Sunday, March 06, 2005

Tragédia em um ato

Perdeu de vista aquela imagem que lhe parecia a mais bela sobre a terra. Experimentou um súbito surto de angústia e desespero, só, separado daquela criatura singular. Ao seu redor somente as árvores conversavam entre si, rangendo os galhos em abraços imensos, sorrindo ao sabor do vento em suas folhas. Árvores, corpos, onde a seiva corre por largos dutos, chegam em grande escala. Percorrem o subsolo, a superfície, o espaço.
Sorrindo de sua própria condição, lograva encontrar novamente a imagem que lhe suscitou tanto desejo e paixão. Sabia, no entanto, que não a teria outra vez, permaneceria como imagem, lembrança. Perdido, não querendo acreditar, pôs-se a correr por entre os bosques de árvores que conversavam eternamente. Rompendo com as fardas, com os botões e fitas, corria em busca do belo, da perfeição. A imortalidade nada significa para quem olha e procura o belo, a perfeição. Este sabe que terá, algum dia, que morrer por aquilo que anseia.
Exausto, repousa em raízes profundas, onde existem outros mundos. Mundos minúsculos e fantásticos. Sua cabeça lateja e o corpo pede por clemência. Seus olhos semi-cerram com as gotas de suor e lágrimas carregadas de ira e ódio.
Sua cor era branca, pálida como cera. Porém, seu rosto despontava a vermelhidão do sangue lhe percorrendo os mesmos dutos daquelas árvores. Sentiu-se como parte daquela selva. Seu corpo, sua existência para além dos sentidos, sua razão e lógica individual, lhe haviam mostrado que o belo era a única busca satisfatória.
Abriu levemente os olhos e percebeu que voltava de algum lugar. Outro lugar. Vinha de uma escuridão, de uma ausência. Permanecera nesse lugar, entre uma coisa e outra, nem acordado nem dormindo, num crepúsculo transcendental. À medida em que retornava ao mundo da luz e da imensidão, percebia que teria de continuar sua busca. Não poderia desistir. Sua luta seria perpétua, até a morte.
Levantou o olhar para as copas das árvores que, nesse momento, cuidavam atentamente daquela pequena e frágil criatura. Suas raízes criaram proteção e alimento para a alma. Suas folhas acariciavam o vento numa melodia fenomenal.
Ergueu o corpo, seguiu obstinado um caminho qualquer. Não tinha nada, exceto a lembrança sensível daquela imagem real e vívida da perfeição.

3 comments:

Anna said...

oi.

Anna said...

não quis interromper.

Anonymous said...

Um ato que repentinamente se tornou tragédia no momento em que não pode virar segundo... Tragédia passageira do trem que reencontrou sua estação. Nova germinação de sonho e esperança de futura árvore brasileira.