsculos finais de uma tarde chuvosa.
Conversa solitária entre almas à distância.
"Aprende-se a chorar através de sorrisos".
Mergulho mar adentro.
Para onde seguem tais imagens, tais sentimentos e afetos de um presente suspenso?
Não logro encontrar respostas. Ao menos pistas, dicas, de um caminho possível.
Por entre imaginação e afeto, palavras, símbolos, sinais e sintomas de um ser.
Sensível por natureza, confuso pela lógica, enrolado na linguagem de um amanhecer infinito.
Perplexo frente ao absurdo que é existir, pensar, sentir, sofrer e chorar.
Lágrimas de uma morte anunciada, desejada, digna.
Mar adentro, mundo adentro. De renúncias e medo. Horror diante do espelho, da miséria da vida sem movimento.
Há sempre movimento. Nas palavras, no pensamento.
Há sempre vida, mesmo na morte, na ode de um não existir, mais.
Mais e mais. Desejo de morte, pulsão incontrolável, inominável, abominável, insustentável leveza de um ser denunciado.
Estirpado de sua própria natureza, pela lógica da linguagem e das imagens.
Imaginação e afeto conversam, dialogam no presente insandecido da paixão.
Imagina, ação, afeto, afeito, afoito. Por um outro inigualável, indescritível.
Soberba, lascívia.
Permanentes imaginação e afeto. Interrupções de um discurso mutável, descontrolado.
Fantasia e contato. Derme e intenção. Suor e lágrimas. Suspiros de um não saber.
Desconhecer o conhecido, estranhar o familiar. Surpreender-se com o comum.
Abalo sísmico de uma terra virgem. Intocada, selvagem, arredia ao controle.
Vento e chuva, brisa suave de um dia sem horas. Brilho eterno de um amanhecer sem lembranças.
Constantes imaginação e afeto, constróem um império de sentimentos e fantasias.
Crepúsculos finais de uma tarde chuvosa.
Conversa solitária entre almas à distância.
"Aprende-se a chorar através de sorrisos".
Mergulho mar adentro.
Sunday, March 13, 2005
Mulheres e mistérios
Cada pessoa, seja homem ou mulher, é um enigma em particular. Existem, por conseguinte, infinitas tentativas de dar forma a esse mistério da existência humana. Literatura, música, pintura, escultura, nossa! quanta coisa o ser humano constrói, transforma, inventa, cria, para ensaiar uma resposta a suas perguntas e devaneios.
Porém, a primeira e inegável diferença que marca a existência humana é o sexo. Tal diferença, contudo, sofre mudanças de acordo com a cultura e o tempo sócio histórico.
No entanto, ela existe de maneira intocável ao longo de toda história da humanidade. Aos homens uns papéis, umas possibilidades, oportunidades. Para as mulheres outros papéis, outras oportunidades, possibilidades, aberturas para existir.
Atualmente, as fronteiras estão cada vez mais diluídas. Os limites entre os sexos se estreitaram e continuam se estreitando conforme a sociedade estabelece novos parâmetros, ou modalidades de gozo. Já não existem papéis tão claros, distintos com clareza. Hoje, existir é uma questão (de) capital, se é que você me entende. É claro, entretanto, que o capital equivale ao poder, ao saber. Dessa forma, o sexo se torna uma questão de poder-saber-capital sobre si mesmo e o outro.
Para este autor que lhes escreve, o ser humano existe articulado, necessariamente, ao sexo que lhe constitui. Portanto, para este homem que lhes fala, a mulher é a personificação do mistério de existir. Existir no silêncio, no fala, na presença, na ausência.
A mulher é o código do qual surge todas as modalidades de gozo possível. Assim, sua manifestação enquanto fenômeno social e subjetivo, permanece um mistério, um enigma, capaz de enrolar o homem no mais denso emaranhado de nós e laços.
Mulheres e mistérios são sinônimos e figuras de uma existência marcada pela falta, pelo vazio. Sem ilusão de resolver qualquer mistério, o homem procura, desbrava, desmata, mata, sempre em busca de alguma metáfora possível para esse mistério que é a mulher.
Mulheres e mistérios, esfinges e pirâmides. Construções, formas, figuras e mitos.
Diferença entre sexos, entre existências em uma mesma falta. Olhares atravessados, corpos dialogando, bocas se tocando. Respiração de um existir solícito por novas formas de gozo.
Portanto, vivamos a falta, investiguemos essas modalidades de gozo, de existir na diferença essencial entre os sexos. Beijos a todos. Que Vênus os abençoe.
Porém, a primeira e inegável diferença que marca a existência humana é o sexo. Tal diferença, contudo, sofre mudanças de acordo com a cultura e o tempo sócio histórico.
No entanto, ela existe de maneira intocável ao longo de toda história da humanidade. Aos homens uns papéis, umas possibilidades, oportunidades. Para as mulheres outros papéis, outras oportunidades, possibilidades, aberturas para existir.
Atualmente, as fronteiras estão cada vez mais diluídas. Os limites entre os sexos se estreitaram e continuam se estreitando conforme a sociedade estabelece novos parâmetros, ou modalidades de gozo. Já não existem papéis tão claros, distintos com clareza. Hoje, existir é uma questão (de) capital, se é que você me entende. É claro, entretanto, que o capital equivale ao poder, ao saber. Dessa forma, o sexo se torna uma questão de poder-saber-capital sobre si mesmo e o outro.
Para este autor que lhes escreve, o ser humano existe articulado, necessariamente, ao sexo que lhe constitui. Portanto, para este homem que lhes fala, a mulher é a personificação do mistério de existir. Existir no silêncio, no fala, na presença, na ausência.
A mulher é o código do qual surge todas as modalidades de gozo possível. Assim, sua manifestação enquanto fenômeno social e subjetivo, permanece um mistério, um enigma, capaz de enrolar o homem no mais denso emaranhado de nós e laços.
Mulheres e mistérios são sinônimos e figuras de uma existência marcada pela falta, pelo vazio. Sem ilusão de resolver qualquer mistério, o homem procura, desbrava, desmata, mata, sempre em busca de alguma metáfora possível para esse mistério que é a mulher.
Mulheres e mistérios, esfinges e pirâmides. Construções, formas, figuras e mitos.
Diferença entre sexos, entre existências em uma mesma falta. Olhares atravessados, corpos dialogando, bocas se tocando. Respiração de um existir solícito por novas formas de gozo.
Portanto, vivamos a falta, investiguemos essas modalidades de gozo, de existir na diferença essencial entre os sexos. Beijos a todos. Que Vênus os abençoe.
