Perdeu de vista aquela imagem que lhe parecia a mais bela sobre a terra. Experimentou um súbito surto de angústia e desespero, só, separado daquela criatura singular. Ao seu redor somente as árvores conversavam entre si, rangendo os galhos em abraços imensos, sorrindo ao sabor do vento em suas folhas. Árvores, corpos, onde a seiva corre por largos dutos, chegam em grande escala. Percorrem o subsolo, a superfície, o espaço.
Sorrindo de sua própria condição, lograva encontrar novamente a imagem que lhe suscitou tanto desejo e paixão. Sabia, no entanto, que não a teria outra vez, permaneceria como imagem, lembrança. Perdido, não querendo acreditar, pôs-se a correr por entre os bosques de árvores que conversavam eternamente. Rompendo com as fardas, com os botões e fitas, corria em busca do belo, da perfeição. A imortalidade nada significa para quem olha e procura o belo, a perfeição. Este sabe que terá, algum dia, que morrer por aquilo que anseia.
Exausto, repousa em raízes profundas, onde existem outros mundos. Mundos minúsculos e fantásticos. Sua cabeça lateja e o corpo pede por clemência. Seus olhos semi-cerram com as gotas de suor e lágrimas carregadas de ira e ódio.
Sua cor era branca, pálida como cera. Porém, seu rosto despontava a vermelhidão do sangue lhe percorrendo os mesmos dutos daquelas árvores. Sentiu-se como parte daquela selva. Seu corpo, sua existência para além dos sentidos, sua razão e lógica individual, lhe haviam mostrado que o belo era a única busca satisfatória.
Abriu levemente os olhos e percebeu que voltava de algum lugar. Outro lugar. Vinha de uma escuridão, de uma ausência. Permanecera nesse lugar, entre uma coisa e outra, nem acordado nem dormindo, num crepúsculo transcendental. À medida em que retornava ao mundo da luz e da imensidão, percebia que teria de continuar sua busca. Não poderia desistir. Sua luta seria perpétua, até a morte.
Levantou o olhar para as copas das árvores que, nesse momento, cuidavam atentamente daquela pequena e frágil criatura. Suas raízes criaram proteção e alimento para a alma. Suas folhas acariciavam o vento numa melodia fenomenal.
Ergueu o corpo, seguiu obstinado um caminho qualquer. Não tinha nada, exceto a lembrança sensível daquela imagem real e vívida da perfeição.
Sunday, March 06, 2005
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3 comments:
oi.
não quis interromper.
Um ato que repentinamente se tornou tragédia no momento em que não pode virar segundo... Tragédia passageira do trem que reencontrou sua estação. Nova germinação de sonho e esperança de futura árvore brasileira.
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