Wednesday, March 09, 2005
Tactum citurnum
o que é isso?
que é isso?
que é?
quem é?
quem bate?
quem clama?
quem chora?
quem reclama?
quem se espanta?
quem se enamora?
quem se lembra?
quem se recorda?
quem quer recordar?
quem se importa?
quem sente?
quem se sente?
quem respira?
quem é?
tempo, espaço, pessoa
lugar, momento, companhia
sentimento, pensamento, atitude
idéia, frase, provérbio
letra, imagem, som
amor, amizade, carinho
cuidado, disposição, compreensão
respeito, reflexão, reflexo
permanência, saída, exclusão
preconceito, conceito, valor
religião, dogma, ideal
paixão, fissura, acidente
praia, serra, chapada
fogo, ar, água, terra
quatro elementos
de uma frase conceituada no quebradiço telhado da decomposição humana
luxúria, desperdício, corrupção
intriga, mentira, ira
sobretudo paixão descontrolada errando pelo sótão de um cérebro atônito
as perspectivas se abrem os horizontes se estreitam num vai e vem suave
consomem-se horas e horas em discussões e interpelações de humor
intempestivo e incoerente, porém, organizado e docilmente construído
um arquipélago de acontecimentos, acidentes, arranjos e desarranjos
melodias, dramas, comédias, óperas, trash, B, noir, avant garde,
ritmos e mensagens de um inconsciente coletivo formador de opinião pública
ditado pelo capital e pela ganância humana, tudo pelo lucro, pela barganha
talvez por isso os covardes não ocupem o lugar da análise
interdependências múltiplas confluem na construção de um outro repertório
dimensões e capacidade únicas capazes de transformar a comunicação
aperfeiçoamento das técnicas laboratoriais e perícias de campo
investigação inescrupulosa de todas as nossas vidas, nossas ações, nossos erros
porém, a cidadania representa o reflexo atravessado pela falta do outro
suficiente bom, suficiente seguro, inseguro, ausência e permanência, movimento
pulsão de um ritmo lunar, astral, individual, familiar, geracional
passagem de um ritmo pulsante no coração, nas vísceras, nos bagos
en los cojones si lo dicho correcto, não há mais limites ou fronteiras
entre eu e o outro existe, no fim, uma fronteira, um limite
um sem saída, mão única do divertimento humano em amar e ser amado
brilho eterno, fotos e lembranças
que é isso?
que é?
quem é?
quem bate?
quem clama?
quem chora?
quem reclama?
quem se espanta?
quem se enamora?
quem se lembra?
quem se recorda?
quem quer recordar?
quem se importa?
quem sente?
quem se sente?
quem respira?
quem é?
tempo, espaço, pessoa
lugar, momento, companhia
sentimento, pensamento, atitude
idéia, frase, provérbio
letra, imagem, som
amor, amizade, carinho
cuidado, disposição, compreensão
respeito, reflexão, reflexo
permanência, saída, exclusão
preconceito, conceito, valor
religião, dogma, ideal
paixão, fissura, acidente
praia, serra, chapada
fogo, ar, água, terra
quatro elementos
de uma frase conceituada no quebradiço telhado da decomposição humana
luxúria, desperdício, corrupção
intriga, mentira, ira
sobretudo paixão descontrolada errando pelo sótão de um cérebro atônito
as perspectivas se abrem os horizontes se estreitam num vai e vem suave
consomem-se horas e horas em discussões e interpelações de humor
intempestivo e incoerente, porém, organizado e docilmente construído
um arquipélago de acontecimentos, acidentes, arranjos e desarranjos
melodias, dramas, comédias, óperas, trash, B, noir, avant garde,
ritmos e mensagens de um inconsciente coletivo formador de opinião pública
ditado pelo capital e pela ganância humana, tudo pelo lucro, pela barganha
talvez por isso os covardes não ocupem o lugar da análise
interdependências múltiplas confluem na construção de um outro repertório
dimensões e capacidade únicas capazes de transformar a comunicação
aperfeiçoamento das técnicas laboratoriais e perícias de campo
investigação inescrupulosa de todas as nossas vidas, nossas ações, nossos erros
porém, a cidadania representa o reflexo atravessado pela falta do outro
suficiente bom, suficiente seguro, inseguro, ausência e permanência, movimento
pulsão de um ritmo lunar, astral, individual, familiar, geracional
passagem de um ritmo pulsante no coração, nas vísceras, nos bagos
en los cojones si lo dicho correcto, não há mais limites ou fronteiras
entre eu e o outro existe, no fim, uma fronteira, um limite
um sem saída, mão única do divertimento humano em amar e ser amado
brilho eterno, fotos e lembranças
Sunday, March 06, 2005
Tragédia em um ato
Perdeu de vista aquela imagem que lhe parecia a mais bela sobre a terra. Experimentou um súbito surto de angústia e desespero, só, separado daquela criatura singular. Ao seu redor somente as árvores conversavam entre si, rangendo os galhos em abraços imensos, sorrindo ao sabor do vento em suas folhas. Árvores, corpos, onde a seiva corre por largos dutos, chegam em grande escala. Percorrem o subsolo, a superfície, o espaço.
Sorrindo de sua própria condição, lograva encontrar novamente a imagem que lhe suscitou tanto desejo e paixão. Sabia, no entanto, que não a teria outra vez, permaneceria como imagem, lembrança. Perdido, não querendo acreditar, pôs-se a correr por entre os bosques de árvores que conversavam eternamente. Rompendo com as fardas, com os botões e fitas, corria em busca do belo, da perfeição. A imortalidade nada significa para quem olha e procura o belo, a perfeição. Este sabe que terá, algum dia, que morrer por aquilo que anseia.
Exausto, repousa em raízes profundas, onde existem outros mundos. Mundos minúsculos e fantásticos. Sua cabeça lateja e o corpo pede por clemência. Seus olhos semi-cerram com as gotas de suor e lágrimas carregadas de ira e ódio.
Sua cor era branca, pálida como cera. Porém, seu rosto despontava a vermelhidão do sangue lhe percorrendo os mesmos dutos daquelas árvores. Sentiu-se como parte daquela selva. Seu corpo, sua existência para além dos sentidos, sua razão e lógica individual, lhe haviam mostrado que o belo era a única busca satisfatória.
Abriu levemente os olhos e percebeu que voltava de algum lugar. Outro lugar. Vinha de uma escuridão, de uma ausência. Permanecera nesse lugar, entre uma coisa e outra, nem acordado nem dormindo, num crepúsculo transcendental. À medida em que retornava ao mundo da luz e da imensidão, percebia que teria de continuar sua busca. Não poderia desistir. Sua luta seria perpétua, até a morte.
Levantou o olhar para as copas das árvores que, nesse momento, cuidavam atentamente daquela pequena e frágil criatura. Suas raízes criaram proteção e alimento para a alma. Suas folhas acariciavam o vento numa melodia fenomenal.
Ergueu o corpo, seguiu obstinado um caminho qualquer. Não tinha nada, exceto a lembrança sensível daquela imagem real e vívida da perfeição.
Sorrindo de sua própria condição, lograva encontrar novamente a imagem que lhe suscitou tanto desejo e paixão. Sabia, no entanto, que não a teria outra vez, permaneceria como imagem, lembrança. Perdido, não querendo acreditar, pôs-se a correr por entre os bosques de árvores que conversavam eternamente. Rompendo com as fardas, com os botões e fitas, corria em busca do belo, da perfeição. A imortalidade nada significa para quem olha e procura o belo, a perfeição. Este sabe que terá, algum dia, que morrer por aquilo que anseia.
Exausto, repousa em raízes profundas, onde existem outros mundos. Mundos minúsculos e fantásticos. Sua cabeça lateja e o corpo pede por clemência. Seus olhos semi-cerram com as gotas de suor e lágrimas carregadas de ira e ódio.
Sua cor era branca, pálida como cera. Porém, seu rosto despontava a vermelhidão do sangue lhe percorrendo os mesmos dutos daquelas árvores. Sentiu-se como parte daquela selva. Seu corpo, sua existência para além dos sentidos, sua razão e lógica individual, lhe haviam mostrado que o belo era a única busca satisfatória.
Abriu levemente os olhos e percebeu que voltava de algum lugar. Outro lugar. Vinha de uma escuridão, de uma ausência. Permanecera nesse lugar, entre uma coisa e outra, nem acordado nem dormindo, num crepúsculo transcendental. À medida em que retornava ao mundo da luz e da imensidão, percebia que teria de continuar sua busca. Não poderia desistir. Sua luta seria perpétua, até a morte.
Levantou o olhar para as copas das árvores que, nesse momento, cuidavam atentamente daquela pequena e frágil criatura. Suas raízes criaram proteção e alimento para a alma. Suas folhas acariciavam o vento numa melodia fenomenal.
Ergueu o corpo, seguiu obstinado um caminho qualquer. Não tinha nada, exceto a lembrança sensível daquela imagem real e vívida da perfeição.
Saturday, March 05, 2005
procurava afoito por um lugar para sentar
minha respiração faltava, me deixando sem ar
suava por dentro, transpirava odores de lembrança
de sonho, de ideal buscado no tempo
percorrendo as linhas do deserto,
soprando junto com o vento,
meus olhos captavam muito pouco
de qualquer coisa
um vôo, um assobio longínquo
resplandece uma aurora mais no horizonte
perco de vista os nós da terra
soberbo céu, luz de amanhã
de ontem, de morte
de outro dia vivido na rua
procurando árvores para me esconder
me ajeitando entre um vento e outro
sentindo o vazio no estômago, na memória
vou, vou caminhar por aí
entre o céu e a terra, firmando meus passos
passando entre coisas, entre olhares
entrando a cada intervalo, num intervalo e num intervalo
melodia constante do tempo, tempo, tempo
ressonância acústica que vibra meu corpoalma
para sempre, estarei em contato com o mundo
minha respiração faltava, me deixando sem ar
suava por dentro, transpirava odores de lembrança
de sonho, de ideal buscado no tempo
percorrendo as linhas do deserto,
soprando junto com o vento,
meus olhos captavam muito pouco
de qualquer coisa
um vôo, um assobio longínquo
resplandece uma aurora mais no horizonte
perco de vista os nós da terra
soberbo céu, luz de amanhã
de ontem, de morte
de outro dia vivido na rua
procurando árvores para me esconder
me ajeitando entre um vento e outro
sentindo o vazio no estômago, na memória
vou, vou caminhar por aí
entre o céu e a terra, firmando meus passos
passando entre coisas, entre olhares
entrando a cada intervalo, num intervalo e num intervalo
melodia constante do tempo, tempo, tempo
ressonância acústica que vibra meu corpoalma
para sempre, estarei em contato com o mundo
Friday, March 04, 2005
Inconstância
Sigo apostando, escolhendo caminhos, sentidos para minha vida.
Arrisco-me nas letras, nas imagens e nos sons.
Na dança, no teatro e nas performances.
Sou inconstante, desvairado, sem rumo.
Por isso paro nas estações de trem, do ano.
Perco o ritmo do tempo ditado pela norma.
Sou eu quem faz meu tempo.
Sento por um instante na estação, espero chegar aquele veículo que me levará daqui.
Reparo no vento que sopra docemente em meus ouvidos.
O sol brilhando forte nos trilhos negros de óleo.
Outros corpos, outras almas circulam na estação.
Amigos, estranhos, conhecidos e esquecidos.
São pessoas que esperam, que partem e que chegam.
Seus trens têm hora marcada, cada qual com seu destino (se é que isso existe).
O meu trem não sei quando chega, nem quando sai.
Não tera hora marcada, nem previsão de chegada.
Minha estação tem sempre uma lanchonete, em caso de esperas demoradas.
Não perco tempo, tudo é positivo, tudo é aprendizado.
Imagino sua última partida. Como chegou, como ficou a soar seu apito.
Quanto demorou para partir e não voltar mais.
Permaneci sentado no banco de madeira, todo marcado por lembranças, nomes e datas.
Olhava o céu e sentia a força do dia em minha pele, em meu esqueleto.
Passaram-se horas desde que partiu. Dias, semanas, meses e anos.
Não esperava mais aquele trem. Não esperava nem que chegasse outro.
Levantei-me fui lanchar. Engoli com sofreguidão o pedaço do mundo que me chegava.
Escutei um ruído. Talvez fossem trilhos rangendo, rodas de aço cantando ao caminho.
Um apito e uma chamada. Uma voz doce e um olhar suave em direção ao horizonte.
Aquela estação não era mais minha.
Outro trem que chegava, outra partida anunciada.
E assim, na inconstância, continuei esperando sua chegada.
Sabia no fundo que aquele trem não chegaria. Seria outro, um outro. Diferente.
Sabia também que não devia esperar mais. Que o melhor seria partir.
Ou, olhar para outro horizonte, para outras estações.
Seguir outros trilhos e chegar onde nunca imaginei.
Pensava, pensava, pensava...
Lembrava de algumas palavras, de uns sorrisos e de muitos toques.
Sabia que seria difícil partir. Mas tinha de faze-lo.
Esperei tanto tempo, com tanto entusiasmo. Não podia deixar passar.
O trem que vinha vindo não iria parar, só diminuir a velocidade para os mais corajosos.
Percebi seu balanço, seu equilíbrio, e entrei num dos vagões.
Não me lembro para onde estava indo, mas andávamos.
Senti aquele antigo arrepio de adolescência. Um frio na espinha frente o perigo.
Inconstante, toco fogo na lembrança e adormeço com a fumaça.
Freia e range suas rodas. Diz-me onde estamos, se chegamos.
Não me diz nada. Não sei.
Sem saber, já estava fora, já havia descido, ou sido descido por alguém. Por um desconhecido.
Olhei e vi minha estação com sua lanchonete antiquada.
Café com biscoitos.
Refeição mundana para um viramundo como eu.
Sentei e refleti por uns instantes naquele local.
Estava na minha estação. Estava de volta? Havia chegado? Havia partido?
Não me interessava mais.
Continuei por mais algum tempo a viajar naquele espaço sem tempo.
Onde os três tempos conversam e trocam datas.
Olhei o horizonte até cansar. Adormecido, lembrei: sou onde não estou.
Abri os olhos e percebi que o trem não existia mais. Tinha de fazer outro.
Não importava. Já tinha minha estação, minha lanchonete.
Coloquei tudo na mala da memória e fui conhecer a cidade.
Arrisco-me nas letras, nas imagens e nos sons.
Na dança, no teatro e nas performances.
Sou inconstante, desvairado, sem rumo.
Por isso paro nas estações de trem, do ano.
Perco o ritmo do tempo ditado pela norma.
Sou eu quem faz meu tempo.
Sento por um instante na estação, espero chegar aquele veículo que me levará daqui.
Reparo no vento que sopra docemente em meus ouvidos.
O sol brilhando forte nos trilhos negros de óleo.
Outros corpos, outras almas circulam na estação.
Amigos, estranhos, conhecidos e esquecidos.
São pessoas que esperam, que partem e que chegam.
Seus trens têm hora marcada, cada qual com seu destino (se é que isso existe).
O meu trem não sei quando chega, nem quando sai.
Não tera hora marcada, nem previsão de chegada.
Minha estação tem sempre uma lanchonete, em caso de esperas demoradas.
Não perco tempo, tudo é positivo, tudo é aprendizado.
Imagino sua última partida. Como chegou, como ficou a soar seu apito.
Quanto demorou para partir e não voltar mais.
Permaneci sentado no banco de madeira, todo marcado por lembranças, nomes e datas.
Olhava o céu e sentia a força do dia em minha pele, em meu esqueleto.
Passaram-se horas desde que partiu. Dias, semanas, meses e anos.
Não esperava mais aquele trem. Não esperava nem que chegasse outro.
Levantei-me fui lanchar. Engoli com sofreguidão o pedaço do mundo que me chegava.
Escutei um ruído. Talvez fossem trilhos rangendo, rodas de aço cantando ao caminho.
Um apito e uma chamada. Uma voz doce e um olhar suave em direção ao horizonte.
Aquela estação não era mais minha.
Outro trem que chegava, outra partida anunciada.
E assim, na inconstância, continuei esperando sua chegada.
Sabia no fundo que aquele trem não chegaria. Seria outro, um outro. Diferente.
Sabia também que não devia esperar mais. Que o melhor seria partir.
Ou, olhar para outro horizonte, para outras estações.
Seguir outros trilhos e chegar onde nunca imaginei.
Pensava, pensava, pensava...
Lembrava de algumas palavras, de uns sorrisos e de muitos toques.
Sabia que seria difícil partir. Mas tinha de faze-lo.
Esperei tanto tempo, com tanto entusiasmo. Não podia deixar passar.
O trem que vinha vindo não iria parar, só diminuir a velocidade para os mais corajosos.
Percebi seu balanço, seu equilíbrio, e entrei num dos vagões.
Não me lembro para onde estava indo, mas andávamos.
Senti aquele antigo arrepio de adolescência. Um frio na espinha frente o perigo.
Inconstante, toco fogo na lembrança e adormeço com a fumaça.
Freia e range suas rodas. Diz-me onde estamos, se chegamos.
Não me diz nada. Não sei.
Sem saber, já estava fora, já havia descido, ou sido descido por alguém. Por um desconhecido.
Olhei e vi minha estação com sua lanchonete antiquada.
Café com biscoitos.
Refeição mundana para um viramundo como eu.
Sentei e refleti por uns instantes naquele local.
Estava na minha estação. Estava de volta? Havia chegado? Havia partido?
Não me interessava mais.
Continuei por mais algum tempo a viajar naquele espaço sem tempo.
Onde os três tempos conversam e trocam datas.
Olhei o horizonte até cansar. Adormecido, lembrei: sou onde não estou.
Abri os olhos e percebi que o trem não existia mais. Tinha de fazer outro.
Não importava. Já tinha minha estação, minha lanchonete.
Coloquei tudo na mala da memória e fui conhecer a cidade.
Thursday, March 03, 2005
Pelas ruas e esquinas da cidade
Ando pelas ruas e esquinas da cidade, como Viramundo, encontrando gente, animal, vegetal e mineral. Penso nos desvios, nas curvas, no chão batido pelos pés de um corpo desviado, encurvado. O tempo passando, a chuva caindo e o vento soprando.
Ando distraído, passo ruas, entradas e outros mundos. Ando cansado, pelas esquinas, ângulos fechados, abertos. Encontro de caminhos, escolha a ser feita.
Prenuncio de mudança, de incerteza, de insegurança. Anuncio prévio do fracasso singular da existência no tempo espaço do presente.
Perco o sentido, caminho sem direção pelas ruas e esquinas da cidade. Perco a identidade, o apreço, o endereço. Já não sei direito onde estou. Num mundo de histórias, contos e causos. Explosão de vozes sobre mim mesmo. Palavras e comentários de uma existência errante, errada.
Componho junto com as ruas e esquinas da cidade. Percorro corredores, edifícios, pátios e jardins. Procuro um sentido para a vida, uma direção, um objetivo. Mas não adiante forçar a barra, nem engolir as exigências, tampouco respirar o mercado de trabalho.
Excrementos de um percurso indefinido. Restos de uma letra apagada, de uma palavra esquecida. Um regojizo final pelas ruas e esquinas. De uma cidade cruel, amarga, rebelde. Ruas escuras, esquinas repletas de putas, cheiro de urina e corpos sonhando com uma vida melhor.
Insatisfação, perturbação do desejo. Desalento, descrença, desapego. Apoio-me sobre um patamar de gesso e cimento. Uma caixa d'água, um reservatório inútil. Cresci em altos e baixos, lado a lado com a loucura, com o desvio, com o insólito.
Discurso varrido para debaixo do tapete. Palavra esquecida de um amor impossível.
Por que sofro por amor? O amor deveria me colocar radiante, ligado, em contato com o mundo, com o outro. Objeto de desejo, de satisfação, de entrega. Porém, de perda, de incerteza, de renúncia.
Incapaz de escolher, de posicionar-me frente ao mundo, ao olhar do outro, retribuo com minha aspereza, solidão e tristeza.
Caminho por entre prédios e casas antigas. Reparo nos traços, nas linhas, no volume, no peso das coisas. Escorrego entre olhares e bocas, famintos por contato, por filiação.
Pelas ruas e esquinas da cidade, sigo o ritmo da minha alma, de meu corpo, de meu desejo. Desejo furado, esburacado, despedaçado. Arrebato a tristeza com força e violência. Espero encontrar-me pelas ruas e esquinas da cidade.
Ando distraído, passo ruas, entradas e outros mundos. Ando cansado, pelas esquinas, ângulos fechados, abertos. Encontro de caminhos, escolha a ser feita.
Prenuncio de mudança, de incerteza, de insegurança. Anuncio prévio do fracasso singular da existência no tempo espaço do presente.
Perco o sentido, caminho sem direção pelas ruas e esquinas da cidade. Perco a identidade, o apreço, o endereço. Já não sei direito onde estou. Num mundo de histórias, contos e causos. Explosão de vozes sobre mim mesmo. Palavras e comentários de uma existência errante, errada.
Componho junto com as ruas e esquinas da cidade. Percorro corredores, edifícios, pátios e jardins. Procuro um sentido para a vida, uma direção, um objetivo. Mas não adiante forçar a barra, nem engolir as exigências, tampouco respirar o mercado de trabalho.
Excrementos de um percurso indefinido. Restos de uma letra apagada, de uma palavra esquecida. Um regojizo final pelas ruas e esquinas. De uma cidade cruel, amarga, rebelde. Ruas escuras, esquinas repletas de putas, cheiro de urina e corpos sonhando com uma vida melhor.
Insatisfação, perturbação do desejo. Desalento, descrença, desapego. Apoio-me sobre um patamar de gesso e cimento. Uma caixa d'água, um reservatório inútil. Cresci em altos e baixos, lado a lado com a loucura, com o desvio, com o insólito.
Discurso varrido para debaixo do tapete. Palavra esquecida de um amor impossível.
Por que sofro por amor? O amor deveria me colocar radiante, ligado, em contato com o mundo, com o outro. Objeto de desejo, de satisfação, de entrega. Porém, de perda, de incerteza, de renúncia.
Incapaz de escolher, de posicionar-me frente ao mundo, ao olhar do outro, retribuo com minha aspereza, solidão e tristeza.
Caminho por entre prédios e casas antigas. Reparo nos traços, nas linhas, no volume, no peso das coisas. Escorrego entre olhares e bocas, famintos por contato, por filiação.
Pelas ruas e esquinas da cidade, sigo o ritmo da minha alma, de meu corpo, de meu desejo. Desejo furado, esburacado, despedaçado. Arrebato a tristeza com força e violência. Espero encontrar-me pelas ruas e esquinas da cidade.
Monday, February 28, 2005
Parati
Parati, como foram grandes as alegrias e intensos os sentimentos.
Lembranças e recordações de excelentes momentos.
Experiências e descobertas a cada passagem.
Suas ruas empedradas e casas coloniais.
Seu ar bucólico e calmo contrasta com o fervor e a paixão de suas águas.
A calmaria da ribeira, com seu leve arrastar de pensamentos e dúvidas.
Certeza, plenitude, clareza e objetividade.
Um caminho entre caminhos, esquinas e rostos.
Semblantes de um tempo indefinido, chamado presente.
Convivendo com passado e futuro na mesma pele, na mesma alma.
Sofre de amores, dores e perdas. Chora tuas lágrimas em tua grama morna.
Escuta o balanço do vento nos coqueiros, o soar dos pássaros, das pessoas.
Vive o presente que nos é dado.
Um retorno e uma despedida.
Uma procura e um encontro.
Entre olhares e corpos. Lembranças tácteis, sonoras, olfativas.
Sem aquele gosto, aquele rosto, aquelas pernas.
Você.
Parati escrevo uma pequena lembrança de um presente ofegante.
Querias que estivesse comigo, que pudesse viver tudo aquilo.
Mas sei que viveste e estiveste lá. Comprovara com o corpo e o espírito o ar.
Um beijo parati.
Lembranças e recordações de excelentes momentos.
Experiências e descobertas a cada passagem.
Suas ruas empedradas e casas coloniais.
Seu ar bucólico e calmo contrasta com o fervor e a paixão de suas águas.
A calmaria da ribeira, com seu leve arrastar de pensamentos e dúvidas.
Certeza, plenitude, clareza e objetividade.
Um caminho entre caminhos, esquinas e rostos.
Semblantes de um tempo indefinido, chamado presente.
Convivendo com passado e futuro na mesma pele, na mesma alma.
Sofre de amores, dores e perdas. Chora tuas lágrimas em tua grama morna.
Escuta o balanço do vento nos coqueiros, o soar dos pássaros, das pessoas.
Vive o presente que nos é dado.
Um retorno e uma despedida.
Uma procura e um encontro.
Entre olhares e corpos. Lembranças tácteis, sonoras, olfativas.
Sem aquele gosto, aquele rosto, aquelas pernas.
Você.
Parati escrevo uma pequena lembrança de um presente ofegante.
Querias que estivesse comigo, que pudesse viver tudo aquilo.
Mas sei que viveste e estiveste lá. Comprovara com o corpo e o espírito o ar.
Um beijo parati.
Saturday, February 19, 2005
Tristes amarras
"Nada é fixo para aquele que alternadamente pensa e sonha..."
Essas tristes amarras que nos impedem de avançar e atingir nossos objetivos. Elas são tênues ou gritantes, clamam por resolução, dissolução. Namoros, beijos, encontros, casamentos, trabalho. Tudo, sem exceção, pode fazer parte constituinte dessas amarras.
Grades, cordas e correntes. Peso, enfermidades, tristeza profunda e melancolia. Estados da alma que refletem nosso desejo de libertação, de conquista de um sonho. Sonho e ilusão, convivência pacífica no mundo da imagem e do ideal. Porém, desilusão e realidade, relação explosiva no mundo da linguagem e do capital.
Gordos, magros, fenícios ou brasileiros. Todos sofrem e sonham e pensam em atingir objetivos, ultrapassar obstáculos e realizar um antigo sonho. Transmitido na voz daqueles que nos contam nossas histórias, que relatam nossa viagem. O outro através do qual existimos. Construção de caminhos singulares através da interpretação e tradução de vozes incessantes que nos dizem de nós mesmos. "Permanente retificação".
Encontro de opostos, antagonismos conversam e lado a lado estabelecem formas de pensar e sonhar. Desconstrução de paredes, edifícios e arquipélagos de pensamentos e imaginação. Criação solta e descontínua de um olhar, abstrato, perdido, corrompido pelas tradições e contradições da cultura.
Permanente mudança. Contradição semântica de uma vida baseada em sonhos e perdas. Tristes amarras que nos seguram e impedem que sigamos a corrente do rio. Soltemo-nos! Permitamos viver a intensidade do rio, de suas quedas e marasmos, da insegurança e da incerteza, da força e da vitalidade.
Amarrarás, amarras, amarás, amara, amor.
Essas tristes amarras que nos impedem de avançar e atingir nossos objetivos. Elas são tênues ou gritantes, clamam por resolução, dissolução. Namoros, beijos, encontros, casamentos, trabalho. Tudo, sem exceção, pode fazer parte constituinte dessas amarras.
Grades, cordas e correntes. Peso, enfermidades, tristeza profunda e melancolia. Estados da alma que refletem nosso desejo de libertação, de conquista de um sonho. Sonho e ilusão, convivência pacífica no mundo da imagem e do ideal. Porém, desilusão e realidade, relação explosiva no mundo da linguagem e do capital.
Gordos, magros, fenícios ou brasileiros. Todos sofrem e sonham e pensam em atingir objetivos, ultrapassar obstáculos e realizar um antigo sonho. Transmitido na voz daqueles que nos contam nossas histórias, que relatam nossa viagem. O outro através do qual existimos. Construção de caminhos singulares através da interpretação e tradução de vozes incessantes que nos dizem de nós mesmos. "Permanente retificação".
Encontro de opostos, antagonismos conversam e lado a lado estabelecem formas de pensar e sonhar. Desconstrução de paredes, edifícios e arquipélagos de pensamentos e imaginação. Criação solta e descontínua de um olhar, abstrato, perdido, corrompido pelas tradições e contradições da cultura.
Permanente mudança. Contradição semântica de uma vida baseada em sonhos e perdas. Tristes amarras que nos seguram e impedem que sigamos a corrente do rio. Soltemo-nos! Permitamos viver a intensidade do rio, de suas quedas e marasmos, da insegurança e da incerteza, da força e da vitalidade.
Amarrarás, amarras, amarás, amara, amor.
Monday, February 14, 2005
Outra vida
Acordei uma vez em lugar desconhecido
Não reconhecia nada, nem o cheiro do ar
Acordara de repente com o som de uma voz
Não sabia de quem, nem de onde ela vinha
Meu corpo cansado não conseguia mover
Minha mente perturbada não podia pensar
De imagem em imagem, figurava-se uma vida.
Acordei assustado, não sabia quem era
Ou o que estava fazendo ali e para onde ia
Não havia sequer uma poça para servir de espelho
Meus olhos não encontravam janelas, nem portas
Não havia paredes, nem teto, nem salas, nem quartos
Minhas mãos trêmulas procuravam em vão
Um encosto, uma ferramenta qualquer
Meus olhos marejados resistiam ao vento frio.
Respirava um ar cadenciado, pesado e inseguro
Pensava sem razão, nem limites, nas coisas da vida
No nascimento, na morte, no amor e no trabalho
Quem seria responsável por tudo aquilo?
Não será fácil encontrar respostas
Tampouco direções, sentidos para as questões
Um brilho intenso, porém distante me ligava
Me trazia para dentro de mim mesmo
Me sentia preso, antenado, implantado
Como um dente postiço na realidade da boca
Pendia como um cabelo solto, preso à roupa.
Acordei assustado, ofegante e perplexo
Diante daquela imagem, da minha figura
Preso, perdido, inaudito, esquecido
Um olhar sem retorno, sem o outro
Uma voz sem ouvido, sem tom nem sentido
Outra vida que se abria, uma vida que morria
Um sonho que há muito esquecia
De um brilho no escuro do esquecimento
Numa realidade perdida em realidades.
Outra vida, de alguém, de um sonho real
Vida outra, de ninguém, de um real onírico
Outra... vida... alguém... ninguém...
Não reconhecia nada, nem o cheiro do ar
Acordara de repente com o som de uma voz
Não sabia de quem, nem de onde ela vinha
Meu corpo cansado não conseguia mover
Minha mente perturbada não podia pensar
De imagem em imagem, figurava-se uma vida.
Acordei assustado, não sabia quem era
Ou o que estava fazendo ali e para onde ia
Não havia sequer uma poça para servir de espelho
Meus olhos não encontravam janelas, nem portas
Não havia paredes, nem teto, nem salas, nem quartos
Minhas mãos trêmulas procuravam em vão
Um encosto, uma ferramenta qualquer
Meus olhos marejados resistiam ao vento frio.
Respirava um ar cadenciado, pesado e inseguro
Pensava sem razão, nem limites, nas coisas da vida
No nascimento, na morte, no amor e no trabalho
Quem seria responsável por tudo aquilo?
Não será fácil encontrar respostas
Tampouco direções, sentidos para as questões
Um brilho intenso, porém distante me ligava
Me trazia para dentro de mim mesmo
Me sentia preso, antenado, implantado
Como um dente postiço na realidade da boca
Pendia como um cabelo solto, preso à roupa.
Acordei assustado, ofegante e perplexo
Diante daquela imagem, da minha figura
Preso, perdido, inaudito, esquecido
Um olhar sem retorno, sem o outro
Uma voz sem ouvido, sem tom nem sentido
Outra vida que se abria, uma vida que morria
Um sonho que há muito esquecia
De um brilho no escuro do esquecimento
Numa realidade perdida em realidades.
Outra vida, de alguém, de um sonho real
Vida outra, de ninguém, de um real onírico
Outra... vida... alguém... ninguém...
Wednesday, February 09, 2005
Vai e vem
Vai e vem das ondas, do vento
dos sabores e das cores
vai e vem de amores, de dores
de desespero e da loucura.
Vai e vem de olhares, de beijos
de cheiros e temperos
vai e vem de energia, de contato
do outro e de si mesmo.
Neste vai e vem experimento
brinco com a palavra, com o céu
brinco de ser entre, solto, fluido
protegido apenas por um chapéu.
Vai e vem carnavalesco, burlesco
trans, multi, duo, solo
plural e contínuo, ininterrupto provar
testar de limites e fronteiras
vai e vem de pensamentos, imagens
frutas e pratos.
Vai e vem quente e úmido
encharcado, pesado e leve
assado ou frito, com cerveja e cachaça.
Grande beijo aos foliões de todo Brasil!!
Soltemo-nos sempre!! Libertemo-nos!!
dos sabores e das cores
vai e vem de amores, de dores
de desespero e da loucura.
Vai e vem de olhares, de beijos
de cheiros e temperos
vai e vem de energia, de contato
do outro e de si mesmo.
Neste vai e vem experimento
brinco com a palavra, com o céu
brinco de ser entre, solto, fluido
protegido apenas por um chapéu.
Vai e vem carnavalesco, burlesco
trans, multi, duo, solo
plural e contínuo, ininterrupto provar
testar de limites e fronteiras
vai e vem de pensamentos, imagens
frutas e pratos.
Vai e vem quente e úmido
encharcado, pesado e leve
assado ou frito, com cerveja e cachaça.
Grande beijo aos foliões de todo Brasil!!
Soltemo-nos sempre!! Libertemo-nos!!
Wednesday, February 02, 2005
Carnaval e loucura
Quem acredita nos ditames de época e nos valores que regem nossas atitudes, tende a deixar de lado as relações entre as coisas, entre as pessoas e os momentos. Somos tudo aquilo que sonhamos e mais um pouco no olhar do outro. A carnaval nos libera do enfadonho papel de cidadão civilizado e acostumado com as regras sociais, domesticado digamos assim. Como tentamos fazer com a loucura, tampando nossos ouvidos e fechando nossos olhos. Não percebemos as possibilidades e riqueza ímpar que existem na loucura. Sem romantismos. A loucura é feita de sofrimento, de uma angústia e perplexidade únicas. Porém, existe algo de criativo também. De uma nova configuração da vida e da realidade. Nesse sentido, o carnaval cria sua própria loucura, domesticada nos blocos e desfiles.
A loucura própria do carnaval é marcada pelo exagero e excesso. Um momento em que os limites se alargam e aquilo que nos anima pode vibrar. Aquilo que vem do animal humano, da origem de nosso ser primitivo.
O carnaval e a loucura em muito se assemelham. As falas entrecortadas, os olhares e sabores. Cheiros de uma nova vida que se abre. De sofrimento, de alegria, de surpresa e amor. Tudo que advém da loucura ou do carnaval é produtivo, uma vez que algo novo se estabelece. Uma outra razão. Talvez aquela esquecida no fundo do peito. Ou ainda aquela irremediável paixão pelo samba e vibração do carnaval.
Seja como for, loucura ou não, sob o domínio do clóvis ou na vida cotidiana, libertemo-nos, sejamos livres para mudar a realidade e as pessoas que nos rodeiam.
A loucura própria do carnaval é marcada pelo exagero e excesso. Um momento em que os limites se alargam e aquilo que nos anima pode vibrar. Aquilo que vem do animal humano, da origem de nosso ser primitivo.
O carnaval e a loucura em muito se assemelham. As falas entrecortadas, os olhares e sabores. Cheiros de uma nova vida que se abre. De sofrimento, de alegria, de surpresa e amor. Tudo que advém da loucura ou do carnaval é produtivo, uma vez que algo novo se estabelece. Uma outra razão. Talvez aquela esquecida no fundo do peito. Ou ainda aquela irremediável paixão pelo samba e vibração do carnaval.
Seja como for, loucura ou não, sob o domínio do clóvis ou na vida cotidiana, libertemo-nos, sejamos livres para mudar a realidade e as pessoas que nos rodeiam.
Tuesday, February 01, 2005
Olhando o galho seco
Um galho seco caído ao chão. Símbolo para o olhar, matéria em decomposição.
Um pedaço da árvore, de mim, que cai.
Como um esqueleto, olhando galho seco
Noto a ausência de significado em sua existência
Mas, o que chega ao olhar é o símbolo do tempo
Da eterna passagem do tempo e da perda
Daquilo que uma vez significou pouso, abrigo para os pássaros
Hoje, morto, cai ao chão, perde sua função, fica ali para alguém olhar.
Olhando o galho seco, vejo minha vida
Vejo a vida de muitos, de todos que uma vez amaram
O galho seco olha de volta, me diz que seu tempo acabou
Me saúda com graça e sorri com doçura.
Sua morte é apenas uma passagem
No tempo, no espaço, tudo é perecível, mesmo o amor.
O galho seco é amor, porque é belo, é sem sentido, perdido
Belo em suas formas, em seu conteúdo
Sem sentido em sua existência, em sua utilidade
Perdido ao estar caído no chão, separado da árvore que lhe deu origem.
Como um galho seco caído ao chão, reparo em você
Perdemos o contato, o fio da meada
Aquilo que nos ligava à árvore do amor e da fala
Caiu com o galho seco, passou na passagem do tempo
Das escolhas, dos olhos, dos corpos e pensamentos.
Olhando o galho seco caído ao chão, vejo a mim mesmo
Caído, saído de um todo, descolado do mundo
A parte do vivente, do presente inaudito, da graça do amor
Como o galho seco, uma parte de mim morreu
Mas, morreu com graça, beleza e amor
Um pedaço da árvore, de mim, que cai.
Como um esqueleto, olhando galho seco
Noto a ausência de significado em sua existência
Mas, o que chega ao olhar é o símbolo do tempo
Da eterna passagem do tempo e da perda
Daquilo que uma vez significou pouso, abrigo para os pássaros
Hoje, morto, cai ao chão, perde sua função, fica ali para alguém olhar.
Olhando o galho seco, vejo minha vida
Vejo a vida de muitos, de todos que uma vez amaram
O galho seco olha de volta, me diz que seu tempo acabou
Me saúda com graça e sorri com doçura.
Sua morte é apenas uma passagem
No tempo, no espaço, tudo é perecível, mesmo o amor.
O galho seco é amor, porque é belo, é sem sentido, perdido
Belo em suas formas, em seu conteúdo
Sem sentido em sua existência, em sua utilidade
Perdido ao estar caído no chão, separado da árvore que lhe deu origem.
Como um galho seco caído ao chão, reparo em você
Perdemos o contato, o fio da meada
Aquilo que nos ligava à árvore do amor e da fala
Caiu com o galho seco, passou na passagem do tempo
Das escolhas, dos olhos, dos corpos e pensamentos.
Olhando o galho seco caído ao chão, vejo a mim mesmo
Caído, saído de um todo, descolado do mundo
A parte do vivente, do presente inaudito, da graça do amor
Como o galho seco, uma parte de mim morreu
Mas, morreu com graça, beleza e amor
Monday, January 31, 2005
Já?
Já passou todo esse tempo?
Que tempo estamos falando?
O tempo que passa, ora. Já passou?
Mas, tudo passa, não?
E o que passa diante de nossos olhos?
Passa também, não é verdade?
Não sei, talvez passemos no tempo...
Como assim?
Caminhamos durante um período de tempo, mas o tempo é o mesmo.
Não concordo, o tempo muda, a cultura muda, tudo muda.
Tudo muda e continua a mesma coisa. Temos a vida inteira para voltar sempre ao mesmo ponto.
Nunca é o mesmo ponto.
Talvez não o seja a maquiagem, a fantasia, mas o ponto é o mesmo.
Se o ponto é o mesmo, então não aprendemos? Não evoluimos?
Não.
Não é bem assim. Todos aprendemos alguma coisa, evoluimos profissional e pessoalmente.
Pode ser, mas o ponto é sempre o mesmo. nos colocamos diante de situações várias, diferentes umas das outras, mas estamos sempre diante da mesma coisa.
Bem, se estamos sempre diante do mesmo ponto e vivemos em círculos, para que viver?
Essa é a questão da existência: por que viver? Para que? Qual o sentido da vida e daquilo que projetamos n(d)ela?
Não há sentido, essa talvez seja a única verdade. Damos um sentido para sentirmo-nos pertencentes a algum tempo espaço. Como se fizéssemos parte de algum movimento maior, superior.
Deus está morto.
Certamente.
Nossa galáxia é mais uma dentre as milhares de outras galáxias espalhadas no Universo.
Correto de novo.
Mas, o que fazer para melhorar? Como ter acesso a isso que nos coloca sempre diante do mesmo ponto?
Análise pessoal. Escrutínio insólito. Confissão capitalista e estatutária de um atributo social disposto sobre a moralidade e a perversão.
Agora sim, não entendi nada.
Não faz sentido. É o que bate dentro de ti que vai voltar como questão.
A questão, então, é: como estar diante d'isso, voltando para o mesmo ponto, mas atingindo novos patamares? Conhecimento? Ciência? Trabalho? Amor?
Existência. Existir em si e no mundo. Diante de si e do outro. Movimentar-se num tempo vazio e infinito, ininterrupto e incrédulo. Sem sentido.
Nada faz sentido.
Nosso olhar o faz.
Qual o sentido em olhar?
Olhar já é sentido em si mesmo.
Que tempo estamos falando?
O tempo que passa, ora. Já passou?
Mas, tudo passa, não?
E o que passa diante de nossos olhos?
Passa também, não é verdade?
Não sei, talvez passemos no tempo...
Como assim?
Caminhamos durante um período de tempo, mas o tempo é o mesmo.
Não concordo, o tempo muda, a cultura muda, tudo muda.
Tudo muda e continua a mesma coisa. Temos a vida inteira para voltar sempre ao mesmo ponto.
Nunca é o mesmo ponto.
Talvez não o seja a maquiagem, a fantasia, mas o ponto é o mesmo.
Se o ponto é o mesmo, então não aprendemos? Não evoluimos?
Não.
Não é bem assim. Todos aprendemos alguma coisa, evoluimos profissional e pessoalmente.
Pode ser, mas o ponto é sempre o mesmo. nos colocamos diante de situações várias, diferentes umas das outras, mas estamos sempre diante da mesma coisa.
Bem, se estamos sempre diante do mesmo ponto e vivemos em círculos, para que viver?
Essa é a questão da existência: por que viver? Para que? Qual o sentido da vida e daquilo que projetamos n(d)ela?
Não há sentido, essa talvez seja a única verdade. Damos um sentido para sentirmo-nos pertencentes a algum tempo espaço. Como se fizéssemos parte de algum movimento maior, superior.
Deus está morto.
Certamente.
Nossa galáxia é mais uma dentre as milhares de outras galáxias espalhadas no Universo.
Correto de novo.
Mas, o que fazer para melhorar? Como ter acesso a isso que nos coloca sempre diante do mesmo ponto?
Análise pessoal. Escrutínio insólito. Confissão capitalista e estatutária de um atributo social disposto sobre a moralidade e a perversão.
Agora sim, não entendi nada.
Não faz sentido. É o que bate dentro de ti que vai voltar como questão.
A questão, então, é: como estar diante d'isso, voltando para o mesmo ponto, mas atingindo novos patamares? Conhecimento? Ciência? Trabalho? Amor?
Existência. Existir em si e no mundo. Diante de si e do outro. Movimentar-se num tempo vazio e infinito, ininterrupto e incrédulo. Sem sentido.
Nada faz sentido.
Nosso olhar o faz.
Qual o sentido em olhar?
Olhar já é sentido em si mesmo.
Saturday, January 29, 2005
Chega
Ah, coração insensato
Chega de remorsos, de rancores
Chega de saudades e dores
Ah, corpo dilacerado
Chega de arrependimentos e maltratos
Chega de insultos e descasos
Ah, adormecer custoso
Chega de imagens e pensamentos
Chega de ilusões e sofrimentos
Ah, sono intranquilo
Repleto de símbolos
Chega de intromissões e descuidados
Ah, acordar sonolento
Chega de delongas
Chega de nomes e esperança
Ah, delírio amoroso
Chega de remédios
Chega de soníferos e calmantes
Chega mais
Menos
Demais
Chegamos aqui, nesse lugar
Chega-se ali, com outro olhar
Chegara num lugar, diferente do amar
Chega de se apaixonar, de se mudar
Chega mais perto
Escuta só
Chega em algum lugar, espreita
Respira lenta e profundamente
Chega a dizer, sentir e pensar
Chega de frear, de ressentir e chorar
A vida é alegria, tristeza
Amor, ódio, paixão e beleza
A morte é deixar de sentir, de perder
O sentido próprio da vida
Sem ilusões, nem fracassos
Sem competições, sem descasos
Chega de correr, de nadar contra a maré
Chega mais, chega mais perto
Coloca teus lábios nos meus
Escuta meu coração vibrar
Repara em meus olhos a te fitar
Chega de saudades, de rancores e dissabores
Chega, chega de dizer, de sentir e pensar
Chega a algum lugar
Chega para ver, deixar-se ver
Chega perto, mais perto
Chega de remorsos, de rancores
Chega de saudades e dores
Ah, corpo dilacerado
Chega de arrependimentos e maltratos
Chega de insultos e descasos
Ah, adormecer custoso
Chega de imagens e pensamentos
Chega de ilusões e sofrimentos
Ah, sono intranquilo
Repleto de símbolos
Chega de intromissões e descuidados
Ah, acordar sonolento
Chega de delongas
Chega de nomes e esperança
Ah, delírio amoroso
Chega de remédios
Chega de soníferos e calmantes
Chega mais
Menos
Demais
Chegamos aqui, nesse lugar
Chega-se ali, com outro olhar
Chegara num lugar, diferente do amar
Chega de se apaixonar, de se mudar
Chega mais perto
Escuta só
Chega em algum lugar, espreita
Respira lenta e profundamente
Chega a dizer, sentir e pensar
Chega de frear, de ressentir e chorar
A vida é alegria, tristeza
Amor, ódio, paixão e beleza
A morte é deixar de sentir, de perder
O sentido próprio da vida
Sem ilusões, nem fracassos
Sem competições, sem descasos
Chega de correr, de nadar contra a maré
Chega mais, chega mais perto
Coloca teus lábios nos meus
Escuta meu coração vibrar
Repara em meus olhos a te fitar
Chega de saudades, de rancores e dissabores
Chega, chega de dizer, de sentir e pensar
Chega a algum lugar
Chega para ver, deixar-se ver
Chega perto, mais perto
Friday, January 28, 2005
Amor?
O que é amor, afinal? Perder-se no outro? Esquecer-se de si? Iludir-se com promessas e sonhos desvairados? Admito: não sei o que é amor. Quando pensei tê-lo descoberto, percebi que não havia nada ali senão rancor, mágoas e arrependimento.
Não falo por ninguém além de mim. Sou, certamente, uma pessoa difícil de se lidar, mas cativo quem convive comigo e sou capaz de alterar minha forma conforme as solicitações do outro. Talvez esteja aí meu erro: mudar-me. Não devo, e assim sugiro a todos que lerem, não me mudar em função do outro. A pior coisa que pode acontecer é isso. Pois quando se vê que o amor acabou, ou nunca existiu, temos de retroceder, voltar até aquele ponto em que estávamos.
É muito custoso ter de voltar, de aceitar o movimento da vida e não poder fazer nada para mudá-lo. Apenas o nosso movimento pode ser alterado, e, mesmo assim, com dificuldades e limites consideráveis.
Amor? Afinal, o que significa amor?
Não falo por ninguém além de mim. Sou, certamente, uma pessoa difícil de se lidar, mas cativo quem convive comigo e sou capaz de alterar minha forma conforme as solicitações do outro. Talvez esteja aí meu erro: mudar-me. Não devo, e assim sugiro a todos que lerem, não me mudar em função do outro. A pior coisa que pode acontecer é isso. Pois quando se vê que o amor acabou, ou nunca existiu, temos de retroceder, voltar até aquele ponto em que estávamos.
É muito custoso ter de voltar, de aceitar o movimento da vida e não poder fazer nada para mudá-lo. Apenas o nosso movimento pode ser alterado, e, mesmo assim, com dificuldades e limites consideráveis.
Amor? Afinal, o que significa amor?
Thursday, January 27, 2005
O amor, onde foi parar?
Respiro alto e com força. Perco o folêgo e a concentração. Só penso no amor e onde foi parar? Será que ele se vai junto com a pessoa? Mergulhar no outro é uma saída fácil para aplacar os conflitos e as frustrações internas. O problema está em mergulhar em si mesmo e fazer brotar o amor de dentro das vísceras até a pele e leva-lo ao mundo com carinho e cuidado.
O amor, onde foi parar? Estacionou em lugar proibido e foi rebocado. Arrastado até um pátio com centenas de outros amores perdidos. Corações partidos e mentes obcecadas. Idéias fixas e lembranças recorrentes. Imagens e sensações que emanam do corpo e habitam o espaço subjetivo, o dentro e o fora de nossa almacorpo.
O amor, será que ele pára em algum lugar? Ou está sempre transitando, procurando onde estacionar?
Não desejo para ninguém entregar o amor na mão do outro. Tampouco desejo que se arrastem aqueles amores confusos e derradeiros, que tratam tão-somente da insegurança e da falta de confiança. Para o amor não é preciso esforço, força de vontade, abrir mão e nem ceder.
O amor, onde foi parar? Parou por algum tempo em frente de casa e deu um alô. Apareceu na janela e saiu correndo sem dizer adeus. Aliás, disse. Mas não resolveu. Correndo, correndo até cansar, o amor foi parar longe de mim, perto da memória e daquilo que só imagino.
Onde foi parar o amor? Está aí?
O amor, onde foi parar? Estacionou em lugar proibido e foi rebocado. Arrastado até um pátio com centenas de outros amores perdidos. Corações partidos e mentes obcecadas. Idéias fixas e lembranças recorrentes. Imagens e sensações que emanam do corpo e habitam o espaço subjetivo, o dentro e o fora de nossa almacorpo.
O amor, será que ele pára em algum lugar? Ou está sempre transitando, procurando onde estacionar?
Não desejo para ninguém entregar o amor na mão do outro. Tampouco desejo que se arrastem aqueles amores confusos e derradeiros, que tratam tão-somente da insegurança e da falta de confiança. Para o amor não é preciso esforço, força de vontade, abrir mão e nem ceder.
O amor, onde foi parar? Parou por algum tempo em frente de casa e deu um alô. Apareceu na janela e saiu correndo sem dizer adeus. Aliás, disse. Mas não resolveu. Correndo, correndo até cansar, o amor foi parar longe de mim, perto da memória e daquilo que só imagino.
Onde foi parar o amor? Está aí?
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